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Política

Consórcio poderá receber menos por atraso e ônibus quebrado

Projeto aprovado na Câmara Federal cria metas de qualidade e pode afetar modelo em Campo Grande

Por Gustavo Bonotto | 13/05/2026 19:55
Consórcio poderá receber menos por atraso e ônibus quebrado
Passageiras embarcam em ônibus do Consórcio Guaicurus, empresa que opera o transporte coletivo da Capital por meio de concessão. (Foto: Arquivo/Paulo Francis)

A Câmara dos Deputados aprovou no fim da tarde desta quarta-feira (13), em Brasília (DF), o PL (Projeto de Lei) de nº 3.278/2021, proposta que pode alterar o modelo do transporte coletivo de Campo Grande ao criar regras nacionais para remuneração das empresas de ônibus, fiscalização dos contratos e uso de subsídios públicos.

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A Câmara dos Deputados aprovou o PL 3.278/2021, que cria regras nacionais para o transporte coletivo, separando a tarifa paga pelo passageiro da remuneração das operadoras e exigindo metas de qualidade para repasse de recursos públicos. O texto, que segue para sanção presidencial, repercutiu em Mato Grosso do Sul pelos problemas do Consórcio Guaicurus, em Campo Grande, onde o subsídio municipal já complementa a diferença entre a tarifa cobrada e o valor técnico repassado às empresas.

O texto, acompanhado nos últimos dias por causa da crise do Consórcio Guaicurus, estabelece metas obrigatórias de qualidade para concessionárias e separa a tarifa paga pelo passageiro do valor recebido pelas operadoras. A matéria segue agora para sanção presidencial.

O projeto entrou na pauta do Legislativo desde segunda-feira (11), mas não foi apreciado nos dois primeiros dias. A votação ocorreu apenas nesta quarta, em sessão do plenário da Casa. Deputados aprovaram o texto em votação simbólica, sem abertura de painel nominal.

O texto aprovado muda justamente a lógica de remuneração das concessionárias. Pela proposta, empresas só poderão receber integralmente os valores previstos em contrato caso atinjam metas de qualidade e desempenho estabelecidas pelo poder público.

Na prática, o modelo cria mecanismos para evitar que operadoras continuem recebendo recursos públicos sem melhora efetiva no serviço prestado. O projeto também prevê maior transparência sobre custos operacionais, receitas das empresas e gestão da bilhetagem.

O projeto ainda autoriza uso de recursos da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), cobrada sobre combustíveis, para subsidiar tarifas do transporte coletivo. A proposta também permite uso de receitas com publicidade, exploração comercial de terminais, créditos de carbono e cobrança de estacionamentos para financiar o sistema.

A proposta ganhou repercussão em Mato Grosso do Sul porque vários pontos discutidos no Congresso se conectam diretamente aos problemas enfrentados no transporte coletivo da Capital. O Consórcio Guaicurus acumula reclamações de usuários sobre atrasos, ônibus quebrados, superlotação, goteiras e falhas mecânicas, mesmo com repasses milionários da prefeitura.

Hoje, Campo Grande já subsidia parte do sistema. O passageiro paga R$ 4,95 na tarifa, mas o município complementa a diferença até o valor da tarifa técnica recebida pelas empresas. Além disso, o consórcio também recebeu isenção tributária e novos aportes públicos nos últimos anos.

Outro ponto considerado central no debate sobre Campo Grande é a separação entre tarifa pública e remuneração do operador. Atualmente, o valor pago pelo passageiro influencia diretamente a receita das empresas. Com a nova regra, parte do custeio poderá vir de fundos públicos, receitas acessórias e subsídios, sem depender exclusivamente da passagem.

Durante a discussão no plenário, parlamentares citaram o cenário de colapso enfrentado em várias cidades brasileiras. O deputado Hildo Rocha (MDB-MA) afirmou que contratos mal elaborados e falta de fiscalização agravaram a crise do transporte coletivo no País.

O relator da proposta, deputado José Priante (MDB-PA), defendeu a criação de uma rede integrada de transporte e afirmou que o texto fortalece o papel do poder público na gestão e fiscalização dos serviços.

Na Câmara, o projeto tramitou em regime de urgência. Deputados apresentaram 16 emendas de plenário, mas todas foram rejeitadas pelo relator. Requerimentos para retirada de pauta e adiamento da votação também fracassaram.

Impacto para Campo Grande

O projeto mexe no “coração” do contrato do transporte coletivo. Hoje, em muitas cidades, incluindo Campo Grande, a lógica funciona mais ou menos assim: a empresa recebe conforme o número de passageiros transportados e a tarifa técnica definida no contrato. O problema é que isso permitiu, em vários casos, empresas continuarem recebendo dinheiro público mesmo com ônibus velhos, atrasos e reclamações constantes.

O PL cria uma espécie de “pagamento por desempenho”. Ou seja: a concessionária só recebe integralmente se cumprir metas de qualidade definidas pelo poder público. Isso pode incluir pontualidade, idade média da frota, limpeza, funcionamento de ar-condicionado, acessibilidade, lotação e número de viagens realizadas.

Isso pode abrir espaço para a prefeitura endurecer cobranças contra o Consórcio Guaicurus sem necessariamente romper o contrato imediatamente. Hoje existe muita reclamação de que o município subsidia o sistema, mas o usuário não percebe melhora concreta no serviço. Com a nova regra, o pagamento poderá ficar condicionado a indicadores objetivos.

Outro impacto importante é a separação entre “tarifa do passageiro” e “remuneração da empresa”. Hoje, a passagem é praticamente a principal fonte de receita do sistema. Se cai o número de passageiros, as empresas entram em crise e pressionam por reajuste tarifário ou mais subsídio.

O projeto cria um modelo em que o transporte pode ser financiado também por outras fontes. Por exemplo:

  • dinheiro da Cide sobre combustíveis;
  • publicidade em terminais e ônibus;
  • exploração comercial de áreas públicas;
  • estacionamento;
  • créditos de carbono;
  • fundos públicos.

Isso permite segurar tarifa sem necessariamente quebrar o sistema. É uma tentativa de tratar o transporte coletivo como serviço essencial, e não apenas como um negócio que depende exclusivamente da catraca.