Abandonada pela Justiça há 22 anos, Sebastiana estuda Direito para achar a irmã
Caso envolve confissões, absolvição por falta de corpo e espera de resposta sobre o que aconteceu com Marcela

“A Justiça esqueceu, mas a gente não. E por quê? Porque a gente é preta? Porque a gente é pobre?”
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Sebastiana Aparecida de Souza busca respostas sobre o desaparecimento de sua irmã, Marcela Conceição de Souza, ocorrido há 22 anos em Campo Grande (MS). A adolescente, então com 15 anos, desapareceu em setembro de 2004 após supostamente ter sido vítima de tentativa de estupro por cinco rapazes. Após anos de investigação sem resultados e a absolvição dos acusados em 2009 por falta de provas materiais, Sebastiana decidiu cursar Direito para lutar não apenas pelo caso da irmã, mas também para ajudar outras famílias em situações similares. A Polícia Civil mantém o caso arquivado, aguardando novas informações para possível reabertura.
A frase é dita por Sebastiana Aparecida de Souza, dentro da mesma casa onde a irmã, Marcela Conceição de Souza, viveu até os 15 anos, no Jardim Anache, na região do grande Nova Lima, em Campo Grande. Passados mais de vinte anos desde o desaparecimento da adolescente, o endereço é o mesmo. A dor também.
- Leia Também
- Aos 34 anos, "Mil Grau" foi atropelado e esfaqueado por 3 vezes no Jardim Anache
- Acusados pelo desaparecimento de Marcela são absolvidos
A equipe foi até a residência da família, onde a história parou em 2004. Quem atende à porta é a mãe. Com cabelos grisalhos, semblante humilde e sinais visíveis de cansaço, ela se limita a dizer que não gosta nem de falar sobre o assunto. Na época, Em seguida, entra na casa e chama a filha, que conversa com a reportagem.
É Sebastiana quem fala pela família. É ela quem reconstrói os últimos passos da irmã e relata o que veio depois: buscas, confissões, absolvições e um silêncio institucional que nunca foi oficialmente explicado.
O dia em que Marcela não voltou para casa
Marcela desapareceu em 25 de setembro de 2004, aos 15 anos. Naquela época, Sebastiana já era maior de idade e não morava com a mãe. No dia seguinte ao desaparecimento, foi avisada de que a irmã não havia dormido em casa. Saiu para procurá-la. Passou pela casa de amigas, perguntou a conhecidos e refez os últimos caminhos da adolescente. Não encontrou respostas.
Horas depois, uma viatura da polícia chegou à casa da mãe. Uma amiga de Marcela desceu do veículo afirmando que a adolescente estava morta. Nas mãos, levava uma calça social preta que seria de Marcela. Conforme o relato da irmã, a peça estava suja de terra e água. A informação era de que o corpo estaria próximo a um córrego conhecido no bairro como “Botas”.
Moradores se mobilizaram e foram até o local indicado. Sebastiana seguiu para a então delegacia, na Avenida Ceará, onde registrou boletim de ocorrência. Começava ali uma investigação que, nos primeiros meses, envolveu diferentes delegacias e grande mobilização policial.
Prisões, confissões e versões contraditórias
Segundo a investigação, Marcela e uma amiga, que nunca teve a identidade revelada por ser menor de idade, estariam com cinco rapazes na casa de um deles e depois teriam seguido para uma área de matagal. Os jovens teriam tentado estuprar as duas. A amiga conseguiu fugir. Marcela nunca mais foi vista.
Os rapazes foram presos e, conforme relatado à família, chegaram a confessar que estupraram e mataram Marcela. As versões, no entanto, mudavam. Em determinado momento, a última informação repassada à família foi de que o corpo teria sido esquartejado e colocado em sacos de lixo. Parte dos acusados era adolescente. Outros ficaram presos por cerca de 30 dias e foram soltos.
Durante anos, houve buscas em áreas de mata, córregos e outros municípios, como Cuiabá (MT) e Coxim, após boatos de que Marcela estaria viva. Segundo Sebastiana, entre 2004 e 2007 o caso ainda era acompanhado. A partir de 2008, o silêncio se impôs. O atendimento se tornou difícil e a família deixou de receber retorno. "Às vezes eu ia tentar falar com o delegado, e ele nem me recebia mais"

A absolvição
Em 2009, cinco anos após o desaparecimento, veio o que a família considera o marco do abandono oficial. A Justiça de Mato Grosso do Sul absolveu cinco rapazes acusados no caso.
Sem a localização do corpo, a denúncia inicial de homicídio foi alterada para estupro. A absolvição foi fundamentada no artigo 386, inciso II, do Código de Processo Penal, por não haver prova da existência do fato.
À época, a decisão se sustentou na tese de que, sem o corpo da adolescente, não havia materialidade do crime. Um dos acusados, que tinha 16 anos quando Marcela desapareceu, foi retirado dos autos após ter sido assassinado em 2008. Os demais foram absolvidos.
Para Sebastiana, aquele foi o momento em que a Justiça deixou de procurar. “Porque pra Justiça, se não tem corpo, não tem prova. E a vida deles continua, mas a nossa não. Não tem como esquecer”, diz Sebastiana.
Incerteza
Hoje, a mãe tem 72 anos. Para a família, a dor não é apenas a perda, mas a incerteza permanente. “A gente não sabe se ela tá morta, se ela tá viva, onde ela tá, o que fizeram.”
Depois de 22 anos, Sebastiana diz conviver com uma ideia dolorosa. “Eu, Sebastiana, acho que minha irmã não está viva. Pra mim, minha irmã tá morta. A gente só queria dormir tranquilo. Por que mataram ela? O que ela viu? Foi queima de arquivo? Ela viu alguma coisa naquela noite? Naquela festa?”
Até hoje, sempre que um corpo é encontrado em Campo Grande ou na região, ela vai atrás. Recebe mensagens, fotos, informações e confere tudo. “Eu sempre vou. Porque eu quero resposta.”
Sem imagens recentes, a divulgação do desaparecimento se apoiou principalmente em um retrato falado que passou a ser usado nas buscas e consta até hoje no processo.
Emocionada, ela fala sobre a dor do desaparecimento. "Muito forte, porque eu perdi meu pai, eu perdi a minha irmã, eu perdi a outra, perdi meu tio e eu sei que eles estão lá, eles estão enterrados, a gente enterrou. E a Marcela?"
"Luto" que virou luta
Foi da dor acumulada que nasceu a decisão de estudar Direito. Sebastiana está no terceiro semestre do curso e diz que a escolha tem relação direta com o caso da irmã. “Eu estou fazendo Direito para poder ter uma voz maior, para poder ajudar nesse caso da minha irmã.”
Ela afirma que a luta não é apenas por Marcela. “Uma resposta eles têm que dar para a família. Para a mãe, para o pai. Eu vou sim. Eu vou lutar. Você pode ter certeza que eu não vou parar. Eu quero poder ajudar muitas famílias. Porque muitos não sabem seus direitos, não conhecem, não sabem aonde procurar"
A equipe de reportagem do Campo Grande News entrou em contato com a Polícia Civil do Mato Grosso do Sul e questionou sobre o caso. A resposta foi simples: "O caso está arquivado e havendo novas informações o caso poderá ser desarquivado, ocorrendo a retomada das investigações".



