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Encontros e desencontros desta vida

Por *Por Pedro Zuccolotto | 21/07/2018 12:10

Algumas histórias, apesar de simples, ganham uma beleza incrível pela forma que são contadas. Encontros e Desencontros (Lost in Translation), da Sofia Coppola, é isso. É um filme que é centrado em duas pessoas. A primeira é Charlotte (Scarlett Johansson), uma mulher que se vê perdida em um casamento cujo o marido, John (Giovanni Ribisi) parece não se encaixar mais no casal. O segundo é Bob Harris (Bill Murray), um ator de meia idade que se vê preso a um casamento com sua esposa, Lydia Harris (Nancy Steiner), sustentado apenas pela existência dos seus filhos pequenos. Os dois se encontram no mesmo hotel no Japão: ela acompanhando o marido que está à trabalho e ele, sozinho, atuando em uma campanha de whiskey japonês.

Esse filme é principalmente sobre solidão e abandono. Decepcionados pelas pessoas que mais amam, os dois parecem tentar lutar enquanto o mundo os engole nesse exílio forçado. À beira desse soberbo abismo, ambos tentam apenas matar o tempo, seja com suas obrigações ou simplesmente bebendo, até que os dois se cruzam e a amizade começa, uma espécie de mutualismo onde cada um, com os mesmo problemas, encontra no outro a solução: companhia sincera.

Acima de tudo, mesmo com todos esses detalhes, é um filme simples. Poderia ser resumido facilmente em “dois frustrados se encontram e passam o tempo juntos”, se não fosse pela profundidade sentimental construída ao redor dessa situação, o que foi muito bem executado. Há momentos em que Charlotte apenas olha a janela. Não há trilha nem efeitos. Você sente a solidão te atingir bem no peito, chega até a dar agonia. Você se incomoda em ver Bob trabalhar na campanha publicitária porque sabe que ele é melhor que isso. Eu me sincronizei tanto que chegou a ser um alívio quando Charlotte e Bob começam a se conversar.

A crise em ambos os relacionamentos parece estar fortemente atrelada com a falta de comunicação que ambos têm com seus parceiros. Talvez o nome do filme (perdido na tradução, do inglês) tenha vindo a partir dessa ideia, de forma metafórica. Duas pessoas, apesar de falarem o mesmo idioma, precisam traduzir o que pensam e o que sentem para seu parceiro. Em meio a tantas pessoas diferentes, sentimentos diferentes, pensamentos diferentes, cada um tenta a sua maneira não se perder e se fazer entender ao outro. A sintonia entre Charlotte e John e entre Bob e Lydia se defasou aos poucos até se tornar um resquício incômodo, sombra dos bons momentos do relacionamento.

O caos urbano também é mostrado como um agente que piora a situação de certo modo: milhares de pessoas na cidade de Tokyo, uma cidade com muitos lugares para ir, porém solitária na maior parte do tempo. Mesmo no meio daquele mar de neon e concreto, vagar por aí era a única opção de Charlotte. Os estranhos na multidão parecem apenas cópias uns dos outros, apenas reforçando o sentimento de “não existencialismo”. Talvez a escolha da megalópole japonesa como cenário tenha sido para reforçar a sensação de estar perdido em meio a muita informação.
Lost in Translation consegue colocar uma história relativamente simples em uma narrativa muito boa, com cenas extremamente bonitas e bem feitas e personagens que significam algo para quem está vendo. Apesar de ser um pouco parado, é um excelente filme (mas confesso que, se tivesse assistido alguns meses atrás, talvez acharia muito chato). No final, Charlotte e Bob apenas queriam ser encontrados por aqueles que eles haviam encontrado. No fundo, quem não quer?

*Pedro Zuccolotto é jornalista e músico. Artigo publicado originalmente pelo Blog Obvious.

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