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Meio Ambiente

Até fungicida considerado seguro pode prejudicar abelhas, aponta pesquisa

Impacto não é direto no inseto, mas nos fungos que garantem nutrição das larvas

Por José Cândido | 07/04/2026 09:18

Até fungicida considerado seguro pode prejudicar abelhas, aponta pesquisa
Fungicidas podem afetar microrganismos vitais às abelhas. Na foto, exemplar da abelha sem ferrão Scaptotrigona depilis, objeto do estudo. - Foto: Cristiano Menezes

RESUMO

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Pesquisa da Embrapa Meio Ambiente revelou que fungicidas químicos e biológicos afetam microrganismos essenciais ao desenvolvimento de larvas da abelha sem ferrão Scaptotrigona depilis. O fungicida químico bloqueou totalmente a formação de esporos em concentrações acima de 2 g/L, enquanto o biológico teve efeito variável. Cientistas defendem incluir espécies nativas nos testes obrigatórios de defensivos agrícolas, hoje restritos a abelhas exóticas e inseticidas químicos.

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente trouxe um novo olhar sobre os impactos dos defensivos agrícolas nas abelhas. O estudo revelou que fungicidas — tanto químicos quanto biológicos — podem interferir diretamente nos microrganismos que garantem o desenvolvimento das larvas da abelha sem ferrão Scaptotrigona depilis.

Esses microrganismos vivem em associação com as abelhas e desempenham papel fundamental na digestão e no fornecimento de nutrientes. Ou seja, são “aliados invisíveis” que sustentam a saúde das colônias.

Impacto além do óbvio

Enquanto os efeitos de inseticidas já são amplamente conhecidos, o estudo mostra que os fungicidas, muitas vezes vistos como menos agressivos, também podem causar desequilíbrios importantes.

A pesquisadora Simone Prado explica que os testes analisaram diferentes concentrações de dois tipos de fungicidas — um químico e outro biológico — observando o comportamento dos fungos simbiontes no alimento das larvas.

Os cientistas acompanharam o desenvolvimento desses fungos por meio da contagem de esporos e análises moleculares, focando em duas espécies-chave: Monascus ruber e Zygosaccharomyces.

Quando o remédio vira problema

Os resultados mostraram que o fungicida biológico teve comportamento variável. Em doses intermediárias, chegou a estimular o crescimento dos fungos benéficos, favorecendo o ambiente necessário ao desenvolvimento das larvas.

Por outro lado, em concentrações mais altas, o mesmo produto passou a reduzir esse crescimento — sinal de que até alternativas consideradas mais sustentáveis exigem uso controlado.

Já o fungicida químico apresentou um efeito mais drástico. Em níveis iguais ou superiores a 2 g/L, houve bloqueio total da formação de esporos, eliminando os fungos simbiontes. As análises confirmaram a ausência completa desses microrganismos nas maiores doses testadas.

Risco silencioso

Apesar de não causar morte imediata das abelhas, o impacto pode ser profundo. Ao afetar os fungos que participam da alimentação das larvas, os produtos comprometem processos essenciais para a sobrevivência e manutenção das colônias.

Segundo a pesquisadora Jenifer Ramos, as doses utilizadas no estudo foram baseadas em recomendações reais de uso no campo, o que reforça a relevância dos resultados para a agricultura.

Caminho para uma agricultura mais segura

O pesquisador Cristiano Menezes destaca que os testes atuais de defensivos ainda são limitados, pois consideram principalmente abelhas exóticas. Para ele, é essencial incluir espécies nativas nas avaliações.

Além disso, ele defende que fungicidas e produtos biológicos também passem por testes obrigatórios com abelhas — exigência hoje restrita a inseticidas químicos.

Equilíbrio em jogo

Os resultados reforçam a necessidade de maior cuidado no uso de defensivos agrícolas. Ao afetar microrganismos fundamentais, esses produtos podem comprometer a saúde das abelhas e, consequentemente, os serviços de polinização — base para a produção de alimentos e para o equilíbrio dos ecossistemas.

A pesquisa também aponta um caminho: alternativas biológicas, quando usadas de forma adequada, tendem a ser mais compatíveis com a conservação dos polinizadores. Ainda assim, o recado é claro — mesmo soluções consideradas “mais seguras” precisam de manejo responsável.