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Política

Pedrossian Neto tenta transformar herança do avô em carreira própria

Da PUC e da Fiesp à Alems, deputado combina pedigree político e formação cosmopolita

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 21/08/2026 16:04
Pedrossian Neto tenta transformar herança do avô em carreira própria
Pedro Pedrossian Neto em entrevista passada ao Campo Grande News (Foto: arquivo)

Pedrossian Neto não é apenas mais um rosto na constelação dos 24 deputados estaduais de Mato Grosso do Sul. O sobrenome o coloca numa linhagem que atravessa a própria formação política do Estado e recoloca na campanha de 2026 uma das famílias que ajudaram a escrever seus primeiros capítulos. Neto de Pedro Pedrossian, ele carrega uma herança política que está no nome, na memória e no capital eleitoral que o próprio deputado reconhece ter recebido. Mas a trajetória que tenta construir é outra.

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Deputado estadual de Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian Neto carrega o peso de um sobrenome ligado à formação política do estado, mas busca construir identidade própria. Neto do ex-governador Pedro Pedrossian, ele viveu nos Estados Unidos, formou-se em Economia e atuou na Fiesp antes de retornar ao estado. Eleito em 2022 com 15.994 votos, tenta unir herança familiar a uma trajetória liberal de centro-direita, com foco em gestão fiscal e modernização política.

Há, nesse retorno, uma espécie de reedição de uma velha política, mas não necessariamente nos mesmos termos. Pedro Pedrossian e Marcelo Miranda, duas figuras centrais dos primeiros anos de Mato Grosso do Sul, chegaram a estar do mesmo lado antes de um rompimento que os colocou em campos opostos nas primeiras disputas do Estado recém-criado. Décadas depois, seus sobrenomes reaparecem em uma nova geração, numa demonstração de como antigas linhagens continuam encontrando espaço no palco político estadual.

Formação longe do sobrenome

A diferença, no caso de Pedrossian Neto, está menos na origem do sobrenome do que no caminho percorrido até a política. Ele deixou Mato Grosso do Sul aos 13 anos e só retornou três décadas depois. Nesse intervalo, viveu nos Estados Unidos, formou-se em Economia e fez mestrado em Economia Política na PUC de São Paulo, onde lecionou durante cinco anos.

Paralelamente à academia, construiu carreira na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), na área de economia internacional e comércio exterior. Participou de discussões sobre Mercosul, Alca, acordos comerciais e Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e passou seis meses ao lado de diplomatas brasileiros na missão permanente do Brasil em Genebra.

Foi nesse ambiente que se tornou sócio minoritário de Roberto Giannetti da Fonseca, seu antigo diretor na Fiesp e secretário-executivo da Camex (Câmara de Comércio Exterior) entre 2000 e 2002, no governo Fernando Henrique Cardoso. A experiência com grandes empresas e consultoria antecedeu a decisão de voltar a Mato Grosso do Sul e entrar na política.

A trajetória ajuda a relativizar a ideia de que o sobrenome, por si só, explica a chegada à política. O pesquisador Filipe Wisley Matos Rosa, da UFMS, observa que, apesar do capital familiar, alguns dos herdeiros políticos que disputam a eleição aparecem também entre os candidatos que considera mais preparados e afiados.

No caso de Pedrossian Neto, a formação acadêmica e profissional construída antes da política reforça essa combinação: há um patrimônio familiar, mas também uma carreira desenvolvida para além dele.

Filipe também aponta que famílias tradicionais oferecem aos herdeiros uma espécie de “profissionalização desde o berço”, com redes, conhecimento e acesso facilitado à política. A herança, portanto, pode abrir portas, mas não determina sozinha o caminho percorrido.

Pedrossian Neto tenta transformar herança do avô em carreira própria
O avô, Pedro Pedrossian durante evento em Amambai (Foto: Arquivo pessoal)

Retorno e “tupinização”

O retorno ao Estado não ocorreu diretamente pelas mãos do avô. Em 2014, Pedrossian Neto foi secretário-adjunto de Desenvolvimento da Produção no governo André Puccinelli. Três anos depois, aos 36 anos, assumiu a Secretaria de Finanças e Planejamento de Campo Grande, na gestão de Marquinhos Trad, onde enfrentou uma prefeitura em grave crise fiscal. Permaneceu no cargo até março de 2022, quando deixou a função para disputar uma vaga na Assembleia. Se elegeu com 15.994 votos.

Ele diz que levou para a política local a visão adquirida fora do Estado, mais cosmopolita e internacional, com a intenção de trazer modernização, inovação e novas práticas. É nesse sentido que usa o neologismo “tupinizando”: uma maneira de traduzir para a realidade sul-mato-grossense aquilo que aprendeu em sua formação acadêmica e profissional.

“Eu sou o neto do Pedro Pedrossian, mas eu sou também o Pedro Pedrossian neto”, afirma. A frase resume o esforço de reposicionamento do sobrenome: a herança permanece como ponto de partida, mas o novo pedrossianismo que ele procura encarnar tem outra formação, outra linguagem e outra relação com o mundo.

O DNA político em nova geração

Pedrossian Neto faz questão de estabelecer uma fronteira com a trajetória do avô. Diz que não entrou na política pelas mãos dele e que sua carreira foi construída sem padrinho ou máquina familiar. Ao mesmo tempo, reconhece ter usado o “legado”, o patrimônio eleitoral e o capital político associado ao nome Pedrossian.

A genealogia ajuda a explicar por que três personagens desta eleição, Pedrossian Neto, Fábio Trad e João Henrique Catan, podem ser tratados como herdeiros diretos de uma geração que esteve no núcleo da formação política de Mato Grosso do Sul. Catan é neto de Marcelo Miranda; Pedrossian Neto, de Pedro Pedrossian; e Fábio Trad é filho de Nelson Trad, que foi procurador-geral do Estado no governo Marcelo Miranda e, depois, secretário de Justiça de Pedrossian. Como se vê, um entrelaçamento original, que se desfaz no Brasil polarizado.

Quase meio século depois, os descendentes tomaram rumos diferentes. Fábio Trad resgata no PT uma tradição progressista associada à trajetória do pai; Pedrossian Neto se define como liberal de centro-direita e rejeita os radicalismos; Catan ocupa o campo da direita. São trajetórias distintas que partem, porém, de uma mesma particularidade: o vínculo de sangue com personagens decisivos dos primeiros capítulos do Estado.

Nessa combinação está a novidade. O sobrenome não desapareceu, mas mudou de conteúdo. O pedrossianismo do avô nasceu associado à engenharia, às grandes obras, à expansão da infraestrutura e à ideia de construir um Estado novo. O do neto tenta se apresentar pela economia, pela gestão fiscal, pela formação acadêmica, pela experiência internacional e pela defesa de uma política mais moderna.

Não se trata, portanto, de afirmar que o clã Pedrossian voltou a comandar a política de Mato Grosso do Sul. Mais de três décadas depois do último governo do avô, o sobrenome encontrou uma nova forma de permanecer na disputa: não pela simples transmissão de uma máquina política, mas pela tentativa de transformar um patrimônio familiar em trajetória própria.

A questão que a eleição deixa aberta é até onde essa combinação de sobrenome histórico, capital político e formação construída longe dele poderá levar o novo Pedrossian no palco político de Mato Grosso do Sul.