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Capital

“Meteram a boca”: áudio cita suspeitas sobre contrato com mulher de humorista

Instituto Nóbrega assumiu Neurocirurgia por até R$ 650 mil mensais e deixou hospital 9 meses depois

Por Anahi Zurutuza | 15/09/2026 18:32
“Meteram a boca”: áudio cita suspeitas sobre contrato com mulher de humorista
Carlos Alberto de Nóbrega saindo do Bioparque Pantanal ao lado da esposa em setembro de 2024 (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

Áudio interceptado pela investigação que desembocou na Operação Antidotum, que apura desvios de recursos da Santa Casa de Campo Grande, escancara suspeitas levantadas por médicos que atuam no maior hospital de Mato Grosso do Sul. Entre elas, está a contratação do Instituto Nóbrega, fundado pela mulher do humorista e apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, a médica nutróloga Renata Domingues de Nóbrega.

RESUMO

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Áudio interceptado pela Operação Antidotum, que apura desvios na Santa Casa de Campo Grande, revelou suspeitas de médicos sobre a contratação do Instituto Nóbrega, fundado pela médica Renata Nóbrega, mulher do humorista Carlos Alberto. O contrato, de até R$ 650 mil mensais para serviços de neurocirurgia, foi encerrado em junho de 2025 após nove meses. A operação prendeu seis pessoas, incluindo a presidente da instituição, e aponta prejuízo inicial de R$ 4,9 milhões.

O PIC (Procedimento de Investigação Criminal) que embasou a Operação Antídoto traz conversa atribuída ao então gerente administrativo do hospital, Alessandro Dias Junqueira. Por áudio enviado pelo WhatsApp em 14 de fevereiro deste ano, ele comenta as críticas feitas por médicos durante uma reunião sindical. “Mais meteram a boca, falaram da mulher do Carlos Alberto de Nóbrega, falaram disso, falaram daquilo”, declarou.

O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) não traz o Instituto Nóbrega como um dos núcleos empresariais apontados como integrantes do esquema investigado, mas as apurações mostram que não é a primeira vez que suspeitas são levantadas sobre a contratação.

Em 2025, declaração anônima encaminhada ao NAES (Núcleo de Apoio Especial à Saúde) elencava motivos como aumento do custeio, a qualificação dos profissionais trazidos de outros estados e as consequências da troca da equipe médica para questionar o contrato com a empresa “forasteira”.

Contrato de milhões – O Instituto Nóbrega começou a atuar na Santa Casa em 16 de setembro de 2024, assumindo o serviço de Neurocirurgia. O acordo previa duração de 24 meses, mas foi encerrado antecipadamente em 6 de junho de 2025, após aproximadamente nove meses.

A remuneração máxima era de R$ 650 mil por mês, condicionada ao cumprimento de indicadores de desempenho. O instituto receberia R$ 455 mil se atingisse entre 70% e 89,9% da pontuação e R$ 325 mil caso ficasse abaixo de 70%.

Se fosse mantido durante os dois anos, com pagamento integral em todos os meses, o contrato poderia alcançar R$ 15,6 milhões. Esse é apenas o teto projetado a partir do valor mensal. Os documentos divulgados no Portal da Transparência da Santa Casa não apresentam o total efetivamente pago durante todo o período.

Além dos pagamentos mensais, o contrato previa o repasse antecipado de R$ 520 mil antes do início do serviço. O documento classifica o valor como uma caução destinada à implantação da equipe. Também permitia cobranças separadas por procedimentos determinados judicialmente, conforme a complexidade de cada caso.

Pelo acordo, cabia ao instituto manter neurocirurgiões presencialmente no hospital durante 24 horas. A equipe deveria realizar consultas, cirurgias eletivas, atendimentos de urgência e emergência, acompanhamento de pacientes internados e avaliações solicitadas pelo pronto-socorro e por outros setores.

O serviço abrangia pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), convênios, atendimentos particulares e casos decorrentes de decisões judiciais.

No instrumento contratual, o Instituto Nóbrega é representado por sua presidente, Maria Edvânia Pinheiro Domingues. Renata também aparece entre as pessoas que assinaram eletronicamente o documento. O médico Ramon Silva Junqueira foi indicado como responsável técnico pela execução do serviço.

“Meteram a boca”: áudio cita suspeitas sobre contrato com mulher de humorista
Portal da Transparência da Santa Casa mostra contratação como encerrada (Foto: Reprodução)

Mais denúncias – Na declaração prestada ao NAES em 5 de agosto de 2025, o denunciante afirma que Renata residia em São Paulo (SP) e, mesmo assim, ocupava a função de diretora-técnica do plano Santa Casa Saúde. Segundo o relato, essa ligação causou estranheza entre médicos do hospital, já que, além de atuar como dirigente do convênio, era a proprietária da prestadora de serviços recém-contratada pelo hospital que recebe recursos públicos.

As reclamações sobre a mudança da equipe chegaram ao público dois meses depois da contratação. Em dezembro de 2024, o neurocirurgião Fabiano Santos afirmou ao Campo Grande News que atrasos em cirurgias, redução dos procedimentos noturnos e desfalques nas escalas prejudicavam os pacientes.

Fabiano havia trabalhado no hospital entre janeiro de 2023 e outubro de 2024. Conforme o médico, os nove neurocirurgiões locais foram substituídos por 16 profissionais vinculados ao Instituto Nóbrega. Até dezembro, dez dos contratados já teriam deixado a equipe.

Ele também relatou que, em determinado período, havia apenas uma neurocirurgiã de plantão, embora fossem esperados quatro profissionais por dia. A Santa Casa negou desassistência e afirmou que houve apenas um desajuste temporário durante uma troca de plantão, posteriormente solucionado.

Na ocasião, o então diretor técnico William Leite Lemos defendeu a qualificação da nova equipe. Segundo ele, os profissionais tinham formação em cirurgia de tumores cerebrais, aneurismas, coluna e Neurocirurgia Pediátrica, inclusive com aperfeiçoamento no exterior.

Em março de 2025, cinco meses depois de assumir o serviço, o Instituto Nóbrega publicou no site do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo) uma oferta para contratar três neurocirurgiões destinados à Santa Casa de Campo Grande.

O anúncio informava pagamento de R$ 3.200 por plantão de 12 horas, além de hospedagem e carro para deslocamento custeados pelo instituto.

Distrato – O contrato, que inicialmente terminaria apenas em setembro de 2026, foi encerrado por acordo entre as partes em 6 de junho de 2025. O distrato dispensou o aviso prévio de 90 dias e devolveu a execução da Neurocirurgia à própria Santa Casa.

Apesar das denúncias apresentadas ao NAES, o documento de encerramento declarou que o Instituto Nóbrega havia respondido às notificações e executado os serviços dentro dos padrões técnicos, éticos e legais. A Santa Casa também reconheceu que notificações expedidas nos dias 21 e 27 de maio haviam sido respondidas e solucionadas.

Não consta no distrato o conteúdo dessas notificações nem o motivo detalhado para a interrupção de um contrato que ainda teria aproximadamente 15 meses de vigência.

A Santa Casa concordou em reverter um pagamento cancelado em abril de 2025. Com isso, comprometeu-se a pagar R$ 325 mil ao instituto. Também reconheceu o pagamento integral de R$ 650 mil referente aos serviços de maio. Os valores finais somaram R$ 975 mil.

O distrato ainda autorizou a Santa Casa a contratar diretamente médicos que trabalhavam para o Instituto Nóbrega. A medida não seria considerada aliciamento ou quebra das obrigações assumidas entre as partes.

“Cúpula” na prisão – A Operação Antídoto foi deflagrada na sexta-feira passada, dia 11 de setembro, pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). Foram cumpridos 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).

A presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram presas preventivamente (por tempo indeterminado): Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Maurício Aparecido Benites e Monique Gregório de Oliveira.

O Campo Grande News mostrou que a investigação atribui prejuízo inicial de pelo menos R$ 4,9 milhões aos contratos sob suspeita.

Segundo o MPMS, o suposto esquema estava dividido em duas frentes. A primeira envolvia o contrato com a Redvalue Tecnologia para digitalização de prontuários e documentos. A empresa recebeu aproximadamente R$ 2,1 milhões, embora a investigação sustente que teria executado apenas 9% do volume correspondente aos pagamentos, produzindo onze vezes menos do que recebeu.

O acordo previa R$ 1,8 milhão por ano e poderia alcançar R$ 5,4 milhões em três anos. O Ministério Público afirma que a contratação foi montada sem estudo técnico, análise de viabilidade ou comprovação de vantagem econômica. As cotações teriam sido feitas com empresas vinculadas ao mesmo núcleo econômico.

A segunda frente envolve a operadora Santa Casa Saúde. Conforme a investigação, empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte receberam R$ 9,6 milhões somente em 2025. Parte delas não teria funcionários registrados e compartilharia endereços e estruturas.

Uma gráfica recebeu R$ 38,1 mil sem que os investigadores encontrassem comprovação dos serviços. Outro contrato ultrapassou em R$ 241 mil o limite previsto para serviços de cobrança, sem termo aditivo que autorizasse o gasto adicional.

A apuração também identificou retiradas bancárias sucessivas de R$ 49.999, valor imediatamente inferior ao patamar de R$ 50 mil usado para comunicações obrigatórias ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Para o MPMS, o fracionamento pode ter sido utilizado para reduzir os mecanismos de controle.

A investigação também encontrou o registro da compra de uma casa por R$ 400 mil em dinheiro vivo por Alir Terra Lima. Em outro ponto, fiscais da CGE (Controladoria-Geral do Estado) levantaram a suspeita de que recursos públicos destinados ao atendimento do SUS pudessem ter sido usados para custear atividades do plano de saúde privado. A instituição e a operadora não entregaram toda a documentação solicitada para verificar essa hipótese.

O Campo Grande News também revelou que o Conselho Fiscal relatou resistência para acessar contratos, notas fiscais, relatórios e comprovantes de pagamento. A dificuldade continuou mesmo depois de ordem judicial para apresentação das contas. Em decisão, o juiz Eduardo Lacerda Trevizan registrou “espanto” com a recusa da Santa Casa em mostrar a documentação.

A reportagem procurou o instituto por meio dos telefones e e-mail divulgados no site, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.