Da amora ao pé de jaca, frutas urbanas viraram desafio técnico em Campo Grande
Trabalho de controle envolve prevenção de doenças, escolha de espécies e drenagem urbana
Poucas coisas têm mais cara de Campo Grande do que uma mangueira carregada na rua, uma amoreira em praça de bairro ou moradores acompanhando a época da guavira como quem segue um calendário informal da cidade. Em diferentes regiões da Capital, árvores frutíferas fazem parte da paisagem urbana, despertam memória afetiva e até movimentam redes sociais sempre que entram em época de safra.
RESUMO
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Campo Grande possui mais de 185 mil árvores no sistema viário e foi reconhecida pelo sétimo ano consecutivo como referência mundial em arborização urbana. Apesar da tradição com espécies frutíferas, a legislação municipal proíbe seu plantio em calçadas por riscos sanitários, como a leishmaniose, e de segurança. A prefeitura distribui mais de 20 mil mudas por ano e exige autorização técnica para podas e remoções, mesmo em propriedades privadas.
Mas o que muita gente não percebe é que, por trás da sombra e dos frutos espalhados pela cidade, existe hoje um trabalho técnico cada vez mais complexo envolvendo planejamento urbano, manejo ambiental, drenagem, escolha correta de espécies e até prevenção de doenças.
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A relação da população com as frutas urbanas ficou ainda mais evidente após o Campo Grande News lançar um mapa colaborativo de pomares urbanos, criado para reunir pontos com mangueiras, amoreiras, goiabeiras, jaqueiras, seriguelas, araçás e guaviras espalhados pela cidade. A proposta rapidamente despertou interesse de moradores que começaram a compartilhar localizações, fotos e épocas em que as árvores ficam carregadas.
Para o auditor fiscal de meio ambiente e biólogo da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), Marcel Rodrigo Cavallaro, esse interesse popular ajuda a aproximar a população da arborização urbana, mas também abre espaço para orientar sobre o plantio correto.
“Essa pauta é extremamente importante porque ajuda a orientar a população sobre o plantio correto. Hoje existe uma normativa em Campo Grande para execução desses plantios. No site da Semades temos disponível o Manual de Arborização de Campo Grande, um documento didático, ilustrado e elaborado em parceria com a UFMS. Ele está disponível gratuitamente para profissionais e para a população”, afirma.
Segundo ele, o principal ponto é entender que gostar de árvores frutíferas não significa que qualquer espécie pode ser plantada em qualquer lugar da cidade. “Mais importante do que gostar das frutas é saber onde plantá-las”, resume
Marcel explica que Campo Grande possui legislação que proíbe o plantio de árvores frutíferas em calçadas. A regra está prevista na Lei Complementar 184 de 2011 e faz parte de um conjunto de medidas voltadas ao planejamento da arborização urbana. A restrição, porém, não significa rejeição às árvores frutíferas, mas uma tentativa de equilibrar segurança, saúde pública e convivência urbana.
“O principal motivo é a questão da leishmaniose. Campo Grande é uma área endêmica da doença, que afeta tanto animais quanto pessoas. Frutas em decomposição servem de abrigo e alimento para os vetores. Pensa numa mangueira. Cai grande quantidade de manga, mistura com folhas, apodrece no período de chuva. Isso cria ambiente favorável para insetos”, explica.

Além da questão sanitária, também existem preocupações relacionadas à segurança e ao espaço urbano. Árvores de grande porte podem atingir alturas elevadas, desenvolver raízes agressivas e provocar acidentes quando plantadas em locais inadequados.
“Uma mangueira pode chegar a 20 ou 30 metros de altura e tem raízes que podem causar problemas. Por isso existe o conceito de ‘espaço árvore’. É preciso pensar se aquela espécie vai caber ali quando adulta”, comenta.
Ele cita ainda o caso das jaqueiras, que exigem atenção especial pelo tamanho e peso dos frutos. “Uma jaqueira, por exemplo, pode causar acidentes graves. Um fruto grande pode cair e machucar alguém”, afirma.
Mesmo assim, a cidade continua incentivando o cultivo dessas espécies, principalmente dentro das residências. Um dos programas usados para isso é o “Fruta no Quintal”, ligado ao processo de emissão do Habite-se.
Atualmente, imóveis novos precisam ter duas árvores, sendo uma na calçada, quando houver viabilidade técnica, e outra dentro do quintal, onde espécies frutíferas são permitidas. “A ideia é justamente estimular o plantio dessas espécies dentro das residências”, explica Marcel.

Hoje, Campo Grande mantém programas de distribuição gratuita de mudas e já ultrapassa 20 mil unidades entregues por ano, entre espécies frutíferas e árvores indicadas para áreas urbanas. Em ações específicas, como o drive-thru da Semana da Árvore, a prefeitura chegou a distribuir 15 mil mudas em apenas um dia. “As pessoas gostam e abraçam a causa”, comenta o biólogo.
O crescimento desse interesse também aumentou a procura por serviços de manejo. Atualmente, podas e remoções dependem de autorização da Semades, mesmo quando a árvore está dentro do quintal da residência. O processo é feito online e inclui vistoria técnica para avaliar riscos, necessidade de poda ou eventual supressão.
“A legislação exige autorização da Semades para poda ou remoção, mesmo dentro da propriedade. Hoje o processo é simples. A pessoa acessa o portal da prefeitura, preenche o formulário, a equipe faz vistoria e orienta o melhor manejo. Às vezes a pessoa pede poda, mas durante a vistoria percebemos que a árvore apresenta risco e precisa ser removida”, explica.
Segundo Marcel, a população tem demonstrado mais consciência sobre a necessidade desse acompanhamento técnico. “Isso também está relacionado ao grau de instrução e à circulação de informação. É comum um vizinho comentar que abriu processo, recebeu vistoria e conseguiu resolver a situação corretamente. Essas experiências circulam muito em grupos de bairro e WhatsApp. Campo Grande tem uma população que, no geral, mantém boa relação com arborização”, diz.

O trabalho técnico vai muito além da escolha da espécie. Campo Grande possui hoje instrumentos urbanísticos voltados diretamente à arborização e à drenagem urbana, como a TRA (Taxa de Relevância Ambiental), criada para incentivar áreas permeáveis, vegetação, armazenamento de água da chuva e soluções que reduzam calor e escoamento superficial.
O modelo prevê mecanismos como telhados verdes, fachadas com vegetação, pavimentos permeáveis e reaproveitamento de água pluvial. A lógica é simples: árvores e áreas verdes deixaram de ser apenas elementos estéticos e passaram a integrar diretamente o planejamento urbano. “A arborização urbana deixou de ser apenas ‘plantar árvore’. Hoje envolve gestão técnica, planejamento e ciência”, resume Marcel.
Esse cuidado técnico também aparece em situações que muita gente sequer imagina. Durante reformas e obras, por exemplo, o descarte irregular de cimento, tinta e resíduos químicos no pé das árvores pode intoxicar raízes e comprometer a planta anos depois.
“Inclusive existe norma técnica brasileira sobre poda urbana e até sobre proteção de árvores durante obras. Muita gente não sabe, mas uma obra mal conduzida pode matar uma árvore anos depois. É comum encontrarmos cimento, tinta e materiais químicos sendo descartados no pé das árvores durante reformas. Isso intoxica a planta”, alerta.

Atualmente, o levantamento mais recente da prefeitura aponta cerca de 185 mil árvores apenas no sistema viário da Capital, sem contar praças, parques e quintais particulares. O número ajudou Campo Grande a conquistar pela sétima vez consecutiva o reconhecimento internacional Tree Cities of the World, concedido a cidades consideradas referência em gestão de arborização urbana.
“Não é só quantidade de árvores. Eles analisam se existe equipe técnica qualificada, investimento, legislação, ações educativas, distribuição de mudas, planejamento e manutenção. Campo Grande comprova tudo isso com documentos, cursos, palestras e ações práticas”, termina Marcel.
GUIA PARA PLANTAÇÃO DE ÁRVORES EM CAMPO GRANDE:
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