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Saúde e Bem-Estar

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital

Sífilis, hepatites virais e corrimento que pode ser causado por clamídia ou gonorreia estão entre elas

Por Cassia Modena | 31/07/2026 12:15
Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Medicamento que pode reduzir ainda mais os casos de HIV e vem sendo chamado de PrEP injetável (Foto: Divulgação)

Cabotegravir é o nome de um medicamento injetável de longa duração que pode ajudar a reduzir ainda mais os casos de HIV no Brasil em relação às últimas décadas. O Ministério da Saúde afirmou nesta semana que negocia para levá-lo à rede pública.

RESUMO

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O Ministério da Saúde negocia a inclusão do cabotegravir, medicamento injetável de longa duração contra o HIV, na rede pública. Em Campo Grande, menos de 3 mil pessoas usam a PrEP, profilaxia disponível desde 2018. A sífilis lidera as infecções sexualmente transmissíveis na cidade, com pico em 2023. Pesquisador da UEMS aponta que mulheres e pessoas negras são as mais vulneráveis, mas as menos assistidas pelas políticas de prevenção disponíveis.

O que já está disponível desde 2018 e revolucionou a prevenção são os medicamentos antirretrovirais PrEP (profilaxia pré-exposição), que podem evitar infecções pelo vírus se tomados antes de uma relação sexual desprotegida ou outra forma de contato suspeita com o vírus. Ao menos em Campo Grande, a adesão é baixa: menos de 3 mil pessoas já fizeram alguma retirada e boa parte delas não usa de forma contínua, segundo dados informados pela Sesau (Secretaria Municipal de Saúde).

Ainda falando da Capital, o HIV em estágio avançado que resulta em aids é a IST (infecção sexualmente transmissível) que teve o segundo maior número de casos de 2021 para cá. A quantidade de notificações está na faixa de 400 a 500 por ano e não tem caído.

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Dados repassados pela Sesau sobre os casos confirmados no período

A campeã em infecções é a sífilis. Houve um pico em 2023 e a quantidade diminui desde o ano seguinte, mas discretamente.

As outras mais frequentes são o corrimento no pênis, que pode ser causado por gonorreia ou clamídia, além das hepatites virais. Esses dois quadros tiveram crescimento que chama atenção. Mas nem o cabotegravir, nem a PrEP, nem a PEP (profilaxia pós-exposição) impedem a transmissão dessas infecções.

A maioria das infecções notificadas foi testada em pacientes do sexo masculino, com idades entre 20 e 34 anos.

Proteção parcial - Será que os medicamentos “anti-HIV” estão deixando as pessoas mais seguras com relação à aids, mas mais relaxadas quanto a outras ISTs?

O médico infectologista da Sesau, Roberto Braz, explica que não dá para fazer essa associação, já que o uso não tem relação direta com algum aumento de casos de infecções sexualmente transmissíveis no Brasil. O mesmo vale para Campo Grande, segundo informações e estudos consultados por ele.

“Eles são usados por alguém que já tem um perfil de exposição maior. Se ele está procurando a PrEP é porque realmente não usa o preservativo com frequência. E teve aumento, mas pouco significativo das ISTs nessa população que já usa PrEP”, detalha.

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Médico infectologista da Sesau, Roberto Braz mostra números e analisa relação entre uso da PrEP e ISTs em geral (Foto: Cassia Modena)

Como a entrega das pílulas só é feita quando a pessoa faz testes, uma hipótese é que a procura pela PrEP acaba ajudando a identificar doenças, incrementando os números de notificações.

“Elas acabam se testando mais e a gente acaba identificando mais, obviamente o número vai aumentar. Mas não está aumentando porque estão usando PrEP, mas sim, porque os testes estão identificando mais doenças que poderiam ficar ocultas”, completa o médico.

Sífilis e Bioceânica - Professor do curso de Medicina da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Leandro Antero alerta que é alto no Estado o índice de sífilis congênita transmitida da mãe para o feto, e a adquirida principalmente por relação sexual. “É alarmante”, frisa.

Ele pesquisa se a taxa de sífilis adquirida coincide com transformações econômicas e populacionais nas cidades que integram a Rota Bioceânica em Mato Grosso do Sul, mas considerando outros fatores e sem traçar uma ligação de causa e efeito.

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Porto Murtinho, cidade que integra a Rota Bioceânica e ganhou uma ponte prevista no projeto este mês (Foto: Osmar Veiga)

Em artigo publicado este ano na Revista Interações, o pesquisador mostra que houve 15.628 casos em 12 municípios entre 2010 e 2023, segundo dados consultados no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação). Campo Grande concentra 90% das notificações.

“A gente tem percebido que as cidades que estão no corredor, como Porto Murtinho e Campo Grande, e também aquelas que estão se expandindo com a instalação de fábricas de celulose, como Ribas do Rio Pardo e Inocência, têm índices elevados de sífilis adquirida”, resume.

A pesquisa aponta que a preocupação não deve ser só com a PrEP, PEP e HIV. “E aí a gente tem um problema mais geral mesmo. A gente precisa falar de outros métodos de prevenção”, afirma.

Pontual - Durante a pesquisa, Leandro soube da falta em Campo Grande de testes de sangue VDRL (venereal disease research laboratory), usados para detectar a sífilis, além do antibiótico benzetacil, o principal no tratamento dessa infecção.

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Professor da UEMS, Leandro Antero fala sobre os resultados de suas pesquisas (Foto: Cassia Modena)

Questionado se já houve reposição na rede pública da Capital, Roberto Braz afirmou que sim e que a falta foi pontual. Segundo ele, todos os recursos utilizados na prevenção, testagem e tratamento das ISTs estão abastecidos.

O professor da UEMS cita também que está disponível para compra em farmácias, mas só com receita médica, um medicamento chamado DoxyPEP. É um antibiótico com eficácia para evitar sífilis e clamídia após uma suspeita de contato com as ISTs. Ele ainda não está disponível no SUS (Sistema Único de Saúde), mas deve ficar em breve.

Outras opções na rede pública para prevenir ISTs são a camisinha e a vacinação contra as hepatites, por exemplo.

Mulheres, pretos, pardos - Antero lembra que há muitos métodos disponíveis, mas que o problema é que a PrEP, a PEP e a DoxyPEP não são amplamente conhecidas ou não chegam a grupos em que os índices de ISTs têm crescido.

“Quando a gente analisa quem está se infectando pelo HIV, por exemplo, a gente vê mais uma população com uma escolaridade mais baixa, população preta, parda e as mulheres que são consideradas hoje uma população vulnerável. Isso se aplica a Mato Grosso do Sul. É também o grupo mais vulnerável aqui”, destaca.

Medicamentos ampliam a proteção contra o HIV, mas outras ISTs avançam na Capital
Profissional de saúde faz testes rápidos para ISTs na Capital (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)

E a PrEP não está alcançando essas pessoas. De acordo com os dados avaliados pelo pesquisador, gays, homens que fazem sexo com homens, brancos e com níveis maiores de escolaridade são os que mais acessam as pílulas e ficam mais protegidos. “A cobertura até é boa no Estado, mas não em relação aos mais vulneráveis”, reforça.

Outro problema é o despreparo dos profissionais de saúde para orientar sobre a prevenção. “A gente vê que está muito mais no âmbito dos infectologistas, das entidades privadas as informações sobre a utilização dessas estratégias”, finaliza.

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