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No Brasil, 44% afirmam que tiveram problemas psicológicos

Por Marcelo Comparin(*) | 15/09/2021 07:43

Onze de março de 2020. As manchetes de todos os veículos noticiosos do mundo traziam o mesmo assunto. Eis que a humanidade se deparava com um anúncio crucial que mudaria, para sempre, o curso da história. Lá estava o presidente da Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar que estávamos em uma pandemia global: de metrópoles, como Nova Iorque, até vilas interioranas em meio da floresta amazônica.

Com esse cenário inimaginável, que nós pensávamos ser coisa de filme de ficção científica, o medo se generalizou. Com isso, pessoas que sofriam de depressão e ansiedade caíram em abismos; e muitos – considerados saudáveis para estas patologias - também passaram a desenvolver tais doenças. A constatação apareceu rapidamente em consultórios e hospitais. E, segundo recente pesquisa Datafolha, quatro em cada 10 brasileiros tiveram sintomas de ansiedade ou depressão durante a pandemia. Ainda, 28% disseram, na mesma pesquisa, que tiveram diagnóstico de depressão ou outra doença relacionada à saúde mental neste momento que estamos vivendo.

Luto, solidão, dificuldades financeiras, perda de emprego, chamadas pelo Zoom, isolamento, crianças entediadas em casa, monotonia, notícias devastadoras diárias. A quarentena não foi para iniciantes. O fato de pensarmos que os hospitais estavam superlotados, que poderíamos estar doentes e levando a doença a outras pessoas, e que havia (ainda há) gente passando necessidade é substancialmente perturbador.

De acordo com pesquisadores, a pandemia fez com que as pessoas desenvolvessem hábitos nada saudáveis: comida e bebida alcóolica em excesso, sono inadequado, falta de socialização, exercícios físicos em stand by. Estes, e muitos outros fatores, agravam a capacidade de seres humanos em lidar com situações mais difíceis e fazem com que os mesmos se sintam mais exaustos e improdutivos. Pronto, a receita perfeita para o desenvolvimento de quadros de depressão e ansiedade está criada.

Não seria exagero afirmar que todo mundo se sentiu triste e deprimido durante a pandemia. Todavia, assim como a ansiedade, é necessário sintetizar o que é considerado depressão. A depressão é um problema médico grave, caracterizado pela perda de interesse em atividades cotidianas, acompanhada por uma tristeza profunda e um vazio existencial, que alteram a produtividade das atividades do dia a dia. Estudos mostram que o cérebro é afetado diretamente pela depressão, com suas configurações e ondas alteradas. Por isso, a pessoa que possui um quadro depressivo deve ser assistida de perto por profissionais, a fim de que se possa obter evolução em tratamentos.

A depressão é causada por diversos fatores e apresenta vários estágios. Segundo o Ministério da Saúde, as causas podem ser genéticas e fisiológicas (bioquímica cerebral), mas a doença também pode aparecer após eventos vitais (traumas e estresses). Nos casos de depressão frutos da pandemia, o estresse foi o campeão dos fatores, pois os tempos realmente se tornaram muito difíceis bruscamente e o impacto foi generalizado.

Infelizmente, a pandemia trouxe uma série de fatores que criaram cenários favoráveis ao desenvolvimento da doença. Sendo o estado pandêmico algo inesperado a todos, a frustração, a angústia, a falta de rotina, o medo, a solidão e o sentimento de impotência diante da situação fizeram com que milhões de pessoas perdessem a esperança no existir. Inclusive, é comum que esses sentimentos evoluam para uma sensação de que não há mais solução, a não ser o suicídio.

Portanto, se pensamentos tristes, pessimistas, baixa autoestima, sentimentos de exaustão, culpa e inutilidade, falta de apetite ou até mesmo crises de choro frequentes tiverem invadido seu cotidiano ou de alguém próximo durante a quarentena e perduram até hoje, procure ajuda, pois pode ser depressão e precisa ser tratada o mais breve possível.

(*) Marcelo Comparin é psicólogo e especialista em Psicoterapia Psicanalítica

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