Fauna perde diversidade genética a cada atropelamento nas rodovias de MS
Projeto reúne material biológico de espécies silvestres e fortalece ações de conservação
A morte de cada anta, tamanduá ou onça-pintada vítima de atropelamento nas rodovias de Mato Grosso do Sul representa a perda de uma combinação genética única, que poderia contribuir para a sobrevivência dessas espécies no futuro. Foi com esse objetivo que uma equipe de pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) realizou, nesta quinta-feira (5), a coleta de material biológico de uma anta e de um tamanduá-bandeira mortos após atropelamentos na BR-262.
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Pesquisadores da UFMS coletaram material biológico de uma anta e um tamanduá-bandeira atropelados na BR-262, em Mato Grosso do Sul, para armazenar em um biobanco genético. O objetivo é preservar características genéticas para uso futuro em reprodução assistida e clonagem. Criado em 2023, o biobanco já reúne amostras de 114 onças-pintadas e exemplares de todos os biomas brasileiros.
O material será armazenado em um banco genético da universidade e poderá ser utilizado futuramente em técnicas de reprodução assistida e até de clonagem, à medida que essas tecnologias avancem para espécies silvestres. A proposta é preservar características genéticas que, com a morte do animal, deixariam de existir na natureza.
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"Quando um animal morre, a genética dele se perde. Ele não vai mais se reproduzir. E essa genética pode ser importante para a conservação da espécie", explica a professora da UFMS e doutora em reprodução animal, Thyara de Deco Souza e Araujo.
Presidente do instituto Reprocon (Reprodução para a Conservação), ela afirma que o objetivo é preservar esse material em um biobanco mantido pela universidade, onde células e outros tecidos são armazenados para possíveis aplicações futuras em estratégias de conservação.
Segundo a pesquisadora, além da preocupação com a redução do número de animais, há outros fatores como a fragmentação dos habitats causada por estradas, cidades e outras intervenções humanas, que podem isolar essas populações e reduzir a diversidade genética das espécies.
Ela explica que, nessas situações, os animais passam a se reproduzir com indivíduos geneticamente mais próximos, o que aumenta os riscos de problemas reprodutivos e do surgimento de doenças que podem comprometer a adaptação e a sobrevivência da população ao longo do tempo.
“Quando a população começa a diminuir e os animais ficam isolados, eles passam a cruzar entre parentes próximos. Isso reduz a variedade genética e pode trazer consequências para a conservação da espécie”, explica.
Banco Genético - O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores, conforme Thyara, consiste em coletar e armazenar material genético de espécies ameaçadas sempre que surge uma oportunidade. No caso de animais atropelados, a equipe utiliza principalmente fragmentos da cartilagem da orelha, um tecido mais resistente à deterioração após a morte.
No laboratório Reprogen, da UFMS, essas amostras passam por um processo de cultivo celular. Os pesquisadores multiplicam células chamadas fibroblastos e posteriormente as congelam em nitrogênio líquido, onde podem permanecer armazenadas por tempo indeterminado.
A lógica, segundo Thyara, é semelhante à de um banco financeiro. “A gente armazena o que tem enquanto tem, para usar quando precisar. Se eu não armazenar agora, quando precisar talvez eu não tenha mais o animal”, afirma.
O objetivo é criar uma reserva genética que possa ser utilizada futuramente, à medida que as tecnologias de reprodução assistida e clonagem avancem.
A pesquisadora cita como exemplo um caso ocorrido nos Estados Unidos com o furão-da-pata-preta. Material genético armazenado de animais mortos na década de 1980 foi utilizado décadas depois para reintroduzir diversidade genética em uma população que apresentava elevado grau de parentesco.
Trabalho recente - Embora técnicas de reprodução assistida já tenham avançado em algumas espécies, Thyara ressalta que a área ainda está em desenvolvimento, especialmente para animais silvestres. Segundo a pesquisadora, cada espécie exige protocolos próprios, o que torna a pesquisa mais lenta e complexa.
“No animal silvestre, o desenvolvimento das técnicas acontece aos poucos. A gente não pode esperar a tecnologia ficar pronta para começar a armazenar material. Quando a técnica estiver desenvolvida, precisamos ter esse material disponível”, diz.
Atualmente, o biobanco da UFMS reúne material genético de mais de uma centena de onças-pintadas, além de dezenas de amostras de outras espécies de mamíferos ameaçados. Parte desse material foi obtida durante capturas científicas, enquanto outra parcela veio de animais encontrados mortos ou encaminhados por instituições parceiras.
Em publicação nas redes sociais da Reprocon, o pesquisador Gediendson R. de Araújo informou que o biobanco foi criado em 2023 e já reúne amostras de tecidos de 114 onças-pintadas. Segundo ele, o acervo contempla exemplares de todos os biomas brasileiros - Amazônia, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Caatinga, incluindo tanto animais de vida livre quanto indivíduos mantidos em cativeiro, formando uma importante base para pesquisas e ações de conservação da espécie. Foi Araújo quem fez o flagrante dos animais mortos atropelados nesta quinta-feira.
Entre as espécies armazenadas também estão antas e tamanduás. O material mais raro do acervo pertence ao muriqui-do-norte, primata da Mata Atlântica considerado criticamente ameaçado de extinção.
Entre as espécies armazenadas estão onças-pintadas, antas e tamanduás. O material mais raro do acervo pertence ao muriqui-do-norte, primata da Mata Atlântica considerado extremamente ameaçado de extinção.
Conservação - Apesar das perspectivas abertas pelas novas tecnologias, Thyara enfatiza que os biobancos não substituem outras ações de conservação. Segundo ela, a proteção dos habitats naturais, a manutenção de populações saudáveis e a redução das ameaças que levam à morte dos animais continuam sendo medidas fundamentais.
“Não adianta pensar apenas em clonagem. O biobanco é uma das estratégias de conservação. É preciso preservar as áreas, manter os animais e garantir condições para que as espécies sobrevivam”, afirma.
Enquanto essas soluções são desenvolvidas, cada animal atropelado continua representando uma perda dupla: a de um indivíduo e a de um patrimônio genético que pode ser essencial para o futuro da própria espécie.
Pesquisa internacional - Tamanha importância tem o assunto que Campo Grande deve receber em agosto o 3º Simpósio Internacional sobre Biotecnologias Reprodutivas para a Conservação da Vida Selvagem. Os debates, que contarão com pesquisadores brasileiros e estrangeiros, serão realizados nos dias 20 e 21 na UFMS.
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