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Meio Ambiente

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar

Guatós relatam medo de felinos perto das casas; IHP nega superpopulação na região

Por Inara Silva | 24/05/2026 08:37


Na comunidade Barra do São Lourenço, no Pantanal da Serra do Amolar, em Corumbá, moradores indígenas guatós relatam perceber o aumento da presença de onças-pintadas próximo às casas e dizem viver em alerta, principalmente durante o período de cheia. A preocupação cresceu após a soltura da onça conhecida como “Corumbela” na região, no dia 3 de maio.

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Moradores guatós da comunidade Barra do São Lourenço, no Pantanal, relatam aumento da presença de onças-pintadas perto das casas, sobretudo nas cheias, e dizem viver em alerta após a soltura da onça Corumbela. O IHP afirma que o animal deixou a região e nega superpopulação, atribuindo os avistamentos ao ciclo natural das águas e reforçando medidas de proteção às famílias e aos cães.

“A comunidade vive alarmada por conta dessa questão”, resume o pesquisador de história, arqueologia e antropologia do povo guató, Jorge Eremites de Oliveira, professor da Universidade Federal de Pelotas. Segundo ele, nos últimos anos, a comunidade passou a relatar maior frequência de onças próximas às casas, especialmente durante os períodos de cheia.

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar
Casa da comunidade Barra do São Lourenço, no Pantanal. (Foto: Jorge Eremites de Oliveira)

“As onças, nos últimos seis a dez anos, já mataram mais de cem cachorros aqui”, afirma, ressaltando que neste ano ainda não houve registro de ataques na região e, recentemente, uma nova onça foi solta nas proximidades.

De origem guató, o pesquisador relata episódios recentes de tensão na comunidade. Segundo ele, há poucos dias, moradores ouviram cães latindo durante a noite e suspeitaram da presença de uma onça. Em outra ocasião, um animal foi avistado por uma professora.

Segundo Eremites, os animais têm papel importante no cotidiano das famílias; os cães ajudam na proteção das casas e as galinhas auxiliam no controle de animais peçonhentos.

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar
Onça avistada próxima à comunidade (Foto: Maria Helena da Silva Andrade)

A comunidade - Localizada na margem esquerda do Rio Paraguai, próxima ao encontro com o Rio São Lourenço, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, a comunidade guató é acessível apenas por barco ou avião. Ali, cerca de 30 famílias convivem com o isolamento provocado pelas cheias e, segundo moradores, com a presença constante de onças próximas às residências.

O cacique da aldeia, Denir Marques da Silva, relata que os ataques a cães se tornaram frequentes nos últimos anos.  Denir estima que ao menos 20 cães foram mortos no ano passado em toda a comunidade e que os ataques costumam aumentar durante as cheias, quando a água cobre áreas do Pantanal e reduz o espaço seco disponível para os animais silvestres.

“Quando o rio enche bastante, ela fica sem alimentação e começa a atacar os cachorros nas comunidades”, diz.

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar
Cachorros que vivem na comunidade (Foto: Jorge Eremites de Oliveira)

Para o cacique Denir Marques da Silva, as alternativas da comunidade para afastar as onças são limitadas. “A gente coloca os cachorros dentro de casa, faz barulho, usa lanterna para espantar, mas não tem muita coisa a fazer”, afirma.

Segundo ele, a maior preocupação é com as crianças. “A criança não tem muita noção do perigo. Nós, adultos, já estamos acostumados com a onça no Pantanal e sabemos que ela é perigosa”, afirma.

O professor Jorge Eremites questiona a soltura da Corumbela na região e também a ausência de políticas voltadas à proteção das comunidades indígenas diante do aumento das ações de conservação da fauna.

“Nessa parte do Pantanal, a vida da onça é mais importante que a vida do ser humano guató. Ninguém aqui mata onça. Mas existe uma situação de insegurança durante as enchentes”, afirma, ao ressaltar que a área guató ainda não é reconhecida como território indígena pelo governo federal.

Corumbela - O presidente do IHP, coronel Ângelo Rabelo, explica que a soltura da onça Corumbela ocorreu após o animal circular e matar cachorros na área urbana de Corumbá. A operação contou com a participação do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), da Polícia Militar Ambiental, da Fundação de Meio Ambiente e do IHP.

“Nós não soltamos a onça ao lado de nenhuma comunidade. Procuramos um lugar bastante afastado”, afirma.

De acordo com o presidente do instituto, o animal recebeu um colar de monitoramento e segue sendo acompanhado. “Ela já andou 30 ou 40 quilômetros e está dentro do Parque Nacional”, diz.

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar
Onça avistada no entorno da comunidade (Foto: Maria Helena da Silva Andrade)

Analista ambiental e médico-veterinário do IHP, Luka Moraes Gonçalves explica que a aproximação das onças às áreas ocupadas é um fenômeno associado ao ciclo natural das cheias do Pantanal.

“Conforme o Pantanal vai enchendo, os animais procuram pontos mais altos para permanecer fora da água. Coincidentemente, esses locais mais elevados são onde há ocupação humana”, explica.

Segundo Luka, o aumento das aparições costuma ocorrer entre maio e agosto, período em que as águas avançam sobre áreas mais baixas. Ele afirma que a onça Corumbela já deixou a região próxima da Serra do Amolar e atravessou o Rio Paraguai em direção ao Mato Grosso.

“Ela está andando pela rede de conservação e evitando bastante território com influência humana”, afirma.

“Nova na vizinhança”, onça Corumbela preocupa moradores da Serra do Amolar
Rio Paraguai está em período de cheia na região (Foto: Jorge Eremites de Oliveira)

Superpopulação de onças - De acordo com o veterinário, os monitoramentos feitos pelo IHP não identificaram crescimento anormal da população de onças na região.

“A gente sempre teve um número fixo de animais rondando aquela região”, afirma.

Segundo ele, armadilhas fotográficas instaladas próximas à Barra do São Lourenço registraram indícios de apenas uma onça frequentando áreas próximas da comunidade.

O presidente do IHP rebate a existência de uma superpopulação de onças na região. “Temos um histórico de 30 anos de pesquisa e não há nenhum indicativo de sobrepopulação”, afirma.

Segundo ele, a percepção de aumento dos animais pode estar relacionada à facilidade atual de registrar imagens. “A mesma onça é vista várias vezes. Hoje todo mundo tem celular e registra”, diz.

Rabelo afirma que o instituto já desenvolve ações de orientação e prevenção junto às comunidades ribeirinhas e indígenas da região da Serra do Amolar, incluindo a Barra do São Lourenço. Segundo ele, foram instalados repelentes luminosos próximos às moradias para ajudar a afastar os animais, além do acompanhamento de veterinários e biólogos. O instituto também auxiliou na instalação de cercas em uma escola da comunidade como medida de proteção.

Rabelo orienta ainda que os moradores mantenham os cães presos durante a noite, em locais fechados ou cercados, já que os cachorros acabam atraindo as onças ao reagirem à presença dos felinos nas proximidades das casas.

Proteção - Entre as orientações do IHP para reduzir a aproximação de onças das residências e prevenir ataques a animais domésticos estão:

  • manter os cães em abrigos seguros, fechados ou cercados;
  • redobrar os cuidados durante a noite e ao amanhecer, períodos de maior atividade da fauna silvestre;
  • evitar deixar restos de comida, lixo orgânico ou ração expostos no terreno;
  • reduzir fatores que atraiam outros animais, que são presas naturais das onças;
  • manter os ambientes iluminados, quando possível;
  • utilizar sistemas sonoros acionados por presença para afastar os animais das proximidades das casas.

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