Quando a "flor da terra" brota, é sinal de que a seca chegou ao Morro do Paxixi
Planta passa quase todo o ano escondida sob o solo e surge no inverno com uma floração rara
Quando a flor vermelha rompe o chão da região do Morro do Paxixi, em Aquidauana, a 141 km de Campo Grande, a paisagem ganha um sinal silencioso da chegada da estação seca. Planta invisível durante quase todo o ano, a chamada "flor da terra" emerge do solo como uma aparição inesperada, transformando por alguns dias o cenário do Cerrado com uma beleza tão rara quanto curiosa.
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A flor da terra, de nome científico Langsdorffia hypogaea, surgiu na região do Morro do Paxixi, em Mato Grosso do Sul, sinalizando o início da estação seca no Cerrado. A espécie é uma planta holoparasita que vive sob o solo e não realiza fotossíntese, extraindo nutrientes de raízes hospedeiras. Com coloração vermelha intensa, a flor floresce entre junho e setembro, servindo de alimento para animais e atraindo polinizadores, embora sua exibição na superfície dure apenas alguns dias.
Foi justamente esse espetáculo natural que chamou a atenção da empresária Mirian Coura Aveiro. Moradora da região, ela compartilhou nas redes sociais a chegada da espécie na Chácara dos Mirantes.
"É muito lindo ver essa flor brotar da terra. Todo ano ela surpreende quem passa por aqui."
Nome científico - A planta guarda características extraordinárias, pois é uma espécie holoparasita que vive a maior parte da vida sob a terra. Seu nome científico é Langsdorffia hypogaea, uma homenagem ao naturalista russo Georg Heinrich von Langsdorff, pesquisador que participou de importantes expedições científicas pelo Brasil no século XIX.
Características - O professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Norton Hayd Rego, explica que a espécie não tem clorofila, não realiza fotossíntese e depende completamente de outras plantas para obter os nutrientes necessários à sua sobrevivência.
Engenheiro agrônomo e doutor em Ecologia Florestal, Norton diz que a espécie é típica do Cerrado, embora também ocorra em outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica, a Amazônia e áreas do Pantanal que não sofrem alagamentos.
"A gente praticamente só vê a flor. Toda a planta se desenvolve embaixo do solo, conectada às raízes de outras espécies por uma estrutura chamada haustório, que funciona como uma ligação entre a planta parasita e a hospedeira", explica.
Segundo o professor, ainda não se sabe quais espécies vegetais são as hospedeiras preferenciais da Langsdorffia hypogaea. Observações de campo indicam que ela costuma surgir próxima de diferentes árvores e arbustos do Cerrado, entre eles a escova-de-macaco e angico.
O surgimento da inflorescência acontece justamente nos meses mais secos do ano, entre junho e setembro. Por isso, sua aparição acaba se tornando uma espécie de marcador natural da mudança de estação.
"Todos os anos ela aparece. É uma planta bastante distribuída na natureza e sua floração coincide com o período seco, que corresponde ao nosso inverno", afirma o pesquisador.
A coloração vermelho-alaranjada e a textura suculenta ajudam a torná-la ainda mais chamativa. Segundo o professor, registros científicos indicam que a espécie pode servir de alimento para animais silvestres e até para bovinos. Na natureza, porém, sua permanência costuma ser breve.
"As inflorescências duram poucos dias. Muitas vezes são consumidas por animais ou até retiradas por pessoas que as acham bonitas e querem levá-las para casa", relata.
O especialista afirma que, além da beleza, a flor desempenha papel ecológico importante. Durante a floração, torna-se fonte de recursos para polinizadores, como formigas e besouros, que ajudam no processo de reprodução e dispersão da espécie.
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