ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, SEGUNDA  27    CAMPO GRANDE 23º

Saúde e Bem-Estar

Após 4 cirurgias, relatos são de melhora, mas sem certezas sobre a polilaminina

Já são 4 pacientes no Estado, o 1º submetido ao tratamento há mais de 6 meses e os demais em março

Por Cassia Modena | 27/07/2026 11:41


RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Mais de seis meses após as primeiras cirurgias com polilaminina em Mato Grosso do Sul, os quatro pacientes operados relatam sinais de melhora, como formigamentos e contrações voluntárias, mas sem avaliação científica que confirme relação com o medicamento. As cirurgias foram autorizadas judicialmente para uso compassivo, pois a substância não tem registro na Anvisa e está em fase de estudos. No Brasil, 104 procedimentos foram realizados por ordem judicial.

Já faz mais de seis meses desde que a primeira cirurgia com uso de polilaminina foi feita em Mato Grosso do Sul, na tentativa de devolver movimentos a tetraplégicos ou paraplégicos que tiveram lesões na medula espinhal. Foram realizadas quatro operações no Estado, sendo o caso mais recente o que aparenta maior evolução até agora, segundo relatos ouvidos pela reportagem.

Todos precisaram de autorização da Justiça Federal, já que o medicamento ainda não é registrado na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e está em fase de estudos. Nesses processos, as autorizações foram concedidas para uso individual e compassivo, uma exceção aberta quando não existe outro tratamento disponível no mundo para o paciente.

Apesar das polêmicas na comunidade científica envolvendo a fragilidade das evidências de que a substância pode funcionar, até a última sexta-feira (24) 104 cirurgias haviam sido realizadas no País por ordem judicial, de acordo com o laboratório Cristália. A indústria está produzindo a polilaminina e se associou à pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) que a desenvolveu, Tatiana Sampaio.

Sinais de melhora - Entregador de gás em Campo Grande antes de ser atingido por uma bala perdida, Dhyego Paredes, 35, foi operado em 25 de março, no Hospital Proncor. Ele foi o que afirmou ter mais avanços.

“Está devagar, mas evoluindo. Sinto formigamento e agora até dor nas pernas. Consegui mexer um pé recentemente”, conta.

Após 4 cirurgias, relatos são de melhora, mas sem certezas sobre a polilaminina
Substância é uma proteína injetada na medula do paciente por cirurgia (Foto: Divulgação)

O paciente faz fisioterapia de segunda a sexta-feira em casa com uma profissional que é amiga da irmã e cobra valores reduzidos. Ele acredita que as sessões estão ajudando bastante. Um vídeo gravado na última semana o mostra dando alguns passos com apoio.

“Acredito que vai mais um tempo, mas a esperança é muita. Minhas pernas ainda estão moles, mas ficando rígidas”, completa.

Acompanhamento - Não dá para afirmar que a melhora nos casos seja em razão da polilaminina. Dhyego e os outros três pacientes de Mato Grosso do Sul ainda não passaram por uma avaliação médica ou investigação científica que possam atestar ou indicar algum indício relacionado a isso. E como se trata de uso compassivo, eles não fazem parte dos estudos experimentais, que exigem análise rígida. Além disso, características diferentes em cada caso, outros tratamentos e a evolução natural das lesões podem influenciar nos resultados.

Nenhum relatou ao Campo Grande News efeito negativo ou dano ligado ao medicamento. Eles informam como estão em formulários enviados pelo laboratório mensalmente.

O Cristália monitora os casos após as cirurgias por determinação da Anvisa. “Todos os pacientes são acompanhados pela equipe de Farmacovigilância para monitoramento de eventuais eventos adversos e esse acompanhamento deve ser reportado para cumprimento da legislação de Uso Compassivo”, disse em nota.

Mais de seis meses - Também ferido por tiro de arma de fogo, mas vindo de disparo acidental, o soldado do Exército Luiz Otávio Nunez foi o primeiro a conseguir autorização no Estado e o mais jovem a passar pela cirurgia no Brasil, aos 19 anos. Ela ocorreu em 20 de janeiro, no Hospital Militar de Campo Grande.

Após 4 cirurgias, relatos são de melhora, mas sem certezas sobre a polilaminina
Primeira aplicação da polilaminina em MS, no Hospital Militar de Campo Grande (Foto: Divulgação/CMO)

Questionado sobre os avanços, o jovem respondeu que prefere não dar depoimento antes de ser avaliado. Segundo o laboratório, isso deve ocorrer em breve. “Estamos fazendo uma consulta presencial de retorno com a equipe médica para avaliação da evolução após seis meses de aplicação; todos os pacientes serão submetidos a essa reavaliação”, afirmou.

Embora não queira falar, Luiz Otávio compartilha vídeos nas redes sociais nos quais confirma a melhora e mostra evolução nos exercícios realizados em uma clínica de fisioterapia da Capital. Em um dos posts, ele fala sobre ter apresentado contrações durante sessões focadas na região pélvica. Ele perdeu os movimentos da cintura para baixo.

“Na 15ª sessão, o fisioterapeuta notou que tinha uma contração. Até então, não sabia se era espasmo ou contração voluntária. E hoje, na 20ª sessão, nota-se que já tem uma contração voluntária. Ainda tem espasmos, mas também tem contração voluntária na região pélvica”, disse.

Outros dois - Maria José Gonçalves, 64, e Daniel Aparecido Costa dos Santos, 32, foram operados um dia antes de Dhyego, também no Proncor. Ambos perderam os movimentos da cintura para baixo: ele após um acidente de trabalho com silo industrial, ela após um acidente doméstico sofrido na casa de uma amiga.

Rosimeire Gonçalves Rocha, filha de Maria, diz que a mãe relata sensibilidade nas pernas e vontade de ir ao banheiro. Ela acredita que a paciente poderia evoluir mais se tivessem conseguido assistência adequada.

“Está indo bem, poderia estar melhor. Dependemos da rede pública e o atendimento está sendo bastante negligenciado. Não conseguimos fisioterapia motorizada, estamos cobrando um home care para ela agora. Por enquanto, tem só um médico do posto de saúde que avalia uma vez por mês por ser uma paciente acamada”, resume.

Após 4 cirurgias, relatos são de melhora, mas sem certezas sobre a polilaminina
Maria José é cuidada pela filha em casa após lesão na medula (Foto: Paulo Francis/Arquivo)
Após 4 cirurgias, relatos são de melhora, mas sem certezas sobre a polilaminina
Daniel mora na área rural de Sidrolândia e vai até Campo Grande para fazer fisioterapia (Foto: Arquivo pessoal)

Daniel é o único entre os pacientes que está morando fora da Capital. Ele e a família estão em Sidrolândia, mas vêm para Campo Grande de segunda a sexta-feira para sessões de fisioterapia na mesma clínica que Luiz Otávio. São cerca de duas horas de deslocamento para ida e volta, todos os dias.

Ele também conta sobre formigamento. “Evolução na questão do movimento eu não tive, a gente está tentando. Sinto as pernas formigarem depois que comecei a fisioterapia”, disse à reportagem.

Polilaminina - Em janeiro deste ano, a Anvisa liberou o início de estudos da substância, que pode se tornar o único tratamento existente no mundo para regenerar diretamente a medula após lesões provocadas por acidentes, violências e outros impactos que atuam de fora para dentro do corpo.

O nome polilaminina vem da junção de poli (muitos, no idioma grego) + laminina, uma proteína encontrada nas células-tronco e em todo o corpo humano.

À agência de notícias Reuters, a pesquisadora Tatiana Sampaio afirmou que um estudo revisado por pares está prestes a ser publicado. Essa é uma lacuna que gera dúvidas quanto às promessas de eficácia.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.