ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
ABRIL, SEGUNDA  13    CAMPO GRANDE 25º

Artigos

No Dia do Jovem, menos homenagem, mais verdade

Por Gabriel Teles (*) | 13/04/2026 08:15

O Dia do Jovem costuma produzir uma linguagem previsível, povoada por elogios genéricos à energia, à criatividade e à capacidade de renovação de uma geração que, em tese, traria consigo a promessa natural do futuro. O problema dessa retórica está menos no que afirma do que no que apaga, porque, ao converter a juventude em imagem decorativa da esperança, dissolve justamente aquilo que nela existe de mais real, mais tenso e mais decisivo: sua condição de grupo social atravessado por desigualdades profundas e submetido a uma disputa permanente pelo sentido de sua força.

Não existe juventude em estado puro. Existem jovens formados em condições materiais radicalmente distintas, marcados por classe, raça, gênero, território, acesso desigual à educação, ao trabalho, à cultura, à proteção e até mesmo ao direito elementar de circular vivos pelo espaço público sem serem imediatamente tratados como ameaça. A linguagem celebratória, quando ignora esse chão histórico, transforma uma realidade contraditória em peça de ocasião. O jovem da periferia, que aprende desde cedo a conviver com a precariedade, com a suspeita e com o encurtamento brutal das expectativas, não ocupa o mesmo lugar social daquele a quem o futuro é entregue como herança, quase como administração de privilégios já consolidados. Falar em juventude no singular, sem reconhecer essas fraturas, é sempre um modo elegante de não ver.

Ainda assim, seria um erro concluir que a juventude nada tem de específico. Tem, e talvez resida aí sua importância mais sensível. É sobre ela que se descarrega, de maneira concentrada, a maquinaria das promessas sociais e o peso de seus fracassos. Pede-se aos jovens iniciativa, desempenho, flexibilidade, reinvenção constante, entusiasmo competitivo e disposição para investir em si mesmos, num mundo em que o trabalho se torna cada vez mais instável, a vida coletiva se empobrece e o horizonte comum parece encolher diante dos olhos. Exige-se futuro exatamente daqueles a quem o presente oferece bloqueios.

É nesse intervalo, entre o que se cobra e o que se entrega, que a juventude se torna um campo de batalha. Sua energia não possui direção garantida. Pode alimentar lutas por igualdade, dignidade e liberdade, quando encontra linguagem crítica, memória histórica e experiência coletiva. Pode também ser capturada por formas regressivas de pertencimento, por pedagogias da violência, por mercados que transformam rebeldia em mercadoria e por discursos autoritários que oferecem ao desamparo uma falsa promessa de ordem. A juventude não é boa por si mesma. Sua grandeza possível não está numa pureza imaginária, e sim no fato de que nela o futuro ainda não foi inteiramente confiscado.

Talvez por isso o Dia do Jovem só faça sentido quando deixa de ser cerimônia e se converte em pergunta incômoda. Que sociedade é esta que exalta seus jovens em discursos públicos e os entrega, na prática, ao desemprego, ao endividamento, ao sofrimento psíquico, à violência e à erosão de qualquer perspectiva duradoura de vida comum? Que confiança no amanhã pode nascer de uma ordem social que exige intensidade vital e devolve exaustão, que exige sonhos e oferece cálculo, que exige adaptação precisamente onde seria necessário abrir passagem para outra ideia de mundo?

A esperança, neste caso, não está na juventude como atributo moral, como se a idade contivesse por si só uma verdade superior. Ela está na disputa travada em seu interior e em torno dela. Está na possibilidade de que jovens, em vez de apenas administrar ruínas e viver sob o colapso, recusem a naturalização da injustiça e devolvam à vida social a consciência de que o presente não esgota o possível. Num tempo em que tanta coisa envelheceu antes de amadurecer, talvez seja essa a homenagem menos vazia que se pode fazer no Dia do Jovem: reconhecer que disputar a juventude é disputar o próprio destino histórico de uma sociedade.

(*) Gabriel Teles é pós-doutorando e professor no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Coordenador do grupo de estudos do Centro de Estudos sobre o Colapso Social (CECS/UnB).




 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.