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As versões que aprendem umas com as outras

Por Cristiane Lang (*) | 10/08/2026 06:50

O Dia dos Pais costuma chegar cercado de fotografias antigas, almoços de domingo e frases prontas sobre gratidão. Mas, para quem já viveu tempo suficiente para ver os cabelos dos pais embranquecerem — e os próprios também — a data deixa de ser apenas uma homenagem e se transforma em um espelho. Um espelho curioso, porque nele não vemos apenas quem nosso pai foi, mas todas as versões dele que atravessaram a nossa vida. E, junto delas, enxergamos também as versões de nós mesmos.

Quando somos crianças, nossos pais parecem feitos de certezas. Eles sabem o caminho, escolhem a roupa adequada para o frio, decidem a hora de dormir, têm respostas para perguntas que ainda nem sabemos formular direito. Na infância, pai é quase sinônimo de permanência. Acreditamos que ele sempre será forte, sempre saberá o que fazer, sempre terá a última palavra sobre o mundo.

Mas o tempo é um professor delicado e cruel ao mesmo tempo: ele nos mostra que ninguém permanece igual.

O pai que segurava nossa bicicleta para que aprendêssemos a pedalar não é exatamente o mesmo homem que, anos depois, nos espera acordado quando chegamos tarde em casa. E esse também não é o mesmo que um dia nos pede ajuda para configurar um celular, lembrar um medicamento ou compreender as mudanças rápidas de um mundo que já não corre na velocidade da juventude dele.

Ao longo da vida, vamos aprendendo com as metamorfoses dos nossos pais.

Aprendemos com o pai jovem, que talvez estivesse tão assustado quanto nós, embora fizesse esforço para esconder. Muitos dos homens que admiramos na infância estavam apenas tentando acertar. Tinham contas para pagar, medos para silenciar, frustrações que não cabiam sobre a mesa do jantar. Hoje entendemos aquilo que a criança não podia compreender: maturidade não é ausência de dúvida, é continuar caminhando apesar dela.

Depois conhecemos o pai cansado. O homem que chega do trabalho em silêncio, que adormece no sofá, que carrega preocupações que nunca verbalizou completamente. Na adolescência, costumamos interpretar esse silêncio como distância. Só mais tarde percebemos que, muitas vezes, era apenas exaustão. O amor nem sempre se manifesta em discursos; às vezes ele aparece em formas menos poéticas: no combustível do carro, na fruta cortada na geladeira, no conserto improvisado de alguma coisa quebrada, na presença constante mesmo quando faltavam palavras.

Há também o pai que envelhece diante dos nossos olhos — talvez a versão mais difícil de amar, porque ela nos obriga a reconhecer a fragilidade de quem um dia julgamos invencível. É estranho descobrir que aquele homem que nos carregava no colo agora caminha mais devagar. Mais estranho ainda é perceber que começamos a observá-lo com o cuidado que antes vinha dele para nós.

E é nesse ponto que algo profundo acontece: a relação deixa de ser unilateral.

Na infância, aprendemos a viver porque nossos pais nos ensinam. Na vida adulta, aprendemos a amar porque eles continuam mudando diante de nós.

O pai idoso ensina paciência. Ensina que o corpo tem limites, que a memória às vezes falha, que repetir histórias pode ser uma forma de permanecer conectado ao passado. Ensina, sobretudo, que dignidade não está na força física, mas na coragem de continuar sendo quem se é mesmo quando o tempo retira tantas coisas.

O mais bonito — e talvez o mais humano — é perceber que nós também mudamos enquanto observamos essas transformações.

A criança queria proteção.

O adolescente queria independência.

O adulto quer compreensão.

E, em algum momento silencioso da existência, passamos a querer apenas mais um café demorado, mais uma conversa sem pressa, mais uma oportunidade de escutar histórias que antes pareciam repetidas demais.

As versões dos nossos pais dialogam com as nossas próprias versões. O pai rígido da adolescência pode se revelar um homem vulnerável quando nos tornamos pais, mães ou simplesmente adultos responsáveis por outras pessoas. Aquilo que chamávamos de controle talvez fosse medo. Aquilo que chamávamos de implicância talvez fosse cuidado mal traduzido. O tempo não apaga os erros — pais erram, às vezes profundamente —, mas amplia nossa capacidade de enxergar contextos, limitações e humanidades que a juventude desconhecia.

Isso não significa idealizar nossos pais. Significa reconhecê-los como pessoas inteiras, feitas de acertos luminosos e falhas inevitáveis. Crescer é descobrir que nossos pais não eram heróis nem vilões: eram seres humanos tentando amar com as ferramentas que possuíam.

Talvez o verdadeiro sentido do Dia dos Pais esteja justamente aí.

Não na celebração de uma perfeição inexistente, mas na gratidão pelas múltiplas versões que nos acompanharam. Pelo pai que acertou muito. Pelo que errou tentando acertar. Pelo que mudou de opinião. Pelo que precisou aprender conosco. Pelo que teve coragem de pedir desculpas — ou pelo que, mesmo sem consegui-las verbalizar, demonstrou arrependimento em pequenos gestos tardios.

A vida é feita de versões sucessivas. Nenhum de nós permanece intacto. O filho obediente desaparece para dar lugar ao jovem contestador; este desaparece para dar lugar ao adulto sobrecarregado; e um dia talvez surja um idoso que olhará para trás com a mesma mistura de ternura e espanto com que hoje olha para o próprio pai.

Talvez valha a pena trocar a homenagem perfeita pela presença verdadeira.

Olhar para o pai que existe hoje, não apenas para o que existiu ontem.

Escutar sua versão atual, mesmo que ela seja mais lenta, mais frágil ou diferente daquela que guardamos na memória.

Aceitar que o amor mais maduro não é aquele que congela as pessoas em uma fotografia antiga, mas o que permite que elas mudem — e continua escolhendo permanecer.

Porque, no fim das contas, vamos aprendendo que ser filho não é apenas receber ensinamentos de alguém mais velho. É acompanhar, com espanto e delicadeza, a transformação contínua de quem nos ensinou a viver. E perceber que, enquanto nossos pais mudavam diante dos nossos olhos, nós mudávamos junto com eles.

Talvez essa seja a herança mais profunda que um pai pode deixar: não apenas as lições que transmitiu, mas a capacidade de continuar aprendendo através de cada nova versão do amor que construímos um com o outro ao longo do tempo.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.