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Sabor

Contra capacitismo, mulheres cegas usam cozinha para discussão

Associação dos Deficientes Visuais de Mato Grosso do Sul promove ações para discutir sobre inclusão social

Por Aletheya Alves | 28/05/2022 07:53
Grupo parte da Associação dos Deficientes Visuais de Mato Grosso do Sul em evento. (Foto: Divulgação)
Grupo parte da Associação dos Deficientes Visuais de Mato Grosso do Sul em evento. (Foto: Divulgação)

Entre facas e alimentos, mulheres da Associação dos Deficientes Visuais de Mato Grosso do Sul se reuniram para discutir sobre como o capacitismo chega até mesmo à cozinha. E, ao invés de apenas falar, elas resolveram unir os ingredientes de um carreteiro aos da inclusão social para mostrar que desconhecimento e preconceito são os verdadeiros empecilhos e não a cegueira.

“Enquanto a sociedade está sempre nos questionando sobre como nossa vida acontece, nós estamos do outro lado falando sobre o que fazemos, mas não mostramos. Por isso, quisemos convidar algumas pessoas e mostrar.” Resumindo a ideia do evento “Cozinha Inclusiva”, realizado nesta sexta-feira (27) para convidados selecionados no Clube Gourmet da Camicado, a presidente da associação, Áurea Sena da Silva Sobrinho, de 56 anos, explica que a ação é um entre vários atos a favor da inclusão.

Mulheres prepraram receita de carreteiro gourmet. (Foto: Divulgação)
Mulheres prepraram receita de carreteiro gourmet. (Foto: Divulgação)

Organizado pela associação, o evento uniu mulheres com deficiência visual e pessoas que enxergam e apoiam a causa para discutir sobre a necessidade do conhecimento. Na defesa das pessoas com deficiência, Áurea conta que levar os convidados para a cozinha e gerar conversas em meio aos alimentos foi um modo de divulgar assuntos que continuam sendo necessários ainda hoje.

Relatando suas próprias experiências, a presidente narra que, assim como no trabalho ou nos estudos, mulheres com deficiência visual conseguem ter sua independência em todos os âmbitos da vida. “Existem caminhos, orientações que são ensinadas por profissionais da educação especial que fazem com que pessoas com deficiência sejam habilitadas a não parar suas vidas”, diz.

Através dos cortes realizados nos legumes e carnes para o preparo de um carreteiro gourmet, Áurea explicou que, exemplificando a necessidade das habilitações e reabilitações de pessoas com deficiência, os ensinamentos para inclusão podem ser vistos na prática.

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Por exemplo, nós aprendemos a cozinhar e isso significa que nosso arroz sai como o de qualquer outra pessoa. Isso porque apenas a maneira com que fazemos o processo é diferente", conta Áurea.

No caso da cozinha, a presidente explica que, por mais óbvio que possa parecer, é necessário explicar que a visão não é o único modo de construir o preparo dos alimentos.

Durante a vida, mulheres aprenderam técnicas para sua independência também na cozinha. (Foto: Divulgação)
Durante a vida, mulheres aprenderam técnicas para sua independência também na cozinha. (Foto: Divulgação)

“Não temos os olhos, mas o tato pode ser explorado, assim como o olfato. Para quem não participa do cotidiano, é difícil entender, mas a habilitação das aulas faz com que você aprenda técnicas, por exemplo, de como segurar a faca, de saber posicionar os alimentos e, desse jeito, é possível ter nossa independência”, Áurea diz.

Também participando da ação, a presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência de MS, Tania Cunha, detalhou que sua história é diferente da de Áurea, que cresceu sem a visão, mas que falar sobre a habilitação e inclusão é igualmente importante.

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É importante dizer que só porque a mulher é cega, ela não vai ficar fora da cozinha, dos afazeres domésticos, do trabalho fora de casa ou dos estudos. Eu mesma perdi a visão com 29 anos e reaprendi a viver e sendo independente", conta Tania.

Conforme ela explica, depois de perder a visão devido a uma doença chamada retinose pigmentar, sua “nova identidade” foi criada, incluindo a defesa pelos direitos. “Comecei a mudar minha história de vida e minha identidade de uma pessoa que enxergava para uma pessoa cega”, diz.

Foram dois anos de luto, mas após escolher viver, Tania não só buscou sua nova vida como passou a lutar pela inserção social de outras pessoas. “Estou enfrentando até hoje e continuo na defesa das pessoas com deficiência. Aqui, com a cozinha, estamos mostrando que ninguém fica impossibilitado de ter sua vida.”

Receita de carreteiro foi realizada pelo grupo. (Foto: Divulgação)
Receita de carreteiro foi realizada pelo grupo. (Foto: Divulgação)

Filha de Tânia Cunha e também participante da associação, a advogada da União, Jerusa Gabriela Ferreira, de 48 anos, detalha que a ideia da ação surgiu justamente pelos motivos apresentados pelas integrantes do grupo: a necessidade de discutir sobre o capacitismo. “Nós idealizamos ações para que essas mulheres tenham visibilidade no meio social, isso porque já sofrem discriminação por serem mulheres e, ainda mais, por serem pessoas com deficiência visual”, completa.

Apesar do evento ter sido apenas para convidados, ela explica que no decorrer do ano, novas ações serão realizadas, abrangendo um público maior. E, que, apenas com o evento de hoje, muito pôde ser dito.

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