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Política

Ministro volta ao Estado para demarcar aldeias onde nasceu

Território Taunay/Ipegue soma hoje 7 aldeias e chegará a 24 após demarcação física que ocorrerá no sábado

Por Mylena Fraiha | 02/04/2026 12:50
Ministro volta ao Estado para demarcar aldeias onde nasceu
Novo ministro de MS, Eloy Terena é celebrado por indígenas em Brasília após assumir chefia do MPI (Foto: Redes sociais).

O próximo sábado (4) deve marcar um momento histórico para o povo terena na região de Aquidauana. Após décadas de reivindicações, retomadas e articulações políticas, a Terra Indígena Taunay/Ipegue terá concluída a demarcação física de seu território, em ato que contará com a presença do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, ele próprio nascido na Aldeia Ipegue, e da presidenta da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), Lúcia Alberta.

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O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, participará neste sábado da conclusão da demarcação física da Terra Indígena Taunay Ipegue, em Mato Grosso do Sul. O ato encerra décadas de espera pelo território de 33,9 mil hectares, onde vivem cerca de sete mil pessoas em 24 aldeias. Após o georreferenciamento e a instalação do marco final, o processo seguirá para a homologação da Presidência da República. O evento simboliza uma conquista histórica para o povo terena e para a gestão do ministro.

Mais do que uma agenda oficial, a visita marca o retorno de um filho à terra em um dos momentos mais simbólicos da história recente do território. De acordo com o coordenador do Conselho Terena e cacique da Aldeia Bananal, Célio Fialho Terena, a programação prevê a chegada de Eloy por volta das 9h, na Aldeia Ipegue.

De lá, ele segue em carreata por comunidades do território, passando por Bananal, Água Branca, Lagoinha e Morrinho, até a área onde será instalado o último marco físico da demarcação. O ato solene está previsto para as 10h. Depois, a comitiva segue para a Aldeia Imbiruçu, onde haverá almoço coletivo e celebração com dança tradicional.

A Terra Indígena Taunay/Ipegue foi identificada por meio de relatório publicado no DOU (Diário Oficial da União) em 2004, com superfície de 33,9 mil hectares. Já a portaria declaratória reconhecendo a área como de ocupação tradicional indígena foi publicada em 2016, mas o processo seguiu por anos sem a conclusão da demarcação física — etapa em que o território é efetivamente marcado no chão, com georreferenciamento, abertura de picadas e instalação de marcos que materializam os limites definidos no processo administrativo.

Entretanto, o cacique Célio afirma que a história da demarcação começa muito antes dos documentos oficiais. Segundo ele, a luta pelo território atravessa gerações e remonta ao período anterior à Constituição Federal de 1988, quando lideranças indígenas passaram meses em Brasília para garantir, no texto constitucional, o direito à demarcação e à ampliação das terras tradicionalmente ocupadas.

A demora no andamento do processo levou a própria comunidade a se mobilizar. Em 2013, indígenas realizaram a primeira retomada na região da antiga Fazenda Esperança, em um movimento que ficou conhecido como retomada Esperança. “A ocupação foi uma forma de pressionar o poder público a dar andamento ao processo de regularização do território”, relembra Célio.

Hoje, dentro da área já homologada, vivem milhares de indígenas distribuídos em sete aldeias. Só a Aldeia Bananal, a maior em população, reúne cerca de 2 mil pessoas. Em todo o território, de acordo com o cacique Célio, a população indígena passa de sete mil pessoas, segundo lideranças locais.

Hoje, na área já homologada, nós temos sete aldeias, e na área que será demarcada já existem 17 localidades ocupadas, que vão se tornar aldeias. Ao todo, o território deve chegar a 24 aldeias”, explica o coordenador do Conselho Terena.

A demarcação física é uma das últimas etapas do processo de regularização fundiária. Após a conclusão, o processo segue para relatório final e encaminhamento ao Ministério dos Povos Indígenas, que posteriormente envia para a Presidência da República. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será o responsável pela homologação definitiva do território.

Filho da terra — A história da terra também se confunde com a história do próprio ministro. Eloy Terena nasceu na Aldeia Ipegue, filho de Simão Amado, natural da Aldeia Colônia Nova, fundada por seu avô Manoel Amado, e de Zenir Eloy, da Aldeia Ipegue. Após a separação dos pais, ele viveu com a mãe e as irmãs em Campo Grande, onde ela trabalhou como empregada doméstica.

Anos depois, formado em Direito, Eloy passou a atuar na defesa jurídica dos povos indígenas, inclusive orientando lideranças Terena em processos relacionados ao território. Neste sábado, ele retorna à terra onde nasceu não apenas como filho da aldeia, mas como ministro de Estado, para acompanhar a instalação do último marco físico de uma demarcação esperada há décadas por seu próprio povo — um gesto que, para as lideranças locais, tem significado histórico, político e simbólico.

Nós crescemos juntos, estudamos juntos. Eu sou professor de linguagens e ele se tornou advogado. Desde muito novo, ele [Eloy Terena] lutou junto com o povo terena em todas as reivindicações, na saúde, na educação e principalmente na questão territorial. Quando ele se formou advogado, ele atuou firmemente dando orientação jurídica para nós”, relembra Célio.

A história também perpassa pela vida de outras lideranças, como é o caso de Célio. Para ele, a conclusão da demarcação física representa mais do que uma etapa burocrática. “É um conjunto de emoções, porque passa um filme na nossa história”, afirma. Ele lembra que o pai, Celso Fialho, falecido em 2024, participou da Assembleia Constituinte e esteve entre as lideranças que lutaram pelo reconhecimento dos direitos indígenas no país.

Hoje, Célio é coordenador do Conselho Terena e está no terceiro mandato como cacique da Aldeia Bananal. “Ele formou a gente para ser liderança, para entender a nossa luta. Foi um dos principais motivadores da minha vida para eu me tornar professor, aprender o português e poder lutar pelo meu povo”.

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