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Política

Marquinhos Trad é acusado de assédio sexual, mas nega: "é armação"

Nove mulheres e o marido de uma delas prestaram depoimento acusando o ex-prefeito

Ângela Kempfer | 25/07/2022 17:55
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade
Ex-prefeito de Campo Grande e pré-candidato ao governo, Marquinhos Trad em junho de 2022. (Foto: Arquivo)
Ex-prefeito de Campo Grande e pré-candidato ao governo, Marquinhos Trad em junho de 2022. (Foto: Arquivo)

O ex-prefeito e pré-candidato a governador, Marquinhos Trad, de 57 anos, é investigado por assédio sexual. Até o momento, 9 mulheres (e o marido de uma delas) procuraram a Polícia Civil, que já abriu inquérito, que tramita na DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), em Campo Grande.

Ao Campo Grande News Trad nega as acusações e disse que seus advogados estão reunindo provas "robustas" que confirmariam uma "armação".

As vítimas têm entre 21 e 49 anos e os crimes estariam acontecendo desde 2005. A investigação foi aberta após as primeiras denúncias, feitas por quatro mulheres: duas de 32 anos, outra de 31, e uma mais jovem, de 21 anos. Das 4 já ouvidas pela delegada Maíra Pacheco Machado, apenas uma não manteve relações sexuais com o ex-prefeito da Capital. Depois delas, outras cinco (e o marido de uma delas) também procuraram a polícia para denunciar assédio sexual.

Primeiras denúncias

Com a mais nova, de 21 anos de idade, Marquinhos teria tentado manter relações sexuais, mas não conseguiu, de acordo com o depoimento. O fato teria ocorrido no gabinete da prefeitura. Ela foi apresentada ao então prefeito por uma colega mais velha, que garantiu já manter relações íntimas consentidas com o então prefeito, e que agora também o acusa de assédio sexual.

A jovem narra que só estavam os três no gabinete no dia em que foi apresentada a Marquinhos e que ficou nervosa. Segundo relato, primeiro ele teria feito brincadeiras com um baralho e depois a levou para o banheiro do gabinete, onde abaixou as calças, pressionou-a contra a pia e levou a mão na região de sua genitália.

Diante da negativa da garota para sexo, o prefeito teria se vestido. Ela disse à delegada que deseja representar contra Marquinhos por tentativa de estupro e pediu medidas protetivas. Contudo, segundo a DEAM, não preencheu o formulário nacional de risco, sob alegação de ter medo de comparecer à Casa da Mulher Brasileira já que o setor psicossocial é conduzido por servidores municipais.

Outras vítimas

O Campo Grande News teve acesso ainda a outros depoimentos de mulheres que afirmaram terem relações sexuais consentidas com o ex-prefeito, em troca de emprego. As mulheres de 32 e 31 anos já têm filhos, de pais ausentes, e disseram que por isso precisavam de emprego.

A promessa e troca de vantagem pelas relações sexuais é o elemento que leva os investigadores a suspeitar de assédio sexual nestes dois casos. A vítima de 32 anos e com dois filhos teve o primeiro encontro com o ex-prefeito em 12 de maio de 2020. Ela precisava de emprego e compareceu depois de indicada por uma mulher que diz ter conhecido no Instagram.

No encontro, Marquinhos também teria feito truques de mágica com o baralho. Na ocasião não houve sexo entre os dois, mas uma tentativa de beijo na despedida. Depois do primeiro encontro, ela disse que passou a receber mensagens de Marquinhos, e “durante certo período”, frequentou o gabinete, “na frequência de uma vez por semana, na expectativa de ser contratada”, conforme consta em depoimento. Após este período, segundo o depoimento, começaram as relações sexuais consentidas.

Mais um truque

Com uma segunda mulher, de 31 anos, que também se queixa de assédio e perseguição, o ex-prefeito repetiu truques de mágica e manteve relações sexuais consentidas. Ela tem um filho e tinha expectativa de emprego. A quarta envolvida não teve relacionamentos com o pré-candidato ao governo, mas contou aos policiais que ele “gostava de se relacionar com meninas bonitas e mais novas”.

Uma das vítimas é servidora municipal concursada, de 31 anos, que na época dos supostos assédios do prefeito, em 2017, namorava um servidor graduado do Judiciário. Ela contou ao namorado, que a orientou a ser franca com o então prefeito, a pedir que parasse com a importunação, pois era comprometida e ele, casado.

Mesmo assim, ela diz que Marcos Trad, todas as vezes que encontrava a servidora em eventos da Prefeitura, se dirigia a ela de forma maliciosa. Os ataques pararam depois que o próprio servidor do Judiciário mandou mensagem pelo Whatsapp ao então prefeito dizendo que estava em relacionamento com ela e que ele parasse com os assédios. Marquinhos teria desconversado, mas passado um tempo, voltou a assediá-la.

Em depoimento, ela narra que no período entre 2017 e o Natal de 2021, todas as vezes que encontrava Marquinhos Trad, ele “apresentava conduta de cunho libidinoso” ao cumprimentá-la. Depois de terminar o namoro, a mulher casou-se. O marido também prestou depoimento à polícia.

Ele disse saber que a esposa sempre evitava participar de eventos em que o prefeito estava, para fugir dos assédios e que, ao ver matérias na imprensa das outras vítimas que prestaram queixa contra Marquinhos Trad, ficou muito abalada e chorou. Foi aí que resolveu prestar queixa contra o ex-prefeito.

Desde 2005

Outra que teve o “gatilho disparado” ao ver as notícias das vítimas que prestaram queixa contra o ex-prefeito foi uma servidora pública estadual de 49 anos. Ela disse que, mesmo sabendo que o crime do qual foi vítima pode estar prescrito, pois ocorreu em 2005, quando ele era vereador. Mas decidiu procurar a polícia para prestar queixa mesmo assim.

No depoimento, contou que foi com outros dois dirigentes sindicais conversar com o então vereador no escritório de advocacia dele, quando Trad pediu para os dois sindicalistas irem pegar cópia de documento em outra sala e que o deixasse a sós com ela.

À polícia, ela contou que Marquinhos Trad a encurralou contra parede e tentou beijá-la à força. Como a vítima tinha prática de defesa pessoal, conseguiu escapar do ataque, justamente no momento em que os dois dirigentes retornaram à sala e viram a cena. “O que é isso cara, você é doente, solta a menina”, um deles chegou a dizer. E o outro diretor do sindicato quis entrar em luta corporal com o acusado, para proteger a colega.

Pagamento em dinheiro

Outra vítima é uma esteticista de 21 anos. Ela procurou a polícia para registrar queixa contra Marquinhos Trad no último dia 21. Ao prestar depoimento, disse que conheceu o ex-prefeito por meio de uma amiga, que lhe deu recado que ele gostaria de conhecê-la e poderia ajudá-la, pois estava desempregada e passando por dificuldades. Ele marcou de recebê-la em seu gabinete e chegando lá, após alguns minutos de conversa, levou-a para o banheiro, onde tiveram relação sexual. Depois, o ex-prefeito lhe deu R$ 700 em espécie.

Ela disse que manteve relacionamento amoroso com Marquinhos Trad e ele sempre lhe dava entre R$ 500 e R$ 1.000. A esteticista contou à polícia que ele vigiava as redes sociais dela e tinha ciúmes e que a chamava de “puta” achando que ela estivesse saindo com outros homens.

Aliciamento e Proinc

Já uma psicóloga de 47 anos contou que foi convidada em 2016 para ajudar a fazer o Plano de Governo, relacionado às políticas públicas para mulheres e que, em janeiro de 2017, foi nomeada para um cargo comissionado na ouvidoria da prefeitura.

Quatro meses após a nomeação, apresentou projeto ao prefeito e, ao cumprimentá-lo com um aperto de mão, Marcos a puxou com força em direção a seu corpo e tentou dar um beijo na boca dela.

No mesmo dia, recebeu um telefonema da secretária do gabinete do prefeito informando que ele a aguardava, mas lembra que reparou olhares diferenciados dos funcionários e diz que encontrou o prefeito sentado na mesa, que apontou para um outro cômodo, uma sala menor, sem móveis e acoplada a sala dele. Em seguida, ainda conforme o depoimento à polícia, diante da negativa de seguir até o lugar indicado, o então prefeito teria afastado a mulher com expressão de ódio e mandado ela ir embora. Ela afirma que também presenciou o mesmo comportamento de aliciamento e “gerenciamento de meninas” em outros setores da administração municipal.

Uma comerciante de 30 anos, que solicitou ser ouvida fora da DEAM porque o local é administrado pela prefeitura e muitos servidores poderiam reconhecê-la, afirmou ter conhecido Marquinhos Trad no ano passado, também na tentativa de conseguir um emprego e foi inserida no Proinc (Programa de Inclusão Profissional). Na ocasião, o então prefeito falou para ela trocar de carro, que ele a ajudaria a encaixando em algum programa social.

Ela afirma ainda que foi nomeada para um cargo de auxiliar administrativo e financeiro, como se tivesse exercido o cargo por quase um ano, entre agosto de 2020 e julho de 2021, mas que nunca recebeu nenhum pagamento.

Sem camisinha 

Uma das jovens que acusa o ex-prefeito conversou com o Campo Grande News. Ela contou que foi procurada por uma mulher, identificada apenas como Ray, dizendo que tinha uma proposta para ajudá-la a mudar de vida. Aceitou e então um encontro foi marcado com Marquinhos Trad.

“Falei por telefone primeiro e então marcamos para que eu fosse até o gabinete encontrar ele. “Quando cheguei, Marquinhos estava sentado. Conversamos. Ele começou a me elogiar, dizendo que eu era muito bonita e que poderia me ajudar mudar de vida”, disse. Em certo momento da conversa, Trad então começou a fazer mágicas e a abraçar a jovem.

“Ele me deu um beijo na testa e foi me levando até o banheiro do gabinete, onde mantivemos relação sexual. Ele se negou a usar camisinha e me disse apenas para confiar nele. Quando acabou tudo, ele me deu um sabonete íntimo e um lenço umedecido e voltou para a mesa dele”, revelou.

À reportagem ela ainda contou que manteve o relacionamento como então prefeito por dois anos, entre julho de 2020 e junho de 2022, nesse período ela relata que recebeu diversas mensagens de Marquinhos pedindo que ela tivesse um filho dele e que dissesse que o amava.

Vereadores estiveram hoje pela manhã na Secretaria de Justiça e Segurança Pública. (Foto: Marcos Maluf)
Vereadores estiveram hoje pela manhã na Secretaria de Justiça e Segurança Pública. (Foto: Marcos Maluf)

CPI

Em audiência com o secretário estadual de Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, seis vereadores de Campo Grande pediram detalhes da denúncia para encaminharem pedido de instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). O secretário, no entanto, lembrou que as investigações ocorrem em sigilo.

Seis vereadores não são suficientes para criar a comissão, precisam de pelo menos 10 assinaturas. O pedido de CPI só pode acontecer depois do dia 2 de agosto, quando termina o recesso parlamentar na Câmara de Vereadores da Capital.

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