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Campo Grande, Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

29/03/2018 07:01

Afinador de almas

Por Francisco Habermann (*)

As notas dó, mi, sol e outras sonoras anunciadas pelas mãos do afinador do piano lá na sala fizeram-me recordar sua história. Um belo relato que me foi contado naquele mesmo dia convenceu-me que histórias de vida se sobrepõem às experiências profissionais. Foi o que senti.

O excelente técnico afinador referiu ter passado a noite cuidando da sua mãe que fora conduzida ao pronto socorro de sua cidade e muito bem atendida e cuidada. Felizmente ela estava melhor, o que permitiu a volta dele ao trabalho profissional especialíssimo e já raro entre nós: afinador de pianos. Acompanhei-o na tarefa.

A execução dessa atividade é auxiliada atualmente por equipamento eletrônico moderno mas nunca foi assim. Afinadores sempre – até hoje – usam o ouvido treinado e sensível para a execução de suas tarefas junto ao instrumento. Trata-se de esmerada capacidade pessoal treinável e os equipamentos eletrônicos apenas certificam o tom básico ( nota lá ), auxiliando. A afinação de cada nota, entretanto, é do profissional. Foi o que vi naquela manhã.

Pacienciosamente, o afinador confere e ajusta o som de cada uma das cordas das oitenta e oito notas, sendo que parte delas compõe-se de três ou duas cordas para cada nota ou tecla do instrumento. Os bordões ( sons graves ) são de cordas especiais e únicas. É um trabalho de especialista, exige muita experiência profissional, sensibilidade auditiva e percepção na harmonia sonora. Isso me alertou para outro aspecto da sensibilidade humana.

De nada adiantaria tais habilidades profissionais se não conseguisse desempenhar a brilhante tarefa de manter seu equilíbrio emocional, atenuar a angústia alheia e ajudar a encontrar a harmonia tão necessária diante de sofrimentos humanos. Foi isso que acontecera na madrugada anterior, segundo o relato daquele afinador. Ele mantivera a calma e o bom ânimo diante das angustias de sua querida mãe, enferma, carente de cuidados hospitalares de urgência. Ele exercera sua parte mais nobre. Socorreu com o equipamento mais completo do ser humano: seu coração. Este, sim, afinado pela sua natureza superior. Fiquei admirado com esta constatação tão humana e tão rara.

Até parece que o piano lá de casa sabia que o competente profissional era, sim, um querido afinador de almas. Pronto, o instrumento respondeu imediatamente com as notas afinadas da sinfonia brilhante dos sons harmônicos e claros. Tocado, devolveu melodias inebriantes da vida. Todos nós agradecemos, especialmente na semana da Páscoa.

Em sol maior!

(*) Francisco Habermann é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu. Contato: fhaber@uol.com.br

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