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Campo Grande, Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

07/12/2012 15:35

As insensibilidades sucro-energéticas

Marcos Fava Neves (*)

Este texto tem o objetivo de discutir a grande falta e sensibilidade da sociedade brasileira e notadamente do Governo Federal, com os aspectos ligados ao setor sucro-energético. De maneira didática, resumo nossa falta de visão e a consequente perda de grande oportunidade de desenvolvimento econômico, social e ambiental, em 11 insensibilidades, descritas a seguir.

1 – Insensibilidade econômica. Diferentemente do setor de etanol nos EUA, o etanol no Brasil carece de um plano estratégico feito pelo Governo e pelo setor privado, que diga de maneira simples, que metas devemos atingir em 2020, por exemplo. Um plano que contemple quanto se deseja que a frota flex use de etanol, quanto iremos exportar de açúcar, quanto etanol será adicionado na gasolina, enfim, uma visão de médio e longo prazo que permita previsibilidade ao investidor.

Estas metas poderiam trazer para a produção de cana pelo menos 8 a 10 milhões de hectares de pastagens, notadamente degradadas, gerando grande desenvolvimento econômico e investimentos por todo o Brasil, mas principalmente em Minas Gerais, no Centro Oeste e o Semi-Árido, com irrigação.

O fraco desempenho do PIB Brasileiro neste ano, um dos piores do mundo emergente, mostra que sem esta insensibilidade, talvez o quadro do PIB seria outro. Tivemos um Governo que se preocupou fortemente com a distribuição de renda, o que é louvável, mas deixou de lado a agenda da geração de renda, ou seja, a agenda da competitividade de nossas empresas, para que pudessem produzir mais, exportar mais, e assim, gerar mais PIB. O resultado disto está aí. Um PIB aquém do necessário. Nos dois primeiros anos do Governo Dilma andamos de lado.

2 – Insensibilidade social e de exclusão – fazendo as 100, 120 novas usinas necessárias para o Brasil até 2020, teríamos a geração de 100 a 120 mil postos de trabalho. Com isto promoveríamos a inclusão e o desenvolvimento social. O Governo e parte dos Procuradores da República, do Ministério Público também são insensíveis com os fornecedores de cana, uma vez que ficam fazendo seguidas e mais complexas exigências a um setor que nos últimos dez anos trabalhou de graça para a sociedade brasileira, sem ganhar nada, como os dados de custos e preços atestam.

3 – Insensibilidade ambiental – a falta de etanol para abastecer a crescente frota flex (3 milhões de novos automóveis por ano) e o aumento do consumo de gasolina está fazendo com que o Brasil deixe de atender as metas ambientais fixadas pelo país nas instituições internacionais. Como as emissões do etanol estão em 10 a 15% das emissões totais de gasolina, somente no Estado de São Paulo, de acordo com o Consema, entre 2009 e 2011 houve um aumento de emissões de 3,4 milhões de toneladas de CO2 pela troca do etanol pela gasolina.

Por mais incrível que possa parecer, as ONG’s ambientalistas não abraçam a causa do etanol, criando uma campanha, por exemplo “veta Gasolina”, como a eficiente campanha “veta tudo Dilma” que orquestraram durante os debates do Código Florestal.

Um exemplo desta falta de sensibilidade do Governo na questão ambiental está a recente regulamentação que vai obrigar os postos de combustível a divulgar o benefício econômico do etanol (a equação dos 70%), mas por que não incentivar os postos a divulgarem o benefício ambiental do etanol? Isto não está na regulamentação.

4 – Insensibilidade em relação a trabalho e capacitação – O Brasil tem uma das legislações trabalhistas mais anacrônicas entre os países produtores de cana, e isto aumenta muito os custos de produção no campo e nas Usinas, além de uma indústria de indenização instalada no setor. O trabalhador no Brasil teve grande ganho salarial nos últimos dez anos, mas pouquíssimo ganho de produtividade. Mão de obra hoje é desvantagem competitiva a quem opera no Brasil, reduz a capacidade de geração de renda de nossas empresas. Isto aconteceu em cinco anos.

5 – Insensibilidade com o setor de bens de capital – O Brasil desenvolveu ao longo dos últimos 50 anos uma indústria de bens de capital destinada ao setor sucro-energético admirada mundialmente, geradora de inovações e muitos empregos. Hoje este setor encontra-se em enorme dificuldade pois praticamente não se fazem mais usinas novas devido ao baixo retorno do investimento. Suas vendas caíram e a crise se instalou no setor desde 2008. Isto poderia ter sido evitado se tivéssemos uma visão estratégica da bioenergia.

6 – Insensibilidade com a balança comercial – aqui o fato é grave. A lacuna de etanol competitivo no mercado interno está fazendo com que o Brasil importe uma quantidade brutal de gasolina. A estimativa é que o Brasil gaste em 2020 US$ 58 bilhões em importações de gasolina, recurso hoje inexistente no escasso saldo comercial do Brasil, que deve passar a déficit até 2017.

Fora isto, poderíamos ter mais etanol para atender todo o espaço aberto nos EUA para o etanol de cana, além de ter mais açúcar para exportar. Se o Brasil conquistar 60% do crescimento do consumo mundial de açúcar até 2020, poderia trazer no período US$ 80 bilhões ao país. Este é um grave problema da falta de visão do Governo brasileiro, prejudicando a balança comercial, que não vai bem.

7 – Insensibilidade de logística e abastecimento – ao zerar a CIDE na gasolina, o Governo retirou R$ 7 bilhões que seriam investidos em infra-estrutura logística, na já combalida logística brasileira. Fora isto, ao não planejar adequadamente, estimular a venda de carros novos, e não dispor de suficiente estrutura para importação, o Governo poderá ver faltar gasolina no Brasil, o que prejudicará fortemente sua popularidade.

8 – Insensibilidade com a Petrobras – ao importar gasolina mais caro que o preço vendido aqui dentro do Brasil, o Governo força a área de abastecimento da Petrobrás a prejuízos incalculáveis, afetando o valor da empresa, a capacidade de investimento e sua vida econômica. A Petrobrás vêm se desfazendo de ativos para pagar esta conta. Até quando?

9 – Insensibilidade com a inovação – diversas empresas estão trazendo inovações que permitem um uso muito maior da cana. Estas vão desde o plástico, o diesel, o querosene, a gasolina de cana, e com a escassez de cana, estas oportunidades não poderão ser aproveitadas na velocidade necessária ao Brasil.

10 – Insensibilidade com a comunicação e posicionamento – no exterior só se fala bem, só se elogia a cana e sua capacidade de suprir energia. Aqui no Brasil, na maioria das vezes o que se tem são críticas infundadas, o que demostra, por parte do Governo e da sociedade, uma profunda falta de entendimento dos benefícios que todos recebemos por termos a cana instalada no Brasil.

11 – Insensibilidade tributária – por ser de fontes renováveis e não poluentes, o etanol, a bioeletricidade da cana mereceriam um tratamento tributário absolutamente diferente do observado na gasolina, nas outras formas não renováveis de eletricidade. Não é o que se observa. Idem para a bioeletricidade da cana.

Feitas estas ponderações, é fácil se chegar a uma conclusão que existe por parte do Governo Federal, principalmente, mas também dos Governos Estaduais, e consequentemente da sociedade brasileira, uma miopia impressionante com as possibilidades que a cana poderia trazer em desenvolvimento econômico, social e ambiental. Há anos que alerto via palestras e artigos na grande imprensa de todos estes problemas, mas lamentavelmente a inoperância nesta área é inacreditável.

Com medidas adequadas o Governo brasileiro promoverá o crescimento do PIB via investimentos em geração de energia, algo fundamentalmente estratégico no mundo e não via consumo, que hoje representa a maioria das medidas de estímulo tomadas. Investimentos estes que vão gerar produção, impostos, empregos e interiorização de desenvolvimento.
Resta esperar que alguma destas insensibilidades atropele fortemente o Governo, para que este se movimente, antes tarde do que nunca e se sensibilize para esta enorme perda econômica, social e ambiental que tivemos.

(*)Marcos Fava Neves é professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat. Texto originalmente publicado na Revista Opiniões, edição de dezembro de 2012, já alterado nesta versão.

 

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