Alta nominal do Plano Safra não repõe inflação, aponta Aprosoja/MS
Levantamento indica perda real de 2,9% no crédito e redução de R$ 29,8 bilhões no custeio agrícola

O volume recorde de R$ 525 bilhões anunciado pelo governo federal para o Plano Safra 2026/2027 não representa, na prática, um aumento da capacidade de financiamento dos produtores rurais. Levantamento da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul) mostra que a inflação acumulada no período superou o crescimento nominal dos recursos, reduzindo o poder de compra do crédito disponível.
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Segundo a equipe econômica da entidade, enquanto o montante do Plano Safra cresceu 1,7% em relação ao ciclo anterior, a inflação acumulada foi de aproximadamente 4,72%. Na prática, isso significa uma perda real de cerca de 2,9% na capacidade de financiamento dos produtores.
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Além da perda provocada pela inflação, a Aprosoja/MS aponta uma mudança na distribuição dos recursos. O volume destinado ao custeio e à comercialização, utilizado para financiar despesas da safra, como sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis e demais custos operacionais, foi reduzido em 7,2%, o equivalente a R$ 29,8 bilhões.
Em contrapartida, os recursos voltados para investimentos cresceram 38,1%, priorizando linhas destinadas à armazenagem, irrigação, geração de energia renovável, inovação e modernização das propriedades rurais.
Para o presidente da Aprosoja/MS, Jorge Michelc, o Plano Safra continua sendo um importante instrumento de apoio ao agronegócio, mas a efetividade dependerá da disponibilidade dos recursos durante o ciclo produtivo.
"O anúncio dos recursos é importante para o planejamento do setor, mas o produtor precisa olhar além dos valores divulgados. É fundamental que o crédito esteja disponível no momento em que for necessário, com condições que permitam financiar a produção e manter a competitividade da agricultura brasileira", afirma.
O analista econômico da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, destaca que a análise do programa deve considerar o efeito da inflação sobre os valores anunciados.
"Quando descontamos a inflação, observamos que o crescimento nominal não representa um ganho real na capacidade de financiamento. Além disso, a redução dos recursos destinados ao custeio pode limitar o acesso dos produtores ao crédito utilizado para financiar despesas da safra, como aquisição de insumos e demais custos operacionais", explica.
Na avaliação da entidade, embora o reforço das linhas de investimento seja positivo para ampliar a capacidade de armazenagem e modernizar as propriedades, esses recursos não substituem o crédito necessário para o custeio da produção.
"O aumento dos recursos para investimento é positivo, principalmente para projetos estruturantes que aumentam a eficiência das propriedades rurais. Entretanto, ele não substitui a necessidade de crédito para custeio, que é essencial para garantir o plantio e a condução da safra. O equilíbrio entre essas modalidades é importante para atender às diferentes demandas dos produtores", ressalta Jorge Michelc.
Outro ponto destacado pela Aprosoja/MS é a redução da participação dos recursos subsidiados pelo Tesouro Nacional. Embora as taxas de juros tenham caído na maior parte das linhas de crédito, acompanhando a redução da Selic, apenas 24,8% dos recursos para investimento terão equalização do governo federal. Os outros 75,2% dependerão das instituições financeiras e das condições de mercado.
Segundo o analista econômico Linneu Borges Filho, isso pode influenciar a oferta de crédito ao longo da safra.
"A redução das taxas de juros é uma notícia positiva, mas é preciso olhar também para a origem desses recursos. Com uma participação menor do Tesouro Nacional, uma parcela maior do crédito dependerá das instituições financeiras. Isso pode influenciar a disponibilidade e as taxas efetivamente praticadas ao longo da safra", avalia.
Para os médios produtores enquadrados no Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural), o Plano Safra prevê aumento de 5,1% no volume de recursos e redução da taxa máxima de juros de 10% para 9% ao ano.
Na avaliação da Aprosoja/MS, além do volume anunciado, será determinante acompanhar a velocidade de liberação dos recursos, a disponibilidade de crédito nas instituições financeiras e as condições efetivas de contratação durante a safra 2026/2027.

