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Com "Chá de Panela Velha" e blog de histórias, Lenilde Ramos chega aos 60 anos

Por Francisco Júnior | 13/03/2012 16:23
Lenilde ramos, na versão sanfoneira. (Fotos: João Garrigó).
Lenilde ramos, na versão sanfoneira. (Fotos: João Garrigó).

No dia 21 de junho a sanfoneira Lenilde Ramos completa 60 anos (quem diria) com um “chá de panela velha”. Vai convidar os amigos para comemorar a idade, “muito bem vivida”, diz a morena, alta e até em forma.

São tantas histórias neste Mato Grosso do Sul que a jornalista, artista e escritora criou um blog para dividir o que já viu por aí o . “Eu faço parte da cultura de Mato Grosso do Sul, tanto pelo trabalho nos bastidores, como artisticamente como sanfoneira”, justifica.

A infância já era marcada pela cultura. O pai tocava violão ou bandolim e alguém tinha de dançar. Logo aprendeu a tocar. “Na minha época, menina tocava sanfona e piano. Era chique. Não tive a oportunidade de fazer como as amigas e ir para São Paulo. Quando percebi o dom para música, já tinha 3 filhos”, lembra.

Mãe de três homens feitos, nem os nomes dos filhos são convencionais: Uirá tem 33 anos, Arani tem 30 e Aruã completou 27.O último nome foi escolhido por Alzira Espíndola, uma das amigas próximas que dividiu andanças com Lenilde.

“Conheço todos os bastidores da divisão do Estado, por exemplo. Estava grávida do primeiro filho, que virou símbolo da criação há 33 anos”, explica ao falar da revolta diante de episódios de confusões com o nome de Mato Grosso “do Sul”.

Formada em letras, Lenilde escreveu para o Jornal Diário da Serra em 1974, e também o livro História sem Nome, Lembrança de uma Menina quase Gêmea.

Os capítulos da obra lançada em 2011 contam parte de uma Lenilde professora, no São Julião. O livro será traduzido para o italiano, idioma de médicos e voluntários que também se dedicaram ao tratamento de doentes com hanseníase no hospital de Campo Grande.

Expresso Arrasta Pé, em 1985
Expresso Arrasta Pé, em 1985

É só um parágrafo de tanta vida plenamente vivida. A carreira artística tem um peso grande e um recheio especial. Em 68 conheceu Geraldo Espíndola e o compositor Paulo Simões. “Eles perguntaram o que eu sabia tocar na sanfona e eu respondi: de tudo”. Depois passou a receber convites e até colocou a sanfona no arranjo do Trem do Pantanal, canção de Simões e Geraldo Roca.

Lenilde é da geração das mulheres que começaram a brilhar na música, quando 99% dos sucessos eram dos homens. Na turma dos artistas, passou a participar de grandes festivais, no Teatro Glauce Rocha e no Clube Surian.

Em plena ditadura venceu uma das competições com a música Revolta dos Negros em Los Angeles e acabou na delegacia com seu cabelo Black Power. “Ganhei do José Octavio Guizzo, imagina. Mas tive de dar explicações ao delegado sobre a letra muito política”, conta.

De tantas viagens, conheceu o Estado inteiro e chegou de carona até Buenos Aires. As aventuras renderam arquivo de fotos riquíssimo. Muitas das imagens são de espetáculos. Como produtora de eventos culturais, acabou no camarim de muitos artistas, de Elis Regina a Chico Buarque. “Pude conhecer os artistas na sua essência”, comenta.

Com a amiga Helena Meirelles.
Com a amiga Helena Meirelles.

Um dos momentos engraçados aconteceu com Elizeth Cardoso, “A Divina”, dama da música brasileira na época do rádio. Um cachorro apareceu no palco do Teatro Glauce Rocha. No intervalo, um dos funcionários conseguiu retirar, mas o bicho voltou. Depois, ele teve de pegar o cachorro e soltar lá perto do cemitério Santo Antônio, para ele não voltar mais”, ri.

Hoje, ler as histórias no blog de Lenilde é algo enriquecedor. Dia desses postou as peripécias na tentativa de vender um jingle à prefeitura de Antônio João, depois que o município descobriu que durante anos usou um plágio como tema oficial.

Como boa artista brasileira, relata que penava com pouco dinheiro e decidiu propor a canção ao prefeito da cidade. Depois de muita negociação, recebeu um telefonema: “Oi Lenilde, o prefeito está na capital e gostaria de conhecer o nosso hino. Você não quer vir tocar pra ele?”. Pensei: “Êêêbaaa, vamos retomar as negociações. Mas, onde vocês estão?”. Ele disse: “O prefeito está internado no Proncor. Você não pode trazer a sanfona aqui?”, conta em trecho postado no blog.

“Oi Lenilde, o prefeito está na capital e gostaria de conhecer o nosso hino. Você não quer vir tocar pra ele?”. Pensei: “Êêêbaaa, vamos retomar as negociações. Mas, onde vocês estão?”. Ele disse: “O prefeito está internado no Proncor. Você não pode trazer a sanfona aqui?”.

Para não ser enxotada pelo corpo clínico por conta da bagunça no hospital, resolveu gravar um CD e enviar ao prefeito. Mas quando tudo estava pronto para apresentar a música, ao sentar para assistir ao jornal a notícia não foi nada boa.

“Almocei a fui assistir o jornal na televisão e a primeira notícia que a apresentadora anunciou foi o falecimento do Prefeito de Antônio João, num acidente na estrada para Bela Vista. Senti por ele, um homem novo, na flor da idade. Não ouviu meu hino e a cidade continua sem hino. Mas, a vida continua”, avalia sem perder o humor, como sempre fez na vida.

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