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08/11/2013 08:55

A interpretação

Por João Bosco Leal (*)

O deserto que atravessei / Ninguém me viu passar / Estranha e só / Nem pude ver que o céu é maior / Tentei dizer / Mas vi você / Tão longe de chegar / Mais perto de algum lugar / É deserto onde eu te encontrei / Você me viu passar / Correndo só / Nem pude ver que o tempo é maior / Olhei pra mim / Me vi assim / Tão perto de chegar / Onde você não está / No silêncio uma catedral / Um templo em mim / Onde eu possa ser imortal / Mas vai existir / Eu sei, vai ter que existir / Vai resistir nosso lugar / Solidão, quem pode evitar? / Te encontro enfim / Meu coração é secular / Sonha e desagua dentro de mim / Amanhã, devagar / Me diz como voltar / Se eu disser que foi por amor / Não vou mentir pra mim / Se eu disser deixa pra depois / Não foi sempre assim.

A letra acima, da música Catedral, uma composição de Tanita Tikaran com versão e interpretação de Zélia Duncan, é uma das que, apesar de juntamente com a cantora tê-la cantado centenas de vezes quando era tocada em uma rádio, CD ou em MP3, me fez perceber que só agora, na maturidade, consigo ouvir músicas que antes só havia escutado.

Quantas vezes me senti só, em um deserto, mesmo que entre milhares ou estranho mesmo que entre conhecidos, como diz a música. É um sentimento que atualmente afeta milhões de pessoas que apesar de tecnologicamente próximas de qualquer pessoa do planeta, ao mesmo tempo estão sós, diante de uma máquina que naquele momento as conecta ao mundo através da internet.

Quando conhecemos uma pessoa no mundo virtual, é fácil perceber que aquele alguém está muito longe dali e mais perto de outro lugar. Que há uma distância enorme entre nós e o que vemos perto, mas lá não está.

Essa poderia ser uma das interpretações dadas ao que o autor pretendia dizer, mas claro, cada um interpreta a letra de uma música ou de um texto de acordo com sua ótica, sua realidade, sua história de vida.

Porém, independentemente das possibilidades de interpretações, o importante não é escutarmos as músicas ou lermos os textos, mas ouvi-los e entende-los, para podermos tirar o maior proveito possível do ensinamento ali disponibilizado.

Os detalhes dos arranjos e principalmente as mensagens das letras, nunca foram por mim ouvidos e entendidos como atualmente. Gostava do ritmo de músicas que escutava, e logo imaginava se eram boas para dançar, refletir, namorar, trocar carinhos ou tantas outras ocasiões, mas não as ouvia verdadeiramente. Repetia exaustivamente o refrão de uma música sem nunca pensar no que dizia.

Entretanto, durante a vida aprendemos a interpretar melhor não só as letras das músicas e dos textos. Os livros lidos no passado passam a ter outro significado quando agora revistos. As poesias emocionam mais e as letras das músicas tocam mais profundamente.

Passamos a perceber com maior clareza o que nos é dito ou transmitido através das palavras, atitudes ou mesmo de expressões corporais, e como pequenos detalhes nas comunicações aproxima ou afasta pessoas. Tudo isso nos mostra coisas que antes víamos, mas não enxergávamos.

Aprendemos que, analisando variáveis como condições, local e contexto em que atitudes foram tomadas ou palavras ditas, seria possível entender de forma mais abrangente o que uma pessoa realmente fez ou pretendeu dizer.

A interpretação de hoje certamente não será a mesma de amanhã e o que ontem não podia ser feito, no futuro certamente poderá.

(*) João Bosco Leal é jornalista e empresário

www.joaoboscoleal.com.br

 

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