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O Defunto que você insiste em carregar

Por Gillianno Mazzetto (*) | 15/05/2026 07:35

Caro(a) conviva,

Existe um tipo de pessoa que carrega o passado como quem carrega um defunto nas costas, com devoção de carpideira, com o capricho de quem não quer mesmo enterrar. Você já encontrou essa pessoa. Às vezes, você é essa pessoa.

Shakespeare sabia disso. No Otelo, o Duque de Veneza interrompe o drama da noite e lança, quase de passagem, uma das frases mais incômodas da literatura universal: "Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras." Não é consolo. É diagnóstico. O poeta elizabetano não estava sendo gentil. Estava sendo preciso.

Há um prazer obscuro em lamentar. Ninguém admite, mas existe. Revisitar o fracasso, a traição, o erro, como quem apalpa um dente quebrado com a língua, sabendo que vai doer, fazendo assim mesmo, reabrindo a ferida pelo prazer de dizer-se sofredor. O luto sem prazo não é sinal de profundidade emocional. É, muitas vezes, sinal de conforto com a dor. Porque a dor conhecida é menos aterrorizante do que o futuro desconhecido.

Já fui essa pessoa. Sou filósofo de formação e sei, melhor do que muitos, como a mente consegue construir narrativas elegantes para justificar a imobilidade. A gente chama de processo. De elaboração. De respeito à própria história. E pode ser tudo isso. Mas pode também ser medo disfarçado de profundidade.

Sêneca dizia que cedemos o tempo mais precioso que temos às coisas que já não existem mais. Ele escrevia isso há dois mil anos. O homem não melhorou. Ainda somos generosos com o passado e avarentos com o presente. Noites inteiras entregues a conversas que não existem mais, decisões que não podem ser desfeitas, versões de nós mesmos que já morreram, e depois nos queixamos de não ter tempo para o que ainda pode ser construído. O passado não é inimigo. Esse é o equívoco.

O passado é paisagem. Você já passou por ele. Ele formou o relevo do que você é. Mas paisagem não se habita, se contempla, se aprende, e se deixa para trás enquanto o trem avança. Quem desce do trem para ficar na paisagem perde o destino.

A diferença entre quem aprende com o que viveu e quem é destruído pelo que viveu não está na intensidade da dor. Está no que se faz com ela. Tem gente que sai de um naufrágio e aprende a ler o mar. Tem gente que sai do mesmo naufrágio e nunca mais chega perto da água, e passa o resto da vida explicando por que o mar é perigoso para quem nunca perguntou.

Há pessoas que transformam cada cicatriz em identidade. Colecionam feridas como troféus invertidos, apresentam o catálogo de injustiças com a precisão de quem preparou uma tese. "Olha o que me fizeram." E o mundo olha, por um momento. Mas o mundo cansa. E a pessoa fica sozinha com o catálogo.

O que Shakespeare entendeu, o que o Duque sabia, naquela noite de crise em Veneza, diante de homens em colapso, é que o luto perpétuo não é fidelidade ao passado. É traição ao futuro.

Então a pergunta que realmente importa, a que a maioria evita porque ela exige coragem, não é "o que aconteceu comigo?". Essa resposta você já sabe. A pergunta é outra: "O que eu vou fazer com o que aconteceu?"

Porque o passado já foi. Mas você ainda está aqui.

E essa é uma informação que merece mais atenção do que tudo que ficou para trás.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.