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Lado Rural

O boi também preserva? Pecuaristas defendem modelo centenário do Pantanal

Permanência do trabalhador e dos animais nas fazendas seria uma vigilância contra incêndios, diz produtor

Por Lucia Morel e Kamila Alcântara | 03/07/2026 15:47
O boi também preserva? Pecuaristas defendem modelo centenário do Pantanal
Peões tocam boiada no Pantanal (Foto: Jairton Bezerra)

O protagonismo dos produtores rurais na discussão sobre o futuro da atividade no campo é um dos temas em debate na Pantanal Tech, feira tecnológica realizada no município de Aquidauana que se estende até domingo. No evento, o movimento Vozes da Pecuária, projeto do Instituto Pecuária Tropical pelo Clima, apresentou as perspectivas dos pecuaristas sobre a sustentabilidade e a preservação no Pantanal.

RESUMO

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O movimento Vozes da Pecuária apresentou na Pantanal Tech, em Aquidauana, as perspectivas de produtores rurais sobre sustentabilidade no Pantanal. Criado há um ano e meio por pecuaristas de três estados, o grupo defende que a pecuária e a preservação ambiental são indissociáveis. Produtores alertam para desafios como falta de mão de obra e ausência de políticas públicas no campo e reivindicam reconhecimento do mercado pelo valor ambiental gerado pelas fazendas pantaneiras.

Idealizado há um ano e meio por pecuaristas de Mato Grosso do Sul, Goiás e Pará, o grupo se expandiu para oito estados brasileiros e busca garantir que o próprio produtor relate sua realidade nos fóruns de discussão sobre o clima e o mercado.

A coordenadora do movimento, Renata Miranda, que acumula 18 anos de atuação na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e seis anos no Ministério da Agricultura, relata observações colhidas durante uma expedição recente que percorreu fazendas de leste a oeste do Pantanal.

Segundo ela, a viagem pelas propriedades demonstrou a integração entre a criação de gado e a conservação da natureza. "E nós vimos que é indissociável a produção da pecuária com a natureza. A natureza, ela confirma que a pecuária é sustentável", declarou.

O boi também preserva? Pecuaristas defendem modelo centenário do Pantanal
Área da Pantanal Tech destinada às palestras ligadas à pecuária. (Foto: Osmar Veiga)


O produtor rural Roberto Coelho, de 73 anos, morador do município de Miranda, ressalta que a pecuária exercida na região atua em conformidade com o meio ambiente. Ele explica que os pecuaristas locais destinam 25% de suas áreas para conservação. "A pecuária, e principalmente a pecuária pantaneira, é uma atividade amigável com o meio ambiente. Precisamos tirar esse estigma que é colocado muitas vezes sobre a pecuária, onde ela é apresentada muitas vezes de forma negativa, e mostrar a realidade, porque quem conserva o Pantanal é o Pantaneiro."

De acordo com o produtor, o pastoreio do gado auxilia no controle da vegetação, um mecanismo que reduz a quantidade de biomassa e atua na prevenção de incêndios florestais. Ele observa que os focos de fogo costumam se originar em faixas onde o gado já não circula devido às grandes enchentes, gerando acúmulo de vegetação alta. Além da contenção de queimadas, a permanência do trabalhador e do gado nas fazendas funciona como uma vigilância contra práticas ilícitas, como a caça furtiva no território.

Contudo, os representantes do setor alertam para desafios que ameaçam a continuidade desse modelo produtivo e cultural. Roberto Coelho aponta o risco de desabastecimento de mão de obra no campo caso as administrações municipais não ofereçam estruturas de educação para as crianças e serviços de atendimento à saúde para fixar as famílias dos funcionários nas propriedades rurais.

Para evitar a migração das famílias para as cidades e a consequente perda da cultura local, o movimento defende a implementação de políticas públicas voltadas ao meio rural, com investimentos em estradas, energia elétrica e conectividade digital.

Renata Miranda pondera que o objetivo dos produtores é obter o reconhecimento do mercado sobre o valor do ativo ambiental entregue pelas fazendas do Pantanal. A articulação do movimento visa levar essas demandas para agendas conjuntas com o governo e o mercado para planejar as diretrizes da atividade para os próximos anos.

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