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Campo Grande, Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

01/02/2016 14:44

Incertezas e oportunidades de fixação de preços para o boi gordo

Por Guilherme Melo (*)

Iniciamos 2016 com as perspectivas calibradas para um ambiente econômico persistentemente mais desafiador. Se por um lado enxergamos oportunidades em relação à fixação de preços para o boi gordo, as sensibilidades não podem ser colocadas de lado e o produtor tem que se proteger para assegurar a sustentabilidade do seu negócio.

O mercado futuro indica, neste começo de ano, preços para o boi gordo em níveis ainda ligeiramente superiores aos observados em 2015 (ver figura 1). Muito dessa expectativa de preços tem sido influenciada pelo cenário positivo das exportações brasileiras, que devem se beneficiar da desvalorização cambial e também da reabertura de mercados importantes, como a China e a Arábia Saudita. Não se pode deixar de mencionar também a provável abertura do mercado americano e a retração da produção na Austrália, maior exportador de carne para a China.

Apesar desses ventos favoráveis, existem algumas forças que podem impactar negativamente a demanda por carne brasileira e, em última instância, os preços do boi gordo. Uma delas é a desvalorização do petróleo, que tem afetado de forma significativa o crescimento econômico de importantes compradores da carne brasileira, notadamente Rússia e Venezuela, países que, juntos, foram responsáveis por 20% das exportações de carne bovina em 2015.

Outro ponto a ser observado é a desaceleração da economia chinesa, que embora ainda não tenha impactado o consumo das famílias, não se pode descartar o risco que um “pouso” maior – e a consequente redução na renda das famílias – traria para a demanda por carne bovina (proteína mais cara) do país, fazendo com que as exportações brasileiras para tal destino não aumentem na magnitude esperada e não obtenham o preço estimado. É válido observar que a expectativa da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) é de que o Brasil exporte 200 mil toneladas para o mercado chinês ao longo de 2016.

Os olhos também devem ficar atentos à evolução das exportações da Argentina, que devem crescer na esteira da redução dos impostos à exportação que estava vigente naquele país até a última eleição e da desvalorização do Peso.

No front doméstico – que é destino para cerca de 80% da produção nacional –, o foco da preocupação é o enfraquecimento ainda maior da economia brasileira e a influência disso sobre o consumo de carne bovina. As perspectivas do Itaú Unibanco para 2016 já apontam para uma taxa de desemprego alcançando 11,4% no final do ano e retração de 2,8% no PIB (Produto Interno Bruto). Para a demanda doméstica (obtida ao expurgar do PIB o componente externo), o cenário é de queda de 3,8%, com viés de piora. Isso deverá impactar ainda mais o apetite do brasileiro por carne bovina, principalmente da carne de primeira por ser mais sensível à queda da renda. Além disso, o “efeito substituição” pode se acentuar, com o consumidor trocando o consumo de carne bovina por proteínas mais baratas.

Diante desse cenário permeado por incertezas que podem impactar o preço do boi gordo, como o produtor pode se proteger? Uma das maneiras seria fazer um “seguro” de preço por meio da compra de uma opção de venda de boi gordo na BM&F. Nessa operação, o produtor paga um prêmio pelo seguro (valor da opção) e fica protegido caso os preços caiam. Se as cotações subirem, ele também participa dos ganhos. Internamente, já temos observado uma elevação da demanda por esse tipo de proteção de preços por parte de produtores.

Atualmente, o prêmio (custo) da opção para contratos com vencimento em outubro no valor de R$ 160 por arroba, por exemplo, está sendo negociado ao redor de R$ 4,25 por arroba, o que equivale a 3% do valor esperado da arroba em Cuiabá, considerando o deságio médio em relação à BM&F de R$ 16 por arroba. É interessante notar que em 2015 as quedas do preço para o contrato de outubro foram de 6% entre o pico de sua cotação – em abril – e o vencimento do contrato.

Com os desafios colocados à mesa, cabe ao produtor avaliar e minimizar os riscos a partir de uma gestão equilibrada, consciente e sustentável. Neste sentido, a aquisição do “seguro” é um caminho eficaz (entre outros) para garantir um preço mínimo de vendado boi gordo.

(*) Guilherme Melo é analista sênior de Agronegócios no Itaú BBA

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