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Geração Z: maternidade e natalidade em queda

Por Márcia Mendonça Carneiro (*) | 03/06/2026 11:53

“Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga” escreveu o poeta Drummond, mas as novas gerações estão reavaliando a maternidade e muitas mulheres estão abrindo mão de construir uma família. A fecundidade vem caindo globalmente nos últimos 50 anos e parece estar atrelada ao surgimento de métodos contraceptivos eficazes como a pílula anticoncepcional e a busca das mulheres por mais educação e qualificação, o que favoreceu a expansão da participação feminina no mercado de trabalho. As taxas de fecundidade devem continuar caindo até 2030, segundo algumas previsões. O Brasil acompanha esta tendência: a taxa de fecundidade era de 2,32 filhos por mulher em 2000 e caiu para 1,57 em 2023.

As mudanças culturais e sociais levaram as mulheres ao mercado de trabalho e a procura de mais educação, aliada à menor mortalidade infantil e aos elevados custos da educação dos filhos, são fatores que podem explicar o fenômeno que não poupa nenhum país, mesmo aqueles tradicionalmente com altas taxas de natalidade como a China e a Índia.

Dados do Fundo Populacional das Nações Unidas (UNFPA) revelam que a maioria dos jovens acreditam que seu direito de escolher quando e como ter um filho e formar uma família está em risco devido a vários fatores, incluindo a instabilidade política e econômica, mudanças climáticas e guerras.

A entrada das mulheres no mercado de trabalho não diminui seu desejo intrínseco de ter filhos, mas pode interferir na realização desse desejo. Conciliar a maternidade com os compromissos profissionais é uma tarefa complexa e os níveis de burnout (esgotamento físico e mental) nessas mulheres têm aumentado. O mercado de trabalho nem sempre acolhe aquelas que escolhem serem mães e a maternidade é um dos fatores que acentua a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Na verdade, as mulheres da geração Z têm adiado ou desistido da maternidade em prol da carreira e da saúde mental, pois acompanharam os enormes desafios enfrentados pela geração millenial. Apesar de benefícios como a licença-maternidade, quase metade das mulheres sai do mercado formal de trabalho 12 meses após o nascimento do filho, sendo a maioria demitida pelos empregadores sem justa causa.

Os estudos da Professora Claudia Goldin da Universidade de Harvard revelam que as taxas de natalidade caíram particularmente em países como Japão, Coreia do Sul e Itália, onde as mulheres entraram no mercado de trabalho sem uma mudança correspondente nos papéis masculinos no que tange às tarefas domésticas. Pesquisas recentes revelam que a maternidade é ponto importante de desigualdade salarial e avanços na carreira, o que tem levado muitas mulheres jovens a desistir de engravidar. Além disso, infelizmente, muitas daquelas que regressam ao trabalho após o parto não têm acesso a benefícios como creche ou licença parental para cuidar de uma criança doente, por exemplo. Em nosso país,  a participação no mercado de trabalho de mulheres com filhos é de 41%, enquanto sem filhos é de 65%.

Outro fator relevante é que a construção das famílias mudou, e os avanços nas técnicas de reprodução assistida (TRA) ampliaram o leque de possibilidades para quem quer engravidar e construir uma família. A partir da fertilização in vitro (FIV), outras técnicas trouxeram a chance da maternidade para milhares de mulheres em todo o mundo. Dados publicados pelo Human Fertilization and Embryology Authority (HFEA), órgão britânico responsável pela fiscalização e controle da TRA, mostram que, embora as pessoas em relacionamentos heterossexuais (90%) ainda sejam a maioria de usuários de TRA, o número de casais homoafetivos femininos (6,4 %) e pessoas solteiras (3,2%) vem aumentando. Nos Estados Unidos, o número de mulheres solteiras que engravidam na casa dos 40 anos aumentou 250% nos últimos 30 anos. Aparentemente, as mulheres prefeririam encarar a maternidade com um parceiro, mas sem esse e com a pressão do relógio biológico, optaram pela maternidade solo com o auxílio da fertilização in vitro (FIV) e de um banco de sêmen.

Obviamente que as TRAs não são a solução para a crise da natalidade e da maternidade. Em geral, as pessoas que precisam enfrentar tratamentos de reprodução assistida têm pouco apoio financeiro e emocional no trabalho. Assim, para que as novas gerações não tenham que escolher entre ter uma carreira ou uma família, é preciso rever as políticas públicas de auxílio e apoio para que o direito humano básico de decidir quando e como formar uma família seja devidamente respeitado, pois estudos revelam que a prosperidade, a alegria e o crescimento econômico serão a recompensa para aqueles que se atreverem a juntar-se à luta pelo acesso universal aos cuidados de saúde reprodutiva e construção de famílias.

A capacidade de engravidar e ter um filho, bem como o direito de ter acesso a informações sobre a saúde reprodutiva, é um direito humano fundamental estabelecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. A necessidade de abordar e discutir o planejamento reprodutivo decorre de seus efeitos em nível pessoal, bem como das consequências sociais e econômicas da redução das taxas de fecundidade.

Diferentemente da poesia, infelizmente há limites biológicos para a maternidade e o tempo é limitado. Dessa forma, apesar de todos os avanços tecnológicos, a decisão de ser mãe não pode ser adiada indefinidamente. A maternidade, se desejada, deve ser discutida e planejada de modo a permitir uma gestação sem complicações e o nascimento de crianças saudáveis.

(*) Márcia Mendonça Carneiro, Ginecologista da Clínica Origen BH, professora titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG

 

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