Ana deixou Portugal por MS e até dormindo inventa receita
Mãe e filha começaram em feira com mesa improvisada e hoje dividem a rotina entre chácara, eventos e loja

Há pouco mais de 2 anos, uma estrutura de ferro coberta por uma tábua serviu de mesa para o início de uma história que atravessou o Atlântico. Vindas de Golegã, pequena vila do distrito de Santarém, em Portugal, as expositoras do Sabores Luso-Brasileiro, Ana Isabel dos Santos, de 46 anos, e a filha, Adriana Antunes, de 26, encontraram nas feiras de Campo Grande um caminho para recomeçar em Mato Grosso do Sul.
RESUMO
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Ana Isabel dos Santos, de 46 anos, e a filha, Adriana Antunes, de 26, deixaram Golegã, em Portugal, e se mudaram para uma chácara em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul. Começaram a vender pratos portugueses, pães, queijos artesanais e empadas, como a de camarão, nas feiras de Campo Grande. Após cerca de dois anos, abriram uma loja própria na cidade, há três meses, mas seguem nos eventos, onde chegam a participar de três por fim de semana.
A mudança para o Brasil aconteceu depois de anos de uma rotina dividida entre Portugal e Espanha. Casada há 16 anos com um brasileiro de Campo Grande, Ana mantinha negócios na Europa, enquanto o marido trabalhava na Espanha e retornava para casa apenas nos fins de semana. Cansados da correria e da distância, os dois começaram a imaginar uma vida diferente na propriedade da sogra, em Sidrolândia.
No início, a intenção era cuidar da chácara mesmo permanecendo na Europa, mas a distância tornou o plano pouco prático. Durante uma viagem ao Brasil, em fevereiro, para o casamento do cunhado, Ana resolveu antecipar a mudança. “Eu disse para o meu marido: ‘Se é para ir, é para ir já’. Em junho falei: ‘Pode comprar as passagens, que eu já mandei roupa e tudo de navio’. Se era para vir, íamos logo”, recorda.
A família então trocou Golegã pela região de Sidrolândia. Ana passou a viver na área rural, a cerca de 30 quilômetros da cidade, enquanto Adriana se estabeleceu na área urbana. A ideia era encontrar uma vida menos acelerada, mas o resultado foi o oposto.
Entre os cuidados com o gado leiteiro, produção de queijo, cozinha, encomendas e viagens para Campo Grande, o descanso ficou ainda mais distante. “Nós quisemos viver em chácara porque a nossa vida lá era bem corrida. Aqui ficou um pouco pior ainda”, brinca Ana.

Foi dentro dessa nova rotina que nasceu um negócio que nenhuma das duas havia planejado. Mãe e filha preparavam pratos portugueses para familiares e amigos conhecerem até que pessoas próximas sugeriram que elas começassem a vender. A ideia pareceu inicialmente exagerada.
“Começou tudo numa brincadeira entre família e amigos. A gente fazia essas comidas típicas portuguesas para experimentarem, até mesmo para conhecerem. Uns amigos propuseram que a gente vendesse para fora e pensamos: ‘Não, loucura, a gente não vai fazer isso’”, lembra Adriana.
A resistência durou pouco. Amigos que participavam da Feira do Ziriguidum convidaram as duas para dividir espaço com eles. A estreia foi praticamente sem estrutura. “A gente começou bem pequenininho, com um ferrozinho e apenas uma madeira em cima para fazer uma mesa”, conta Adriana. O tamanho da banca, porém, não correspondia ao trabalho feito antes de cada evento.
A cozinha passou a ocupar as madrugadas. Em alguns dias, mãe e filha ficavam acordadas até perto das 5h para preparar mais de 50 pães e dezenas de biscoitos. Aos poucos, outros convites apareceram. Vieram eventos na Praça da Bolívia, Bosque da Paz, Mixturô e Feira da Lagoa. Foi durante a Mixturô, no dia 2 de outubro, que a equipe do Lado B encontrou as duas trabalhando juntas.
A parceria também ganhou uma divisão natural de tarefas. Ana concilia a cozinha com a propriedade rural e os cuidados com o gado, enquanto Adriana participa da preparação, das vendas e da rotina das feiras.
Como trabalham com produção leiteira, não existe propriamente um dia de folga. As vacas precisam ser ordenhadas diariamente e o leite continua chegando independentemente de feriado, fim de semana ou feira.
Receita dos sonhos - Foi na chácara que Ana também aprendeu algo que nunca havia feito profissionalmente em Portugal: queijo. A referência vinha da infância, quando observava a avó preparar queijo de cabra. Com leite disponível na propriedade, resolveu tentar. “Eu nunca tinha feito queijo em Portugal. Fiz o primeiro, não deu muito certo. Fiz o segundo, não deu certo. O terceiro deu certo. Pronto, a partir daí começou o queijo”, conta.
A cozinha portuguesa completou a mistura. Pães, pastel de nata e bolinhos de bacalhau começaram a dividir espaço com os queijos produzidos na propriedade. Depois vieram as empadas de massa folhada. Uma delas nasceu de maneira inesperada: Ana acordou depois de sonhar que preparava algo com camarão e resolveu levar a ideia para a cozinha.

“Eu sonhei que queria fazer alguma coisa de camarão. Levantei e fui fazer a empada. E é a empada que mais sai”, relata. A combinação ganhou camarão, rúcula e cream cheese e acabou se tornando uma das mais procuradas nas feiras.
Improvisar receitas faz parte da maneira como Ana cozinha. Ela diz que dificilmente consegue reproduzir exatamente aquilo que encontra escrito. “Se eu olhar para uma receita e fizer igual, não dá certo. Tenho que fazer sempre a minha própria receita”, afirma.
Os pedidos dos clientes também passaram a determinar novos caminhos. Quando começaram a perguntar por refeições nas feiras, Ana decidiu testar, apesar da resistência inicial da filha. “Eu dizia para a Adriana: ‘Acho que a gente vai arriscar’. Ela falava: ‘Mãe, comida na feira?’. E nós começamos a fazer”, lembra.
Da feira para a freguesia - A decisão ampliou o público e fez com que a relação com os clientes ultrapassasse os dias de evento. Pessoas que conheceram os produtos nas bancas passaram a fazer encomendas durante a semana, e mãe e filha começaram a viajar regularmente para Campo Grande para realizar entregas.
O contato com o público também devolveu a Ana uma parte da vida que havia deixado em Portugal. Antes da mudança, ela já trabalhava no comércio e chegou a manter um salão de chá. A rotina rural trouxe novas experiências, mas também revelou uma saudade.
“Apesar de a chácara ter muito trabalho, eu sentia falta de lidar com o público. Quem lida com o público a vida toda sente essa diferença”, explica.
Depois de aproximadamente 2 anos circulando pelas feiras, o negócio ganhou um endereço próprio em Sidrolândia. A abertura da loja realizou um desejo que Ana já carregava havia algum tempo, mas que ainda não havia colocado em prática. Foi uma conversa com Adriana que deu o empurrão final. Quando a filha comentou que só faltava terem a própria “lojinha”, a mãe entendeu que não precisava esperar mais.

“Eu já tinha sonhado há muito tempo. Quando ela falou que só faltava abrir a nossa lojinha, eu disse: ‘Agora é a hora’. Acho que tudo tem o seu tempo e o momento para ser feito. Se a gente tivesse aberto antes, talvez não desse tão certo como dá agora”, conta Ana.
Ela telefonou para o marido, que estava trabalhando na Espanha, e comunicou que havia chegado o momento de tirar mais aquele projeto do papel. O espaço está aberto há cerca de 3 meses e representa uma mudança considerável para quem começou apoiando produtos sobre uma tábua nas primeiras feiras.
Adriana vê na trajetória a dimensão do esforço da família. “Passa muito rápido e a gente consegue ver o crescimento, principalmente sabendo que foi com o nosso suor, com o nosso trabalho”, afirma.
Ter um endereço próprio, entretanto, não fez Ana abandonar o lugar onde tudo começou. Se tivesse que escolher entre permanecer apenas na loja ou continuar percorrendo as feiras, ela não demonstra dúvida. “Se eu tivesse que escolher entre a loja e as feiras, sem dúvida, a feira”, afirma.
A preferência cobra disposição: há fins de semana em que a família participa de até 3 eventos, além das horas gastas anteriormente na produção artesanal dos alimentos, organização da barraca e transporte de toda a estrutura.
O sossego imaginado quando decidiram atravessar o oceano ainda não apareceu. No lugar dele vieram a ordenha diária, a produção de queijos e receitas, as encomendas, a estrada, a montagem da barraca e o atendimento ao público.
Mas foi justamente nessa rotina que Ana e Adriana construíram um novo capítulo da história da família. Quem quiser acompanhar o trabalho da barraca Sabores Luso-Brasileiro pode conferir o perfil @sabores_luso_brasileiro_24 no Instagram.
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