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Campo Grande, Domingo, 13 de Outubro de 2019

15/01/2019 10:24

Charlatões e o atraso

Por Benedicto Ismael Camargo Dutra (*)

Ao entrarmos no ano de 2019 ressurge a pergunta: o que quererem os seres humanos que receberam a Criação para se desenvolverem? As aspirações estão rasteiras. Tudo está muito abaixo do nível que se poderia esperar de nosso potencial. As pessoas se deixaram rebaixar, as novas gerações foram mantidas nesse patamar baixo. E agora? Deveriam estar sendo despertadas para construir um futuro melhor, em equilíbrio entre dar e receber.

Charlatões é o que não falta no mundo, mais ainda no Brasil. A charla é a fala que agrada aos ouvidos dos incautos. O charlatanismo é a exploração da credulidade pública. Se as atividades em geral não estivessem contaminadas pelo charlatanismo, o mundo seria outro; as grandes crises dos anos 1930 e 2008 não teriam ocorrido, nem as guerras mundiais. Há vários estudos sobre as terapias econômicas empregadas para debelar a crise dos anos 1930; no entanto, pouco se ouve falar sobre a busca das causas que provocaram o declínio que rompeu tradições seculares, incluindo o comportamento ético e moral que passou a ser avaliado pela utilização do tempo e resultado financeiro.

No Brasil, as commodities são importantes, mas ficar eternamente pendurado a elas não deu bom resultado para o todo. Precisamos de solução para a estagnação econômica que avançou pelas demais atividades fora as commodities sempre sujeitas à instabilidade, apesar de que a produção de alimentos poderá sofrer comprometimentos climáticos e se tornar estratégica. Fala-se que para debelar a crise econômica a solução é produzir bens para exportar.

A China criou a via do Estado Capitalista, com governo forte, que suprime a liberdade e a individualidade, onde o ser humano é tratado como robô; substituiu a ideologia pelo acúmulo de reserva em dólares, subverteu a teoria econômica estabelecendo preços abaixo do possível nas estruturas de produção do capitalismo de livre mercado; isso está promovendo precarização geral com alguma melhora para a população espremida pelo regime comunista. No que isso vai dar não se sabe, mas já há guerra comercial. Além disso, há um conjunto de fatores que incluem a displicência de muitos governos cujo objetivo prioritário era vencer a próxima eleição.

A reserva cambial do Brasil cresceu em reais, mas a dívida pública também. O aumento do passivo pela capitalização de juros superou o ganho contábil com a depreciação do real. O lamentável foi ter permitido que a dívida tivesse crescido tanto a ponto de travar tudo ao lado do processo de desindustrialização que se instalou com a valorização do real desde o final dos anos 1990, inviabilizando as exportações de bens manufaturados.

Com o declínio nas oportunidades de trabalho e na renda o consumo cai. O açambarcamento dos recursos da natureza e o aumento da capacidade produtiva instalada têm acarretado problemas pelo mundo, desequilibrando a economia. O capitalismo de livre mercado vem sendo absorvido pelo capitalismo de estado. Há muita capacidade ociosa e desemprego pelo mundo. Cada povo tem de se voltar para a melhoria interna, criando oportunidades de trabalho, recebendo a adequada compensação e aproveitando as horas de lazer de forma construtiva.

No Brasil, o regime escravocrata permaneceu por longo tempo. Após a abolição em 1888 não houve uma pronta mudança de mentalidade. Getúlio Vargas, sensibilizado, introduziu a legislação paternalista da CLT que ao longo do tempo provocou várias distorções. Com a globalização, a produção de bens migrou para outras regiões mais flexíveis, desarranjando tudo, gerando conflitos comerciais, desindustrialização e perda de empregos. Mas o necessário ajuste da CLT não será suficiente para a reativação da economia. O capitalismo de livre mercado não está conseguindo diversificar a produção além das commodities.

O que vai ser possível arrumar na economia desarranjada? Os gastos estúpidos e a roubalheira? Em cinco anos foram capitalizados dois trilhões de reais na dívida, e nada melhorou no país: educação, estradas, saúde. Certamente, com seriedade, vamos parar de piorar e com o tempo teremos melhoras, mas é preciso equilibrar as contas internas e externas e dar trabalho para a população obter renda e consumir. Para alcançar o futuro promissor, o Brasil tem de banir as mazelas da falta de caráter e patriotismo, dar bom preparo aos jovens motivando-os para a sadia construção do país.

(*) Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Hotel Transamerica Berrini, é articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. Coordena os sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br. 

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