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Geopolítica dos vetores: o Brasil em um mundo de fluxos interdependentes

Por Marcos Buckeridge (*) | 02/06/2026 07:43

A geopolítica contemporânea voltou ao centro do debate público. Guerras regionais, reconfiguração de alianças, disputas comerciais e transições tecnológicas parecem indicar um mundo em crescente fragmentação. A leitura mais comum organiza esse cenário em torno de blocos, disputas territoriais e decisões estratégicas entre Estados. Essa perspectiva é necessária, mas insuficiente. Ela descreve o tabuleiro, mas raramente capta as forças que movem as peças.


Talvez seja útil adotar uma perspectiva diferente: olhar o sistema internacional como um campo de vetores — forças de natureza energética, tecnológica, climática, produtiva e informacional que interagem, se sobrepõem e, sobretudo, se acoplam. Nesse enquadramento, a política não desaparece, mas deixa de ser o ponto de partida e passa a ser a resultante de dinâmicas mais profundas.

Essa forma de pensar dialoga com discussões recentes sobre sistemas complexos, segurança hídrica, energética e alimentar, bem como com reflexões mais amplas sobre a reorganização do capitalismo contemporâneo. O excelente artigo de Paulo Feldmann sobre a geopolítica das commodities e a necessidade de uma política industrial brasileira aponta precisamente para esse problema: recursos naturais, isoladamente, não produzem centralidade estratégica. O que importa é a capacidade de transformar recursos em uma arquitetura produtiva, tecnológica e institucional. O Brasil possui abundância material; a questão é se conseguirá convertê-la em capacidade sistêmica.

Essa mudança de perspectiva desloca o foco da análise. Em vez de perguntar apenas “quem está em conflito com quem”, passamos a perguntar “quais vetores estão se reorganizando — e como?”. A transição energética, por exemplo, não é apenas uma mudança tecnológica. Ela redefine cadeias produtivas, reposiciona regiões inteiras e altera dependências estruturais. A digitalização desloca o poder para infraestruturas imateriais (plataformas, dados, algoritmos e redes) que atravessam fronteiras sem necessariamente respeitá-las. Sobre esse pano de fundo, as mudanças climáticas introduzem uma variável adicional ao alterar os regimes hidrológicos, a produtividade agrícola e a estabilidade territorial.

O resultado é uma convergência crescente entre domínios antes tratados separadamente. Energia, água, alimentos, logística, informação e clima passaram a operar como partes de sistemas interdependentes. Perturbações em um vetor propagam-se rapidamente aos demais vetores. A seca afeta a energia e a agricultura; a energia afeta os fertilizantes e a produção; a logística reorganiza os mercados; os algoritmos reorganizam as cadeias globais. O mundo tornou-se menos compartimentalizado e mais interligado.

É nesse ponto que uma digressão se torna necessária, não como desvio, mas como chave interpretativa. Em ensaios anteriores sobre cidades e sustentabilidade, discuti o conceito de água virtual, formulado por John Anthony Allan, segundo o qual os países não comercializam apenas produtos, mas também a água incorporada nos processos produtivos. Essa ideia ganha uma nova dimensão quando aplicada à bioenergia tropical.

No caso brasileiro, a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar pode ser compreendida como a conversão de precipitação em combustível. A água não atravessa fronteiras em estado líquido, mas está embutida na biomassa que sustenta a matriz energética. Quando esse combustível é consumido em grandes centros urbanos, a mobilidade passa a depender diretamente de regimes pluviométricos agrícolas localizados a centenas de quilômetros de distância.

Essa observação também altera a forma como entendemos a cidade. Em vez de um espaço delimitado por fronteiras administrativas, ela passa a ser compreendida como um sistema metabólico ampliado (um urbsistema) que integra fluxos distribuídos territorialmente. A cidade não consome apenas energia; consome chuva transformada biologicamente, solo reorganizado em cadeias produtivas e tempo ecológico condensado em fluxos energéticos. O urbano reorganiza processos naturais em funções sociais, tornando invisíveis as bases ecológicas que sustentam a vida cotidiana.

Esse debate também dialoga com reflexões recentes sobre sustentabilidade, território e a reorganização das dinâmicas globais, como as discutidas no artigo de Wanderley Messias da Costa, publicado na Revista de Sistemas e Desenvolvimento Sustentável (RSDD). Embora parta de uma perspectiva distinta, o texto chama a atenção para a necessidade de repensar as relações entre desenvolvimento, recursos estratégicos e inserção internacional em um contexto marcado por crescente instabilidade ambiental e geopolítica.

Ao trazer essa perspectiva de volta à geopolítica, o quadro se amplia. Países não competem apenas por territórios ou mercados, mas também por posições estratégicas em redes de fluxos interdependentes. O controle de energia, tecnologia, água e informação torna-se menos uma questão de posse direta e mais uma de inserção em sistemas acoplados.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular. Não apenas por seus recursos naturais, mas também pela forma como esses recursos se distribuem em múltiplos vetores simultaneamente. A abundância de energia renovável, a centralidade hidrológica, a base agrícola, a biodiversidade e a capacidade territorial de integração colocam o país em uma posição que não se encaixa facilmente nas categorias tradicionais de alinhamento geopolítico.

O Brasil não é apenas um ator entre outros. É potencialmente um ponto de convergência entre sistemas.

Essa condição, no entanto, não se traduz automaticamente em vantagem estratégica. Ela exige capacidade organizacional. Em um mundo estruturado por fluxos interdependentes, alinhar-se rigidamente a um único bloco pode significar reduzir a capacidade de articulação sistêmica. Mais importante do que escolher lados, talvez, seja desenvolver a capacidade de conectar vetores distintos — energia, produção, tecnologia, clima, agricultura e infraestrutura — em arquiteturas coerentes.

Isso também implica uma mudança conceitual no próprio significado do poder. Durante séculos, a geopolítica foi organizada sobretudo em torno da capacidade de controlar territórios, rotas comerciais e recursos estratégicos. No século 21, entretanto, o poder parece deslocar-se progressivamente para a capacidade de organizar fluxos. Países que conseguem alinhar seus vetores internos e conectá-los de forma eficiente ao sistema global tendem a exercer uma influência que não se traduz necessariamente em domínio territorial, mas em centralidade sistêmica.

Talvez possamos chamar isso de soberania de acoplamento.

Foi assim, em diferentes momentos históricos, com os egípcios organizando sistemas hidrológicos, com os chineses estruturando redes administrativas continentais, com os romanos integrando infraestrutura e circulação, com o Império Britânico articulando fluxos marítimos globais e, mais recentemente, com os Estados Unidos coordenando sistemas financeiros, tecnológicos e logísticos em escala planetária.

A diferença é que o sistema contemporâneo opera em uma escala de complexidade sem precedentes. Redes digitais, mudanças climáticas, inteligência artificial, transição energética e cadeias globais de produção passaram a interagir simultaneamente. O resultado é um mundo mais interdependente, mas também mais vulnerável a perturbações sistêmicas.

Nesse contexto, a geopolítica deixa de ser apenas uma disputa entre Estados e passa a ser também uma disputa entre formas de organizar a complexidade.

Para o Brasil, isso implica uma pergunta que é ao mesmo tempo estratégica e conceitual: não apenas onde se posicionar, mas também como organizar seus próprios vetores para produzir uma resultante favorável. O desafio talvez não seja escolher entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul, ou entre liberalismo e protecionismo, mas sim construir uma capacidade própria de integração.

Em um mundo em que fluxos invisíveis sustentam estruturas visíveis, talvez seja essa capacidade de articulação, mais do que qualquer recurso isolado, que definirá o lugar do Brasil no século 21.

(*) Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.