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Campo Grande, Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

07/07/2017 15:50

O Brasil está morto

Por Paulo Renato Coelho Netto (*)

É preciso enterrar o quanto antes este cadáver insepulto. Não há esperança no fim de nada. Roubaram o túnel, inclusive. O Brasil está morto e exala do planalto central um odor ocre, ácido, insuportavelmente fétido aos seus órfãos.

Para eles, nós, não há espólio. Há esporro. Aqui, os loucos tomaram conta do hospício, os presos dos presídios e os cleptocratas psicopatas da direção geral. Ficamos sem pai nem mãe. Para salvar uma refeição que seja ao dia, vamos todos vender na esquina cigarros contrabandeados do Paraguai.

Um país inteiro que podia ter sido e que não foi. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Pneumotórax, quimioterapia, colonoscopia, massagem cardíaca, eletrochoque, eletroencefalograma, exorcismo, tudo é inútil. Até os balões de oxigênio sumiram no mar, inflados e desperdiçados por um padre suicida e insano.

Quer ir para Minas, Minas não há mais. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. O Brasil é apenas uma fotografia na parede. E como dói. A saída é o Galeão e Lisboa o destino. Vamos trocar uma vida foda pela vida de fados. Seremos todos melancólicos, refugiados, apátridas, apáticos e saudosos de uma ficção territorial.

Vamos enterrar esse cadáver constrangedor ao melhor estilo Quincas Berro D’Água. É preciso celebrá-lo, cantar, carregá-lo morro abaixo, levá-lo para a unção vaginal das raparigas. Lá vai o Brasil descendo a ladeira! Convidem o Batman para o Bataclan. O evento é internacional. Oremos a oração do santo Tim Maia: “Este país não pode dar certo.

Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”.

Morto, o Brasil será lembrado como um lugar que elevou a avacalhação a níveis inimagináveis. Um lugar que personificou o escracho, o desrespeito, o cinismo, o jeitinho. De tanto viver do jeitinho, morreu porque não teve mais jeito.

O Brasil faleceu e a dúvida é se é para rir ou chorar. Um bufão velho e inoportuno que teve um ataque cardíaco com a amante jovem no motel, após se entupir de Viagra para dar conta do recado. Um tipo morto no flagra que até a viúva serecusa a prantear. E lá vamos nós, pós-apocalíticos, walking dead, vender a porra do cigarro contrabandeado do Paraguai.

E não foi por falta de avisar que o Brasil morreu. Quase todo mundo cantava a pedra antes do fim do jogo. Vai dar merda, Brasil! Muda, Brasil. Para com isso, Brasil. Desse jeito você vai se ferrar, Brasil. Estuda, Brasil. Chega dessaladainha de terra do samba e do pandeiro, Brasil. Dá nota fiscal, Brasil. Não sonega, Brasil. Não força a barra, Brasil. Não roube, Brasil. Não coma tanto, não fume tanto, não se estrague tanto, faça exercícios físicos três vezes por semana, Brasil. Não fode, Brasil!

Olha para você, Brasil. Está igualzinho aquele playboyzinho zé carioca multimilionário que nunca trabalhou, gastou tudo com farras e hoje, velho, não tem dinheiro nem para o pão.

Mora de favor. Onde você enfiou todo o ouro de Serra Pelada? O que você fez com os diamantes das minas gerais? E o petróleo da Guanabara? Onde você enfiou a Mata Atlântica? O que você fez com o Cerrado e a Amazônia?

Você é tão escroto, Brasil, tão escroto, que gastou o pré-sal inteiro sem ao menos tirar uma gota de petróleo de lá. Você tinha que morrer pobre mesmo, seu vacilão, seu comédia. Sua maior riqueza, no entanto, seu comédia, eram as crianças que você simplesmente abandonou. Como um moleque de rua vira gente, por obra de Deus? Ah, Deus era brasileiro. Até Padim Ciço estaria com vergonha de ser brasileiro, que dirá o Pai Eterno.

Mas a culpa não é só e somente só sua. Houve certa boa fé. Você se entregou para um estuprador maníaco pensando que ele fosse um médico especialista em reprodução humana. Anestesiado, foi estuprado, currado, vilipendiado e sugado pelo vampirão, seus pares ignaros e opositores, todos exatamente iguais.

Viu só o que deu votar no Macaco Tião? Ninguém te disse que voto não é papel higiênico? Viu o que dá colocar a raposa para cuidar do galinheiro? Dá nisso: quem dorme com cobra amanhece picado, seu vacilão, seu comédia.
E quer saber? Já me encheu o saco essa conversa também. Fui. Deu o que tinha que dar.

Você me lembra muito um poema genial de um dos seus filhos, que eram tantos, geniais. Um cara chamado Manoel Bandeira. Um poema que diz tudo sobre o fim da paciência. Um poema que, não por acaso, se chama “Tragédia Brasileira”, que é assim:

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, Conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria. / Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria. / Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. / Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa. / Viveram três anos assim. Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa. / Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos... / Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

(*) Paulo Renato Coelho Netto é jornalista.

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