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Política

“Quero que passe fome”: empresária de MS ataca eleitores do PT em vídeo

Funcionários de grupo que opera franquias de O Boticário em MS relatam medo de represálias; marca repudia fala

Por Anahi Zurutuza | 27/10/2026 18:18

A empresária Helenita Brum, dirigente do Grupo Valebrum, responsável por franquias de O Boticário em Mato Grosso do Sul, desejou que eleitores do PT (Partido dos Trabalhadores) passassem fome em um vídeo que circula nas redes sociais. As declarações repercutiram nesta terça-feira (27), dois dias após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e motivaram denúncias ao MPT (Ministério Público do Trabalho), que apura o caso.

RESUMO

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Vídeos atribuídos à empresária Helenita Brum, do Grupo Valebrum, franqueado de O Boticário em Mato Grosso do Sul, mostram declarações contra eleitores do PT e críticas a beneficiários de programas sociais. Funcionários temem represálias e denunciaram o caso ao Ministério Público do Trabalho, que investiga possível assédio eleitoral. Não há comprovação de demissões por motivação política. O Grupo Boticário repudiou as falas e afirmou que elas não representam seus valores.

Na gravação, Helenita demonstra insatisfação com o resultado das eleições presidenciais e afirma que não pretende ajudar pessoas que apoiam o partido do presidente reeleito.

 Quero que um petista me peça R$ 1, me peça emprego, me peça ajuda. Quero um petista, quero que passe fome, eu quero que vá pra p... que pariu, entendeu?”, declara a empresária.

O Grupo Valebrum atua no setor de varejo e mantém operações de franquias de marcas ligadas ao Grupo Boticário. Em sua apresentação empresarial, informa possuir mais de 400 colaboradores e 33 unidades de negócio. Helenita também aparece como fundadora da plataforma de recursos humanos Ághil Consultoria em RH, na qual relata sua experiência na administração de uma rede varejista com centenas de funcionários e mais de 40 gestores.

A referência a pedidos de emprego provocou preocupação entre funcionários que procuraram o Campo Grande News sob condição de anonimato, por receio de possíveis represálias relacionadas ao posicionamento político.

Um dos trabalhadores afirmou que funcionários encaminharam denúncias anônimas ao MPT. “Todos nós fizemos denúncia ao MPT”, relatou. Segundo ele, há receio de que a identidade dos denunciantes seja descoberta. “Já ouvimos fala que se denunciar, eles vão descobrir”, acrescentou.

Outro vídeo é atribuído à gerente de Gente & Gestão do Grupo Valebrum, Maria José de Oliveira Rotta. Na gravação, a profissional critica “a esquerda” e pessoas que recebem benefícios sociais. “Não quero conviver, não quero saber se tá com problema, não quero saber se tá sofrendo”, afirma.

A gerente também faz críticas a programas sociais, como o Bolsa Família e o Vale Gás. “Quem é acostumado com migalha, vai viver de migalha, né?”, declara em outro momento da gravação.

Apesar das declarações, os vídeos não apresentam determinação expressa para demitir empregados por preferência política. Também não há, até o momento, comprovação de que funcionários tenham sido dispensados por esse motivo.

Investigação - O MPT confirmou ao Campo Grande News, por meio da assessoria de imprensa, que denúncias relacionadas ao caso estão sendo apuradas. O órgão ainda não apresentou conclusões sobre a existência de discriminação política nas relações de trabalho.

O episódio ocorre em meio ao aumento das denúncias de assédio eleitoral em Mato Grosso do Sul. Conforme balanço atualizado informado pelo MPT nesta terça-feira (27), o número de registros chegou a 43 no Estado. Na segunda-feira (26), eram 35 denúncias, contra 11 contabilizadas até o primeiro turno das eleições.

O órgão alerta que ameaças de demissão, recusa de contratação e outras represálias motivadas pela escolha política dos trabalhadores podem ser denunciadas mesmo após o encerramento da disputa presidencial.

Repercussão - As declarações atribuídas às integrantes do Grupo Valebrum provocaram críticas nas redes sociais, principalmente entre consumidores das marcas associadas à empresa.

A atriz Suzy Castanha publicou manifestações no Instagram cobrando um posicionamento de O Boticário e de outras marcas, como Eudora, Quem Disse, Berenice? e O.U.i.

Opinião política não deveria ser motivo para perseguir, humilhar ou ameaçar o emprego de ninguém. Democracia é conviver com as diferenças, não tentar punir quem pensa diferente”, escreveu.

Em seguida, questionou a empresa. “O Boticário fala tanto de amor, respeito e diversidade. Quero saber: qual é o posicionamento da marca diante disso? Respeito não pode existir só na propaganda.”

Uma das publicações registrava 13,6 mil curtidas, 3,8 mil comentários e 2,3 mil compartilhamentos no momento da captura de tela encaminhada à reportagem. Outros usuários também cobraram providências da franqueadora e incentivaram a apresentação de denúncias aos órgãos responsáveis pela fiscalização das relações de trabalho.

A repercussão das gravações ocorre em um cenário de conflitos políticos em Mato Grosso do Sul. Nesta terça-feira, o Campo Grande News mostrou que comerciantes do interior do Estado tiveram seus nomes incluídos em listas que incentivam boicotes a estabelecimentos associados a determinadas preferências partidárias. Em Jardim, empresários relataram preocupação com os efeitos da polarização sobre seus negócios.

No segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), Lula foi reeleito nacionalmente, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) venceu em Mato Grosso do Sul, com 59,60% dos votos válidos, contra 40,40% do presidente.

O que diz a lei – A advogada Marla Diniz Brandão Dias explica que a manifestação de preferência política é um direito assegurado pelo artigo 5º da Constituição Federal. Segundo ela, declarar o voto ou publicar opiniões políticas nas redes sociais constitui exercício da liberdade de expressão.

Na esfera trabalhista, a advogada alerta que demitir ou deixar de contratar uma pessoa por sua preferência política configura discriminação. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso e na manutenção do emprego, enquanto a Convenção nº 111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) inclui expressamente a opinião política entre os motivos de discriminação vedados.

Marla ressalta que manifestações políticas feitas fora do expediente, por si só, não justificam punições trabalhistas. Ela explica que o trabalhador dispensado por motivo discriminatório pode escolher entre a reintegração ao emprego, com pagamento das remunerações do período de afastamento, ou o recebimento em dobro desses valores, sem prejuízo de eventual indenização por danos morais.

A advogada acrescenta que, dependendo das circunstâncias, a empresa também pode ser responsabilizada por dano moral coletivo em ação proposta pelo MPT.

Ela lembra que as denúncias de assédio eleitoral podem ser feitas gratuitamente e de forma sigilosa pelo site do MPT, inclusive depois do encerramento das eleições.

Posicionamento - Procurado pelo Campo Grande News, o Grupo Boticário repudiou as manifestações e afirmou que as declarações não representam os valores da companhia, que mantém uma relação comercial de franquia com o Grupo Valebrum.

O Grupo Boticário repudia todo e qualquer conteúdo que fira o respeito, a diversidade e a pluralidade”, afirmou.

A empresa acrescentou que “as manifestações refletem, exclusivamente, a posição pessoal de seus autores e não representa, sob nenhuma hipótese, os seus princípios e valores”.

A reportagem também procurou Helenita Brum e o Grupo Valebrum para esclarecer o contexto das declarações, as políticas de contratação e manutenção de funcionários e as denúncias de possíveis represálias por posicionamento político. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno, mas o espaço permanece aberto.

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