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Campo Grande, Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

23/10/2018 06:57

Fides et Ratio

Por Heitor Freire (*)

Estamos vivendo tempos conturbados em todo o mundo. Especialmente no Brasil de hoje. Confrontados com a realização das eleições presidenciais em que os extremos atingiram níveis inflamados com a polarização política, é chegado o momento de um chamado à razão.

As divergências levaram a polos opostos que convém trazer a uma análise filosófica que nos remeta “ao sagrado, abençoado e dourado caminho do meio” como preconizava o Bhagavad Gitâ, há mais de 5 mil anos.

O papa João Paulo II, em sua Carta Encíclica Fides et Ratio, editada em 1998, no vigésimo ano de seu pontificado, proclamava: “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”. Ou seja, ao autoconhecimento.

O papa João Paulo II teve um dos pontificados mais longos da história, 26 anos, e se caracterizou pelas inúmeras viagens que fez a todas as partes da Terra. Foi considerado o papa peregrino. Quando descia do avião, antes de cumprimentar a quem quer que seja, ajoelhava-se e beijava o chão.

Recebi da minha amiga Vera Tylde um texto do rabino Jonathan Sacks, publicado no site chabad.org, em que ele faz considerações interessantes a respeito da mente humana.

Diz ele: “A mente humana é capaz de fazer duas coisas bem diferentes. Uma é a capacidade de parcelar as coisas em suas partes constituintes e ver como elas se misturam e interagem. Isso é chamado com frequência de pensamento do “cérebro esquerdo”, e o melhor exemplo é a ciência. O outro, geralmente chamado de “pensamento do cérebro direito”, é a capacidade de juntar os eventos para que eles contem uma história, ou juntar as pessoas para que elas formem relacionamentos. O melhor exemplo disso é a religião.

De forma mais simples: a ciência separa as coisas para ver como elas funcionam, A religião coloca as coisas juntas para ver o que significam. E precisamos das duas, da mesma maneira que precisamos dos dois hemisférios do cérebro. A ciência analisa, a religião integra. A ciência nos diz o que é, a religião nos diz o que deveria ser. Ciência descreve; religião inspira, acena, chama”.

Disse o papa João Paulo II: “Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achando-se tanto nos escritos de Confúcio e de Lao-Tsé, como na pregação de Tirtankara e de Buda; nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efetivamente a orientação que se imprime à existência”.

Ou seja, juntando a Carta Encíclica do papa e o texto do rabino, juntamente com o Bhagavad Gitâ, poderemos encontrar um caminho que nos leve a evitar essa polarização cristalizada.

Para uma orientação clara e precisa, devemos unir a ciência com a religião; a razão com a fé, e dessa junção espiritual encontrar enfim o caminho que nos levará ao “sagrado, abençoado e dourado caminho do meio”.

É evidente que neste momento, infelizmente, isso não é possível. Mas se torna uma orientação para o futuro.

Assim seja.

(*) Heitor Rodrigues Freire é corretor de imóveis e advogado.

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