Comitiva de 60 dias mantém tradição quase extinta no Pantanal
Travessia longa se tornou exceção no Estado, onde estradas e caminhões substituíram a lida tradicional
Com a cheia no Pantanal, as imagens das comitivas voltaram a circular com força nas redes sociais. Entre elas está a de João Luiz, de 53 anos, que conduz 1.200 cabeças de gado por áreas alagadas, enfrentando estrada, sol e água para cumprir um trajeto que já dura quase dois meses.
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A tradição das comitivas no Pantanal resiste ao tempo, mesmo diante das mudanças na região. João Luiz, de 53 anos, mantém vivo esse legado familiar ao conduzir 1.200 cabeças de gado por áreas alagadas, em jornadas que podem durar até 60 dias. As longas travessias, que no passado chegavam a 98 dias, tornaram-se raras devido à modernização do transporte e às mudanças climáticas. Hoje, a maioria das comitivas realiza apenas deslocamentos curtos ou transportes até leilões, onde os animais seguem viagem em caminhões.
Ao Campo Grande News, João conta que começou aos 15 anos, acompanhando o pai nas viagens. O avô também tocava comitiva. A tradição atravessou gerações e hoje já chega aos filhos e netos. Ele resume a profissão como paixão. “Tem que gostar do que faz”, diz. A confiança dos proprietários, segundo ele, é construída no cuidado com os animais.
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As viagens mudaram. A mais longa que fez saiu da região de Corumbá até Naviraí. Foram 98 dias na estrada. Hoje, trajetos desse tamanho praticamente desapareceram. Há percursos de 40 dias, mas a realidade é outra. Com a seca intensa em algumas áreas e a cheia em outras, a logística exige até trator para levar água aos peões e garantir estrutura mínima para cozinhar e descansar.
Quem acompanha de perto é o fotógrafo Luiz Mendes, que registrou a passagem da comitiva pela ponte do Passo do Lontra. Para ele, o cenário mudou radicalmente nos últimos anos.
Segundo Luiz, o Pantanal perdeu muitas comitivas por causa das estradas e da modernização do transporte. O modelo tradicional, em que o fazendeiro comprava o gado e atravessava grandes distâncias apenas a cavalo, quase desapareceu. Hoje, grande parte das boiadas segue até o leilão em comitiva e, dali em diante, embarca em caminhões.
“O João é um dos poucos que ainda faz essas travessias longas”, afirma. Nesta viagem, a comitiva já soma cerca de 50 dias na estrada e deve ultrapassar 60 dias longe de casa. O gado saiu do norte do estado e segue para outra região, muitas vezes entre fazendas do mesmo proprietário, especialmente quando a água avança sobre uma delas.
Para Luiz, o que se vê hoje é resistência cultural. A maioria das comitivas atuais atende deslocamentos curtos ou etapas até leilões. Travessias completas, cruzando o Pantanal por semanas, tornaram-se raras.
Em meio à cheia, o contraste chama atenção. Enquanto estradas ficam submersas e o acesso depende de embarcações ou desvios, homens a cavalo seguem conduzindo centenas de animais como há décadas. O que antes era rotina virou exceção. E, segundo quem vive da lida, manter a tradição exige mais do que técnica. Exige escolha.
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