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Campo Grande, Sábado, 19 de Outubro de 2019

07/05/2019 13:47

Não existe padrão para o sofrimento

Por Kamila de Souza (*)

Acabo de ler uma notícia sobre uma moça de 27 anos, miss, acadêmica de medicina e aparentemente satisfeita, em suas redes sociais, com a vida que levava. Ela, há um ano, iniciou uma transformação estética, mudou seu padrão alimentar e aparentemente era muito bonita. Ela era considerada um padrão de beleza, life style, jeito de ser...

Porém, há dois dias (hoje é domingo), ela foi encontrada morta, enforcada com um cinto no pescoço, no apartamento do noivo.

Nas redes sociais, pessoas estão comovidas proferindo palavras para confortar os familiares dela, outras compartilham experiências semelhantes e alguns dizem “é falta de Deus”, “safadeza”, “tão bonita, estragou tudo!” ou que “a próxima sou eu!”. A morte de alguém, principalmente quando o sujeito é autor da própria ação, causa reações das mais diversas, desde os tempos mais remotos. Mas, com a crescente dos casos de depressão, ansiedade, suicídio, do abuso de substâncias psicotrópicas, o que podemos pensar sobre tudo isso?

Em 2005, mais ou menos, era comum escutar de estudiosos do campo da saúde e de áreas afins que, em 20 anos, a depressão seria o mal do século (havia uma capa de revista com essa chamada). Parece que nos adiantamos! Abrindo um parêntese, no século XIX, o mal do século ficou conhecido através do movimento romântico, materializado na literatura, nas artes, na arquitetura. Um desencantamento com o viver, um tédio romântico e uma futilização da existência afetou inúmeros jovens da referida época. O sujeito transformava em algo a sua desgraça e vivia, até onde nós sabemos, produzindo a partir dela e com ela.

Longe de comparações com o que foi citado anteriormente, mas, apenas, para seguirmos uma linha reflexiva, parece que o sujeito contemporâneo é paralisado por suas desgraças. E quais são essas desgraças? Lógico que cada um lida com uma, mas o que fazer diante de estereótipos de beleza, de padrões para ser, pensar, agir, consumir, vestir, para se relacionar, para opinar politicamente... O que fazer diante desse “Outro” história, cultura, sociedade, grupo de amigos, trabalho, escola, professor, pais que demanda algo o tempo inteiro em uma escala que está para além do nosso possível?

Em algum momento, o sujeito se vê refém de um discurso, uma situação, uma questão ou refém de si mesmo. E não existe manual, treinamento ou fórmula mágica que dê conta disso, a não ser o próprio indivíduo. Nós somos feitos de história, sentimentos, afetos e de uma rede imensa de conteúdos que nos causam, consciente e inconscientemente, o tempo todo. Cada um é um nesse mundo que tenta, por um motivo tão “não sei o que”, igualar as existências e as vivências. “É possível ser magérrimo recebendo um sacolão com 40 kg de arroz e 8l de óleo, é possível fazer academia trabalhando 18 horas por dia, é possível ser super feliz sendo magra, rica, alta, cursando medicina, com um noivo... É possível! E se você não for, está errado, você fracassou. Volte duas casas!”.

O fracasso é inerente quando esses discursos são alimentados no imaginário. Não é possível alcançar uma coisa que não é sua! A única coisa possível para um sujeito é entender a posição que ocupa e sustentar o seu próprio desejo para ser o responsável por sua vida. O sofrimento é algo inerente ao viver, é singular, mas não precisa ser sentido sozinho. Ele pode ser transformado em palavras dirigidas a um analista, a um amigo, ao padre, ao médico, ao vizinho.

O sofrimento é devastador para alguns e, quando lhes faltam as palavras...

Enfim, não existe um grupo seleto digno de sofrer. Crianças e adolescentes sofrem, apesar de não terem “conta para pagar”. Homens sofrem, apesar de serem homens. Se depressão fosse falta de dinheiro, rico não faria análise. Se ansiedade fosse coisa de gente que não tem Deus, padre Fábio de Melo não teria crises do pânico. Se estresse fosse coisa de gente que trabalha muito e de “menina bonita”, não teria desempregado e “meninas feias” procurando um terapeuta. Não existe padrão e, muito menos, parâmetro para o sofrimento.

Kamila de Souza é psicóloga e psicanalista. 

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