ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
MARÇO, TERÇA  24    CAMPO GRANDE 26º

Meio Ambiente

Com poucas barragens, "onça-pintada" dos rios ainda está protegida no Pantanal

Mas espécies híbridas preocupam e podem ser risco ao peixe pintado

Por Lucia Morel | 24/03/2026 16:55
Com poucas barragens, "onça-pintada" dos rios ainda está protegida no Pantanal
Pintado nadando em circuito de aquários do Bioparque Pantanal. (Foto: Bruno Rezende/Governo de MS)

A baixa presença de barramentos para a criação de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) faz da Bacia do Alto Paraguai a área onde o pintado mais se desenvolve, correndo menos risco de extinção. Entretanto, a presença de espécies híbridas torna o animal mais vulnerável.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O pintado, conhecido como a "onça-pintada dos rios", encontra-se mais protegido na Bacia do Alto Paraguai devido à baixa presença de barragens hidrelétricas. A espécie, que ocorre em cinco países sul-americanos, enfrenta redução populacional significativa em outras bacias hidrográficas brasileiras, como Paraná e São Francisco. Apesar do cenário favorável no Pantanal, o peixe enfrenta ameaças como a hibridização artificial com outros bagres, erosão genética por reprodução entre exemplares consanguíneos e poluição por agrotóxicos. A espécie foi classificada como vulnerável em 2022 pelo Ministério do Meio Ambiente.

As informações foram detalhadas no evento “Recuperação do Pintado: Ameaças, Integração de Políticas e Cooperação Internacional para a Conservação de um Peixe Migratório de Alto Valor”, durante a COP15 (15ª Conferência das Partes) da CMS (Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), em Campo Grande. O peixe foi comparado à onça-pintada, tanto por também ser manchado de pintas e por ser o principal predador de outras espécies.

Documentos e dados apresentados indicam que, nas bacias do Alto e Baixo Paraná e na do Rio São Francisco, há uma redução significativa da população da espécie. A primeira banha cidades sul-mato-grossenses como Três Lagoas, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Cassilândia, Bataguassu, Mundo Novo, Sidrolândia e Ribas do Rio Pardo.

“Na bacia do Paraná, observou-se uma redução semelhante nos desembarques (quantidade de peixes pescados), com a ausência da espécie em alguns afluentes, como o Rio Paranapanema. A bacia do Uruguai apresenta um cenário comparável, com um declínio acentuado. Coletivamente, esses dados demonstram a forte diminuição das subpopulações”, afirma o documento apresentado pelo governo brasileiro para pedir a proteção internacional do pintado (surubim) à CMS.

Com poucas barragens, "onça-pintada" dos rios ainda está protegida no Pantanal
Mediadora do ICMBio comparando pintado à onça-pintada. (Foto: Juliano Almeida)

Pesquisadora do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade), Anielly Galego de Oliveira explica que o instituto, ao avaliar a vulnerabilidade da espécie nos rios onde ocorre, verificou maior presença de exemplares no Rio Paraguai e seus afluentes. “Provavelmente, essa melhor condição é pela ausência de barramentos na bacia do Alto Paraguai. Então, como não temos tantas barragens e PCHs, como ainda têm sido seguradas essas construções, você tem mais presentes pulsos de inundação do Pantanal, que são totalmente associados com o modo de vida da espécie.”

A especialista destaca ainda que, quando as barragens interrompem esse fluxo, há o bloqueio das rotas migratórias, porque o barramento faz um controle da vazão e interrompe a sincronia da reprodução da espécie. Por esse motivo, no Alto Paraná e no São Francisco, que são rios mais barrados, houve redução drástica na população do peixe.

A espécie ocorre em cinco países: Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai e, na próxima quinta-feira (26), em um dos eventos principais da COP15, será decidida a inclusão ou não do peixe no Anexo II da Convenção de Espécies Migratórias. Para o diretor do Departamento de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do MMA (Ministério do Meio Ambiente), o ideal é que haja consenso entre os países afetados. “A inclusão da espécie no Anexo II não impõe tantas restrições, e a pesca ainda é permitida. Assim como a onça-pintada, ele é o maior predador dos rios de água doce e, por isso, deve ser defendido da mesma forma”, destaca.

Com poucas barragens, "onça-pintada" dos rios ainda está protegida no Pantanal
Pesquisadora do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade), Anielly Galego de Oliveira. (Foto: Juliano Almeida)

Ameaças – Apesar do cenário favorável nos rios da Bacia do Alto Paraguai (Cuiabá, São Lourenço, Taquari, Miranda, Aquidauana, Jauru, Sepotuba, Cabaçal, Negro, Apa, Piquiri e Correntes), as ameaças à sobrevivência da espécie persistem. O risco principal deve-se aos exemplares híbridos, ou seja, animais que cruzaram com outras espécies de bagres de forma artificial para melhorar a produção voltada à venda.

“Os cruzamentos artificiais entre espécies de Pseudoplatystoma spp. representam um risco de introgressão genética em populações naturais, embora o problema ainda seja localizado”, cita o documento. O texto reforça que outra ameaça é a chamada erosão genética, que, devido à baixa população, obriga os exemplares a se reproduzirem com seres consanguíneos, “o que indica um risco para a persistência a longo prazo”.

Por fim, a poluição derivada do uso inadequado de agrotóxicos e a drenagem de lagoas marginais são consideradas ameaças adicionais para os habitats essenciais dessa espécie.

As cidades de Mato Grosso do Sul que integram a Bacia do Alto Paraguai são Corumbá, Ladário, Porto Murtinho, Coxim, Sonora, Pedro Gomes, Alcinópolis, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel d'Oeste, Camapuã, Costa Rica, Figueirão, Miranda, Guia Lopes da Laguna, Jardim, Bonito, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Corguinho, Rio Negro, Caracol e Antônio João.

A espécie foi reconhecida oficialmente como ameaçada em Portaria do Ministério do Meio Ambiente de julho de 2022, e classificada como vulnerável conforme critério da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.