Pesquisa busca na saliva sinais que podem ajudar no diagnóstico do autismo
Estudo analisa biomarcadores na saliva para acelerar triagem e ampliar acesso ao acompanhamento especializado

A invisibilidade enfrentada por adultos autistas após a infância se tornou parte central de uma pesquisa que investiga o uso de biomarcadores salivares como ferramenta complementar para apoiar o diagnóstico precoce do TEA (Transtorno do Espectro Autista).
RESUMO
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Pesquisadores da UCDB investigam microRNAs salivares como biomarcadores para apoiar o diagnóstico precoce do autismo. O projeto miRTEA, financiado pelo CNPq, analisa amostras de 60 adultos autistas por meio de esfregaço bucal. A iniciativa não pretende substituir avaliações clínicas, mas torná-las mais rápidas e acessíveis, especialmente em regiões com poucos especialistas. Os resultados originaram a startup miRTEA Diagnósticos e dialogam com o Meu SUS Digital.
Desenvolvido desde 2020, o projeto miRTEA investiga microRNAs presentes na saliva, pequenas moléculas capazes de regular a expressão de genes, em busca de padrões biológicos associados ao transtorno.
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Segundo a professora e pesquisadora da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), Alinne Castro, o estudo pretende desenvolver uma ferramenta molecular complementar às escalas comportamentais já utilizadas por profissionais de saúde. A expectativa é que, no futuro, exames menos invasivos possam ajudar especialistas a identificar sinais do transtorno mais cedo, especialmente em locais com poucos profissionais qualificados.
A pesquisadora explica, porém, que o objetivo está longe de prometer um “teste definitivo” ou substituir avaliações clínicas. A coordenadora do estudo faz questão de reforçar esse cuidado ao falar sobre o trabalho.
“A gente não fornece diagnóstico. Essa é uma abordagem para apoiar que o diagnóstico clínico seja mais eficiente e mais rápido”, afirma.
Adultos autistas - Nesta primeira fase, a pesquisa conta com a parceria de 60 adultos autistas atendidos pela Associação Flor de Cerejeira e pela AMA (Associação de Pais e Amigos do Autista).
A pesquisa começou a partir de uma inquietação pessoal da pesquisadora durante a pandemia de covid-19. Ao acompanhar as aulas remotas da filha, Alinne percebeu dificuldades de inclusão de crianças autistas no ambiente escolar. O cenário a levou a investigar mais profundamente o tema.
À época, ela atuava na área de diversidade genética de microrganismos e decidiu migrar sua linha de pesquisa para o estudo do autismo. Encontrou, nos Estados Unidos, grupos que já investigavam microRNAs relacionados ao TEA, mas percebeu que o Brasil ainda tinha poucos dados próprios sobre o assunto.
O projeto foi aprovado em edital do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e ganhou novos desdobramentos ao longo dos últimos anos. Mas, antes de pensar em crianças, a equipe decidiu começar pelos adultos.
A professora explica que a escolha foi estratégica do ponto de vista científico, pois adultos já possuem diagnóstico consolidado e passaram pelas principais alterações hormonais e fisiológicas do desenvolvimento, reduzindo vieses nas análises moleculares.
Ao mesmo tempo, a decisão revelou um problema social pouco discutido. Segundo Alinne, encontrar adultos autistas para participar da pesquisa foi um dos maiores desafios do estudo.
“Os adultos são como se fossem esquecidos pela sociedade”, resume a pesquisadora.
Ela relata que grande parte das clínicas especializadas atende apenas até a adolescência. Depois disso, muitas famílias deixam de encontrar espaços de acompanhamento contínuo, especialmente nos casos de maior necessidade de suporte.
Famílias - "Você vê famílias exaustas. Muitas mães passaram a vida inteira dentro das terapias e, quando chega na fase adulta, praticamente não existe mais perspectiva de ganho ou atendimento especializado”, relata.
Hoje, o projeto acompanha 60 adultos autistas. Para Alinne, o número representa uma conquista diante da dificuldade de localizar participantes e construir confiança com as famílias.
“Muitos dados são sensíveis. Então, foi realmente um trabalho de formiguinha.”
O que a saliva revela - O estudo utiliza amostras coletadas por meio de esfregaço da mucosa da bochecha, semelhante ao uso de um cotonete. Segundo Alinne, a opção pela saliva teve como objetivo evitar procedimentos invasivos, como exames de sangue.
“Eles já passam por muitos exames e terapias. Eu não queria que associassem isso a mais um processo desgastante”, explica.
A pesquisadora esclarece que a equipe procura padrões de expressão de microRNAs. Todos os indivíduos possuem essas moléculas, mas pessoas autistas podem apresentar níveis muito diferentes de determinados microRNAs em relação à população neurotípica.
Essas alterações podem influenciar mecanismos ligados ao desenvolvimento neurológico, à inflamação e à formação de conexões neurais. A proposta da equipe é transformar informações hoje predominantemente subjetivas, baseadas na observação clínica e comportamental, em dados biológicos quantitativos que possam auxiliar profissionais de saúde.
Atraso no diagnóstico - Atualmente, segundo a pesquisadora, muitos pais percebem sinais de atraso no desenvolvimento entre os 18 meses e os 2 anos de idade, mas o fechamento do diagnóstico pode levar anos.
“Dependendo do profissional, ele orienta a esperar porque cada criança tem seu tempo. E isso também é verdade. Então é uma situação delicada”, afirma.
Ela acredita que, futuramente, biomarcadores moleculares poderão complementar as avaliações já existentes, ajudando a reduzir filas e acelerar encaminhamentos para acompanhamento especializado.
Ciência sem promessas - Apesar dos avanços, a pesquisadora insiste em reforçar que a ciência ainda está em fase de validação. Hoje, não existe exame salivar aprovado para diagnóstico do autismo. “Nossa responsabilidade é manter a confiança das famílias e demonstrar que a ciência precisa ser feita com rigor.”
Atualmente, o grupo conseguiu reduzir de 11 para 3 os biomarcadores analisados, o que pode tornar futuras tecnologias mais acessíveis financeiramente.
A fase da pesquisa com adultos deve ser encerrada no primeiro semestre de 2026. A partir do segundo semestre, os pesquisadores devem iniciar uma nova etapa com crianças e adolescentes já diagnosticados. A ideia é verificar se as mesmas assinaturas moleculares encontradas nos adultos também aparecem em faixas etárias mais jovens. Somente depois dessa validação será possível avançar para estudos envolvendo crianças com suspeita de TEA.
Ciência com vínculos - Segundo Alinne, ao longo dos últimos anos, o projeto deixou de ser apenas uma investigação laboratorial. A convivência com famílias e instituições também transformou a rotina dos pesquisadores e estudantes envolvidos. Além das coletas, a equipe participa de eventos promovidos pelas associações, ações comunitárias e atividades de arrecadação. Os alunos recebem orientação para compreender que o contato com as famílias exige preparo humano, sensibilidade e respeito.
“Quando você trabalha com pessoas, principalmente com esse público, você ultrapassa a linha apenas profissional”, diz Alinne.
“Existe um vínculo de confiança muito forte", complementa.
Segundo a pesquisadora, essa aproximação também ajuda a aproximar a ciência da sociedade e combater a ideia de que o conhecimento científico é distante da vida cotidiana.
Do laboratório ao SUS - Os resultados obtidos até agora também deram origem à startup miRTEA Diagnósticos, criada para transformar o conhecimento científico em futuras ferramentas de aplicação prática. Hoje, todas as análises realizadas pelo projeto são gratuitas e financiadas com recursos públicos provenientes do CNPq e da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul).
A pesquisa também passou a dialogar com iniciativas ligadas ao SUS (Sistema Único de Saúde). Conforme Alinne, dados relacionados aos microRNAs começaram a ser considerados em projetos voltados à carteira digital do Meu SUS Digital.
Para ela, esse reconhecimento demonstra que a pesquisa científica pode contribuir para políticas públicas e ampliar o acesso ao cuidado. “Eu acredito fielmente que é possível. Não consigo dizer quando isso vai acontecer, mas acredito que estamos caminhando nessa direção.”
Famílias interessadas em saber mais sobre o projeto podem telefonar para (67) 99292-1468 ou acessar o site do MirTEA.
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