Consórcio poderá receber menos por atraso e ônibus quebrado
Projeto aprovado na Câmara Federal cria metas de qualidade e pode afetar modelo em Campo Grande

A Câmara dos Deputados aprovou no fim da tarde desta quarta-feira (13), em Brasília (DF), o PL (Projeto de Lei) de nº 3.278/2021, proposta que pode alterar o modelo do transporte coletivo de Campo Grande ao criar regras nacionais para remuneração das empresas de ônibus, fiscalização dos contratos e uso de subsídios públicos.
RESUMO
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A Câmara dos Deputados aprovou o PL 3.278/2021, que cria regras nacionais para o transporte coletivo, separando a tarifa paga pelo passageiro da remuneração das operadoras e exigindo metas de qualidade para repasse de recursos públicos. O texto, que segue para sanção presidencial, repercutiu em Mato Grosso do Sul pelos problemas do Consórcio Guaicurus, em Campo Grande, onde o subsídio municipal já complementa a diferença entre a tarifa cobrada e o valor técnico repassado às empresas.
O texto, acompanhado nos últimos dias por causa da crise do Consórcio Guaicurus, estabelece metas obrigatórias de qualidade para concessionárias e separa a tarifa paga pelo passageiro do valor recebido pelas operadoras. A matéria segue agora para sanção presidencial.
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O projeto entrou na pauta do Legislativo desde segunda-feira (11), mas não foi apreciado nos dois primeiros dias. A votação ocorreu apenas nesta quarta, em sessão do plenário da Casa. Deputados aprovaram o texto em votação simbólica, sem abertura de painel nominal.
O texto aprovado muda justamente a lógica de remuneração das concessionárias. Pela proposta, empresas só poderão receber integralmente os valores previstos em contrato caso atinjam metas de qualidade e desempenho estabelecidas pelo poder público.
Na prática, o modelo cria mecanismos para evitar que operadoras continuem recebendo recursos públicos sem melhora efetiva no serviço prestado. O projeto também prevê maior transparência sobre custos operacionais, receitas das empresas e gestão da bilhetagem.
O projeto ainda autoriza uso de recursos da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), cobrada sobre combustíveis, para subsidiar tarifas do transporte coletivo. A proposta também permite uso de receitas com publicidade, exploração comercial de terminais, créditos de carbono e cobrança de estacionamentos para financiar o sistema.
A proposta ganhou repercussão em Mato Grosso do Sul porque vários pontos discutidos no Congresso se conectam diretamente aos problemas enfrentados no transporte coletivo da Capital. O Consórcio Guaicurus acumula reclamações de usuários sobre atrasos, ônibus quebrados, superlotação, goteiras e falhas mecânicas, mesmo com repasses milionários da prefeitura.
Hoje, Campo Grande já subsidia parte do sistema. O passageiro paga R$ 4,95 na tarifa, mas o município complementa a diferença até o valor da tarifa técnica recebida pelas empresas. Além disso, o consórcio também recebeu isenção tributária e novos aportes públicos nos últimos anos.
Outro ponto considerado central no debate sobre Campo Grande é a separação entre tarifa pública e remuneração do operador. Atualmente, o valor pago pelo passageiro influencia diretamente a receita das empresas. Com a nova regra, parte do custeio poderá vir de fundos públicos, receitas acessórias e subsídios, sem depender exclusivamente da passagem.
Durante a discussão no plenário, parlamentares citaram o cenário de colapso enfrentado em várias cidades brasileiras. O deputado Hildo Rocha (MDB-MA) afirmou que contratos mal elaborados e falta de fiscalização agravaram a crise do transporte coletivo no País.
O relator da proposta, deputado José Priante (MDB-PA), defendeu a criação de uma rede integrada de transporte e afirmou que o texto fortalece o papel do poder público na gestão e fiscalização dos serviços.
Na Câmara, o projeto tramitou em regime de urgência. Deputados apresentaram 16 emendas de plenário, mas todas foram rejeitadas pelo relator. Requerimentos para retirada de pauta e adiamento da votação também fracassaram.
Impacto para Campo Grande
O projeto mexe no “coração” do contrato do transporte coletivo. Hoje, em muitas cidades, incluindo Campo Grande, a lógica funciona mais ou menos assim: a empresa recebe conforme o número de passageiros transportados e a tarifa técnica definida no contrato. O problema é que isso permitiu, em vários casos, empresas continuarem recebendo dinheiro público mesmo com ônibus velhos, atrasos e reclamações constantes.
O PL cria uma espécie de “pagamento por desempenho”. Ou seja: a concessionária só recebe integralmente se cumprir metas de qualidade definidas pelo poder público. Isso pode incluir pontualidade, idade média da frota, limpeza, funcionamento de ar-condicionado, acessibilidade, lotação e número de viagens realizadas.
Isso pode abrir espaço para a prefeitura endurecer cobranças contra o Consórcio Guaicurus sem necessariamente romper o contrato imediatamente. Hoje existe muita reclamação de que o município subsidia o sistema, mas o usuário não percebe melhora concreta no serviço. Com a nova regra, o pagamento poderá ficar condicionado a indicadores objetivos.
Outro impacto importante é a separação entre “tarifa do passageiro” e “remuneração da empresa”. Hoje, a passagem é praticamente a principal fonte de receita do sistema. Se cai o número de passageiros, as empresas entram em crise e pressionam por reajuste tarifário ou mais subsídio.
O projeto cria um modelo em que o transporte pode ser financiado também por outras fontes. Por exemplo:
- dinheiro da Cide sobre combustíveis;
- publicidade em terminais e ônibus;
- exploração comercial de áreas públicas;
- estacionamento;
- créditos de carbono;
- fundos públicos.
Isso permite segurar tarifa sem necessariamente quebrar o sistema. É uma tentativa de tratar o transporte coletivo como serviço essencial, e não apenas como um negócio que depende exclusivamente da catraca.

