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O espaço físico como cidadela na defesa contra os pega-ratões digitais

Por Gabriel Dorfman (*) | 21/05/2026 11:47

A “inclusão digital” – mantra repetido à náusea, em nome da “democratização” do conhecimento e das ações da vida em geral1 – encobre o avanço irresistível do poder econômico e político sobre o pouco que resta de autonomia dos cidadãos comuns.

Um dos campos de batalha da guerra que o poder econômico e político move contra os indivíduos é o da “digitalização” dos serviços bancários e financeiros. Aqui, o cerco do grande capital aos interesses de uma classe média quase extinta está próximo da vitória final; poucos são os redutos onde membros dessa classe ainda resistem. Envolto no véu da “democratização”, o cerco que o capital financeiro promove há décadas contra a classe média brasileira persegue dois objetivos principais: a definitiva extinção dos trabalhadores deste setor econômico e a incondicional submissão do cidadão comum aos interesses dos detentores de um capital concentrado na mão de pouquíssimos; o primeiro objetivo já está praticamente alcançado – bancários e trabalhadores do setor financeiro estão reduzidos a um punhado de espoliados submetidos a metas predatórias, à instabilidade no emprego, à incerteza sobre o futuro de seus postos de trabalho.

O atingimento completo do segundo dos objetivos acima nomeados está prestes a se consumar: o final do processo de “inclusão digital” no setor financeiro ocorrerá no momento em que a nenhum indivíduo do país for dado o direito de levar sua vida minimamente a salvo desse tsunami.

A multiplicação dos “bancos digitais” e similares, e a adesão entusiástica dos bancos tradicionais a esta tendência geral têm promovido uma aliança inusitada: predadores do “mundo digital” beneficiam-se de um processo que vai extinguindo as possibilidades de interação entre usuários e prestadores de serviço no “mundo real”; a simbiose entre o grande capital e os predadores do universo digital torna-se, cada vez mais, uma verdadeira cumplicidade. Aliás: faz tempo que tal cumplicidade rende frutos ao capital financeiro, pois o tema “segurança” tem sido o argumento-padrão para justificar a extinção dos postos de atendimento físico.

No processo de amordaçamento e imobilização do cidadão comum, a redução do número de agências bancárias é aspecto importante; ela equivale à clássica conduta dos criminosos profissionais, que têm na ocultação de seus endereços uma das táticas mais eficazes, para escapar ao controle e às punições promovidas pelas “forças da lei e da ordem”; ao lidar com criminosos profissionais, a primeira dificuldade enfrentada pelas polícias é justamente descobrir onde encontrá-los. Por isso, na defesa do pouco que resta de sua liberdade de decisão e ação frente ao capital predatório, o cidadão comum deveria se aferrar aos prestadores de serviço que têm endereço físico conhecido e acessível, pois, ao dizerem onde moram, eles são obrigados a mostrar sua face.

(*) Gabriel Dorfman é professor do Departamento de História da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Doutor em Arquitetura pela Technische Universität Berlin.




 

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