No Dia do Jovem, menos homenagem, mais verdade
O Dia do Jovem costuma produzir uma linguagem previsível, povoada por elogios genéricos à energia, à criatividade e à capacidade de renovação de uma geração que, em tese, traria consigo a promessa natural do futuro. O problema dessa retórica está menos no que afirma do que no que apaga, porque, ao converter a juventude em imagem decorativa da esperança, dissolve justamente aquilo que nela existe de mais real, mais tenso e mais decisivo: sua condição de grupo social atravessado por desigualdades profundas e submetido a uma disputa permanente pelo sentido de sua força.
Não existe juventude em estado puro. Existem jovens formados em condições materiais radicalmente distintas, marcados por classe, raça, gênero, território, acesso desigual à educação, ao trabalho, à cultura, à proteção e até mesmo ao direito elementar de circular vivos pelo espaço público sem serem imediatamente tratados como ameaça. A linguagem celebratória, quando ignora esse chão histórico, transforma uma realidade contraditória em peça de ocasião. O jovem da periferia, que aprende desde cedo a conviver com a precariedade, com a suspeita e com o encurtamento brutal das expectativas, não ocupa o mesmo lugar social daquele a quem o futuro é entregue como herança, quase como administração de privilégios já consolidados. Falar em juventude no singular, sem reconhecer essas fraturas, é sempre um modo elegante de não ver.
Ainda assim, seria um erro concluir que a juventude nada tem de específico. Tem, e talvez resida aí sua importância mais sensível. É sobre ela que se descarrega, de maneira concentrada, a maquinaria das promessas sociais e o peso de seus fracassos. Pede-se aos jovens iniciativa, desempenho, flexibilidade, reinvenção constante, entusiasmo competitivo e disposição para investir em si mesmos, num mundo em que o trabalho se torna cada vez mais instável, a vida coletiva se empobrece e o horizonte comum parece encolher diante dos olhos. Exige-se futuro exatamente daqueles a quem o presente oferece bloqueios.
É nesse intervalo, entre o que se cobra e o que se entrega, que a juventude se torna um campo de batalha. Sua energia não possui direção garantida. Pode alimentar lutas por igualdade, dignidade e liberdade, quando encontra linguagem crítica, memória histórica e experiência coletiva. Pode também ser capturada por formas regressivas de pertencimento, por pedagogias da violência, por mercados que transformam rebeldia em mercadoria e por discursos autoritários que oferecem ao desamparo uma falsa promessa de ordem. A juventude não é boa por si mesma. Sua grandeza possível não está numa pureza imaginária, e sim no fato de que nela o futuro ainda não foi inteiramente confiscado.
Talvez por isso o Dia do Jovem só faça sentido quando deixa de ser cerimônia e se converte em pergunta incômoda. Que sociedade é esta que exalta seus jovens em discursos públicos e os entrega, na prática, ao desemprego, ao endividamento, ao sofrimento psíquico, à violência e à erosão de qualquer perspectiva duradoura de vida comum? Que confiança no amanhã pode nascer de uma ordem social que exige intensidade vital e devolve exaustão, que exige sonhos e oferece cálculo, que exige adaptação precisamente onde seria necessário abrir passagem para outra ideia de mundo?
A esperança, neste caso, não está na juventude como atributo moral, como se a idade contivesse por si só uma verdade superior. Ela está na disputa travada em seu interior e em torno dela. Está na possibilidade de que jovens, em vez de apenas administrar ruínas e viver sob o colapso, recusem a naturalização da injustiça e devolvam à vida social a consciência de que o presente não esgota o possível. Num tempo em que tanta coisa envelheceu antes de amadurecer, talvez seja essa a homenagem menos vazia que se pode fazer no Dia do Jovem: reconhecer que disputar a juventude é disputar o próprio destino histórico de uma sociedade.
(*) Gabriel Teles é pós-doutorando e professor no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Coordenador do grupo de estudos do Centro de Estudos sobre o Colapso Social (CECS/UnB).
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