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Meio Ambiente

Monitoramento contínuo pode frear perda de água no Pantanal

Pesquisador defende que ciência passe a orientar políticas públicas permanentes

Por Inara Silva | 28/07/2026 16:16
Monitoramento contínuo pode frear perda de água no Pantanal
Mapa mostra cerca de 40 anos de perda de água no Pantanal (Imagem: Sérvio Túlio Justino)

Como evitar que o Pantanal continue perdendo água? Para um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo que identificou a redução histórica da superfície hídrica do bioma, a resposta está menos em produzir novos diagnósticos e mais em transformar o conhecimento científico em monitoramento permanente e políticas públicas capazes de antecipar os impactos da seca, orientar a gestão hídrica e fortalecer a prevenção aos incêndios.

RESUMO

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Um estudo realizado por pesquisadores independentes revela que a superfície hídrica do Pantanal brasileiro encolheu 80% entre 1985 e 2023. A maior perda absoluta ocorreu em Mato Grosso do Sul, onde a área de água reduziu 84,4%. Especialistas alertam que a tendência de seca é contínua e defendem a transformação do conhecimento científico em políticas públicas urgentes. O monitoramento permanente é visto como essencial para orientar a gestão hídrica, prevenir incêndios e preservar a biodiversidade.

O alerta é um reflexo dos resultados da pesquisa que mostra que entre 1985 e 2023, a área de água superficial do Pantanal brasileiro caiu de 19.781,35 quilômetros quadrados para apenas 3.817,65 quilômetros quadrados, uma redução próxima de 80% em quase quatro décadas. A tendência, segundo o levantamento, não foi episódica, mas contínua, com sucessivas perdas ao longo dos anos.

Para o engenheiro florestal e pesquisador Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do estudo, o levantamento não representa um ponto final. Conforme Justino, que é doutor em Ciência Florestal, a pesquisa deve servir como base para acompanhar continuamente o comportamento do bioma e orientar decisões antes que as transformações se tornem permanentes.

“Um único ano pode apresentar recuperação por causa de um período mais chuvoso, mas isso não significa que a tendência tenha mudado. Só o acompanhamento permanente permite saber se houve recuperação real ou apenas uma variação temporária”, afirma o pesquisador.

Maior perda em MS - Embora o estudo tenha analisado todo o Pantanal brasileiro, o pesquisador realizou um recorte para atender à reportagem e identificou que a porção sul-mato-grossense apresentou a redução mais acentuada da superfície de água.

Mato Grosso do Sul concentra aproximadamente 65% do Pantanal brasileiro, enquanto Mato Grosso abriga os outros 35%. Ainda assim, foi justamente a maior porção do bioma que sofreu a maior retração.

Em 1985, a área de água superficial no Pantanal sul-mato-grossense era estimada em 12.501 quilômetros quadrados. Em 2023, restavam cerca de 1.954 quilômetros quadrados, o equivalente a uma redução de 84,4%. No lado mato-grossense, a superfície de água caiu de 7.269 quilômetros quadrados para 1.864 quilômetros quadrados, redução de 74,4% no mesmo período.

Monitoramento contínuo pode frear perda de água no Pantanal
Corpo de Bombeiros combate a incêndio no Pantanal em 5 de julho. (Foto: Divulgação)

Embora a diferença percentual entre os estados seja de aproximadamente dez pontos percentuais, o pesquisador destaca que, em termos absolutos, a perda em Mato Grosso do Sul é ainda mais expressiva justamente porque o Estado concentra a maior parte da planície pantaneira. Conforme Justino, ao final da série histórica, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul passaram a apresentar áreas superficiais de água bastante semelhantes, apesar da enorme diferença de extensão territorial ocupada pelo Pantanal em cada Estado.

Políticas públicas - O pesquisador defende que os dados sejam utilizados pelos órgãos ambientais como ferramenta permanente de planejamento. Segundo ele, identificar previamente as áreas mais vulneráveis permite orientar ações de conservação, prevenção de incêndios, gestão dos recursos hídricos e proteção da biodiversidade.

O pesquisador também defende políticas públicas voltadas ao turismo sustentável, ao fortalecimento das comunidades pantaneiras, ao apoio aos pequenos produtores e ao incentivo a práticas agropecuárias sustentáveis. Na avaliação dele, a preservação do bioma depende da atuação conjunta da ciência, do poder público e da sociedade, além da participação ativa das populações que vivem no Pantanal, por conhecerem o território e suas dinâmicas como ninguém.

Para ele, ainda há tempo para reverter parte desse cenário, mas ressalta que isso exige medidas urgentes. Segundo Justino, caso a tendência de redução da água superficial persista nos próximos anos, a recuperação do bioma poderá se tornar muito mais difícil.

Perdas - Durante o levantamento, os pesquisadores observaram que a redução da água superficial ocorreu praticamente durante toda a série histórica, mas passou a se intensificar a partir dos anos 2000.

“O comportamento é de uma reta decrescente. Houve anos em que a água aumentou um pouco, mas logo depois voltou a diminuir. A tendência geral permaneceu de redução’, afirma Sérvio Túlio.

Entre os anos avaliados, 2021 apresentou a menor extensão de água superficial registrada em toda a série histórica, tornando-se o período mais crítico identificado pelo estudo, quando o Estado passou a dispor de 3.262,09 km² de superfície de água. O fato pode ser reflexo dos incêndios ocorridos em 2020, que queimaram 26% (3.909.075 hectares) do Pantanal, sendo que, desse total, 1,8 milhão de hectares foram queimados em território sul-mato-grossense.

Monitoramento contínuo pode frear perda de água no Pantanal
Área alagada se transforma em solo seco (Foto: Ecoa/Divulgação)

Futuro do PantanalEmbora descarte a hipótese de desaparecimento do Pantanal nas próximas décadas, o pesquisador ressalta que o bioma pode deixar de possuir as características que hoje o tornam reconhecido mundialmente. Segundo ele, se a tendência atual continuar, áreas tradicionalmente alagadas poderão ser gradativamente substituídas por vegetação típica de ambientes mais secos.

“O que antes era lagoa ou área alagada pode se transformar em áreas semelhantes à savana. A vegetação muda, a fauna muda e toda a dinâmica ecológica também muda.” Para ele, esse processo já começou.

Origem da pesquisa - Apesar da repercussão internacional, a pesquisa não recebeu financiamento específico e foi desenvolvida de forma independente por um grupo de pesquisadores egressos do doutorado da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Sérvio Túlio Justino atua como engenheiro florestal autônomo. Os demais pesquisadores também exercem outras atividades profissionais e desenvolveram o trabalho nos fins de semana e no tempo livre.

Segundo o estudioso, a pesquisa nasceu da necessidade de comprovar cientificamente a percepção de que o Pantanal estava secando. Desenvolvido de forma independente, o estudo foi realizado paralelamente às atividades profissionais dos pesquisadores, que conciliavam o trabalho com a análise das imagens de satélite e a validação dos resultados. O pesquisador destaca que, com financiamento e dedicação exclusiva, seria possível ampliar as análises.

Monitoramento contínuo pode frear perda de água no Pantanal
Animal bebe água em rio seco no Pantanal (Foto: Divulgação/Ecoa)

Sobre o monitoramento -  O Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) foi procurado, por meio da assessoria de imprensa, para informar se utiliza estudos científicos como base no planejamento das ações de prevenção e combate aos incêndios florestais, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Em publicação nas redes sociais, o secretário estadual da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette, informou que o Estado reforçará o monitoramento das áreas mais suscetíveis aos incêndios diante da influência do El Niño. Entre as medidas previstas estão a manutenção do sistema estadual de acompanhamento dos focos de calor, o monitoramento contínuo das áreas de risco e a definição do período de proibição do uso do fogo por meio de portaria do Imasul. Propriedades com projetos de MIF (Manejo Integrado do Fogo) aprovados poderão realizar queimadas prescritas, conforme critérios técnicos.

O Corpo de Bombeiros também anunciou recentemente o reforço das ações de monitoramento e resposta aos incêndios florestais. A operação contará com 170 militares, 11 bases avançadas, 15 guarnições especializadas, drones com câmeras térmicas e monitoramento por satélite 24 horas em parceria com o Imasul. Um militar atuará junto à equipe de geomonitoramento do instituto para agilizar a identificação dos focos e o acionamento das equipes em campo.

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