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Saúde e Bem-Estar

Pacientes esperam anos por cirurgias e enfrentam agravamento de doenças

Sem financiamento público regular desde 2022, os procedimentos estão suspensos

Por Inara Silva | 13/02/2026 07:38
Pacientes esperam anos por cirurgias e enfrentam agravamento de doenças
Entrada do Hospital São Julião em Campo Grande (Foto: Divulgação)

Desde 2023, a cirurgiã-dentista Jhisely Romero Montalvo, de 24 anos, está na fila de espera para cirurgia de otorrinolaringologia no Hospital São Julião, em Campo Grande. Ela conseguiu atendimento por meio de pedido judicial, passou por consulta médica e realizou todo o pré-operatório, com exames como raio-X, análises de sangue e eletrocardiograma, mas nunca foi chamada para o procedimento. “Falaram que em duas, três semanas eles iriam chamar para fazer a cirurgia. Só que depois nunca chamaram”, relata.

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Pacientes em Campo Grande enfrentam longa espera por cirurgias de otorrinolaringologia no Hospital São Julião. A situação, que se arrasta desde 2022, deve-se à suspensão do repasse anual de R$ 1,2 milhão destinado aos procedimentos, levando à interrupção das cirurgias eletivas. O hospital mantém apenas consultas ambulatoriais pelo SUS, com 51 vagas disponíveis. Pacientes como Jhisely Montalvo, que aguarda há três anos, e Carlos Eduardo, há mais de um ano, sofrem com problemas respiratórios e dependem de medicação contínua. O tempo médio de espera pode ultrapassar um ano, agravando as condições de saúde dos pacientes.

Três anos depois, Jhisely continua aguardando sem previsão. Indicada para correção de desvio de septo, retirada da hipertrofia dos cornetos (a chamada “carne no nariz”) e tratamento da sinusite, ela afirma que convive diariamente com os sintomas e depende de medicação contínua para suportar o problema.

“Hoje eu vivo à base de remédio. Tenho dificuldade para respirar, para dormir. Todas as noites eu faço inalação para conseguir dormir,” afirma ao lembrar que já esteve no hospital várias vezes em busca de informações.

Sem condições de pagar cerca de R$ 18 mil pelo procedimento na rede privada, a paciente segue à espera de atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Outro paciente que aguarda pela cirurgia é o estudante Carlos Eduardo, de 18 anos. Ele convive diariamente com dificuldades para respirar, crises alérgicas constantes e um problema que avança de forma visível, segundo a mãe Gleiciane Ferreira Xavier, o nariz aparenta estar entortando. O filho depende da cirurgia pelo SUS que, hoje, praticamente não acontece por falta de financiamento público.

A mãe conta que Carlos passou por consulta e exames em janeiro de 2024, no Hospital São Julião, quando recebeu o diagnóstico de desvio de septo, rinite crônica e hipertrofia de cornetos. A orientação foi aguardar o contato para agendamento da cirurgia.

“Disseram que era só esperar um telefonema. Já passou mais de um ano e ninguém ligou. Ele sofre todo dia com dificuldade para respirar e alergia”, relata a mãe.

A família mora no Indubrasil (Núcleo Industrial), em Campo Grande, bem distante do hospital, que fica no outro extremo da cidade. Isso dificulta sua ida até o local para buscar informações.

Pacientes esperam anos por cirurgias e enfrentam agravamento de doenças
Cirurgia otorrinolaringológica feita no Hospital Cassems, em Campo Grande (Foto: Divulgação/Cassems)

Situação antiga - A situação é recorrente, tanto que, em abril do ano passado, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) já havia cobrado a agilização das consultas e cirurgias de otorrinolaringologia na rede pública de Campo Grande. O órgão instaurou inquérito para apurar a demora no atendimento, notificando o poder público e o hospital. A denúncia partiu de uma mãe que relatou prejuízos à saúde e à vida escolar do filho que aguardava o procedimento.

Em nota, o hospital São Julião  informou ao Campo Grande News que não houve mudança no cenário desde então e que ainda aguarda a renovação dos contratos para voltar a realizar as cirurgias. Atualmente, o São Julião não mantém contratualização com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para cirurgias de otorrinolaringologia, atuando apenas com consultas ambulatoriais reguladas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Contrato público - Dados do hospital mostram que a instituição perdeu, desde janeiro de 2022, o repasse regular destinado às cirurgias de otorrinolaringologia. Até então, havia um teto financeiro anual de aproximadamente R$ 1,2 milhão para custear os procedimentos. Hoje, o hospital estima que a contratualização suspensa represente cerca de R$ 100 mil por mês que deixaram de ser investidos na especialidade. Sem esse recurso, as cirurgias eletivas estão suspensas.

A instituição chegou a realizar procedimentos por meio do programa estadual MS Saúde, com pagamento por produção, totalizando 402 cirurgias naquele período específico, mas o modelo não teve continuidade suficiente para absorver a demanda.

O Hospital São Julião afirma que mantém o atendimento gratuito e humanizado, mas reforça que a retomada das cirurgias depende exclusivamente de nova contratualização com o poder público.

Todas as especialidades - Levantamento do SIH/SUS (Sistema de Informações Hospitalares do SUS) indica que, considerando todas as especialidades, o hospital realizou uma média de 30 a 40 cirurgias mensais entre 2024 e 2025. No entanto, os números mostram forte oscilação, reflexo direto da falta de financiamento contínuo.

Em 2024, por exemplo, em janeiro teve 24 cirurgias; março chegou a 35; abril registrou 37; maio caiu drasticamente para 6 procedimentos; junho não teve registros.

Já em 2025, houve meses com produção reduzida, como julho com 10 cirurgias, agosto com apenas 4 procedimentos, antes de voltar a subir em novembro, com 37 cirurgias.

Pacientes esperam anos por cirurgias e enfrentam agravamento de doenças
Levantamento mostra todas as cirurgias realizadas pelo hospital nos últimos dois anos

Demanda reprimida - Atualmente, existem somente 51 vagas contratualizadas para consultas ambulatoriais em otorrinolaringologia, número considerado insuficiente para a demanda crescente.

Sem programas ativos de redução de filas, o hospital classifica a situação como de demanda reprimida, com pacientes aguardando meses apenas para avaliação especializada e ainda mais tempo para cirurgia.

O tempo médio de espera por um procedimento eletivo, segundo a instituição, varia entre seis meses e um ano, podendo ultrapassar esse prazo quando não há financiamento disponível, realidade enfrentada por muitos, inclusive, por Fernanda, de 18 anos.

Segundo a mãe Lúcia Teixeira, a jovem precisa de cirurgia após ser diagnosticada com desvio de septo em uma narina e adenoide na outra, quadro que provoca dificuldade para respirar. Inicialmente atendida no Hospital Regional, a família foi encaminhada para procedimento no Hospital São Julião.

Em 2022, Fernanda passou por nova avaliação e realizou todos os exames pré-operatórios, mas a cirurgia foi suspensa porque o equipamento estaria quebrado. Conforme Lúcia, a família foi orientada a aguardar contato, que nunca ocorreu. Neste ano, ao retornar à unidade, teria recebido a informação de que as cirurgias continuam sem previsão e a paciente foi recolocada na fila de espera.

Diante das dificuldades em fazer o procedimento pelo SUS, a família está economizando para buscar a cirurgia na rede particular.

Pacientes esperam anos por cirurgias e enfrentam agravamento de doenças
Profissionais realizam cirurgia de otorrinolaringologia (Foto: Álvaro Rezende/MSGOV)

Casos graves - Mesmo sem contrato com o poder público, o hospital afirma que ainda realiza cirurgias consideradas essenciais, quando há risco de agravamento do quadro clínico, priorizando pacientes com necessidade clínica urgente, como:

  • risco respiratório,

  • infecções recorrentes,

  • distúrbios do sono,

  • prejuízo funcional significativo.

A capacidade, porém, é limitada e não atende à totalidade da fila.

Suspensos - Entre os procedimentos que deixaram de ser ofertados regularmente estão:

  • septoplastia funcional,

  • turbinectomia,

  • cirurgias para rinite crônica,

  • sinusotomia,

  • amigdalectomia e adenoidectomia,

  • microcirurgias otológicas e correções de vias aéreas superiores.

A reportagem do Campo Grande News procurou o posicionamento das secretarias de Saúde do Estado e do município, porém ainda não obteve retorno. O espaço permanece aberto.

Em nota, o MPMS informou que investiga o caso, por meio de inquérito civil. Segundo a assessoria de imprensa, a 32ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública já solicitou esclarecimentos ao município e ao Estado sobre o caso. O inquérito segue em fase de instrução e o MPMS segue acompanhando.

Segue a nota na íntegra:

"O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) está acompanhando a situação das cirurgias de otorrinolaringologia no Hospital São Julião por meio de um inquérito civil (n. 06.2025.00000345-8) em andamento na 32ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública. Esse procedimento foi instaurado para apurar a falta de vagas e a demanda reprimida de pacientes que aguardam atendimento na área.

Durante a apuração, o hospital informou que mantém contrato com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) para consultas e exames, mas que não há previsão contratual específica para cirurgias eletivas, o que acaba limitando a ampliação dos atendimentos. Também foi esclarecido que, no Projeto MS Saúde, os recursos destinados já foram integralmente utilizados, e por isso os procedimentos ficaram temporariamente suspensos, aguardando liberação de novas verbas.

A Promotoria de Justiça requisitou informações tanto ao município quanto ao Estado sobre a possibilidade de incluir essas cirurgias nos contratos e sobre medidas estruturantes para enfrentar a demanda existente. O procedimento segue em fase de instrução, com acompanhamento contínuo das informações prestadas pelos gestores e pelo hospital.

Assim, o MPMS permanece atento ao caso e adotará as providências necessárias conforme a evolução das informações, reforçando seu compromisso em buscar soluções para garantir o acesso da população aos serviços de saúde".

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