Não é da minha conta
Antes de julgar a vida do outro, talvez fosse prudente perguntar: “Isso realmente é da minha conta?” A resposta, na maioria das vezes, seria um constrangedor silêncio.
Vivemos cercados por pessoas que transformaram a opinião em uma necessidade compulsiva. Elas opinam sobre o casamento alheio, sobre a forma como alguém cria os filhos, sobre a roupa que veste, o trabalho que escolheu, o dinheiro que ganha, o peso que carrega, a tristeza que demonstra, a felicidade que exibe e até sobre o tempo que leva para superar uma dor.
Parece que existe uma crença silenciosa de que toda vida exposta aos nossos olhos automaticamente se torna um território onde temos livre acesso para entrar, reorganizar os móveis e dizer onde cada sentimento deveria estar. Mas nem tudo que vemos nos autoriza a atravessar a porta.
Existe uma enorme diferença entre oferecer ajuda e invadir. Entre acolher e controlar. Entre aconselhar quando solicitado e distribuir opiniões como quem distribui panfletos na rua.
As pessoas costumam chamar de preocupação aquilo que, muitas vezes, é apenas dificuldade em respeitar limites.
Há um tipo curioso de arrogância escondido dentro dos conselhos não pedidos. Ela se disfarça de boa intenção, mas carrega uma mensagem silenciosa: “Eu sei viver a sua vida melhor do que você.”
É uma frase que nunca é dita, mas frequentemente é sentida.
Talvez seja por isso que tantos conselhos machuquem mais do que ajudem. Porque chegam sem convite. E tudo aquilo que invade dificilmente conforta.
Cada pessoa conhece batalhas que jamais conseguiu colocar em palavras. Existem histórias que não cabem em uma conversa de cinco minutos, traumas invisíveis, noites insones, culpas antigas, medos silenciosos e escolhas feitas entre duas opções igualmente dolorosas. Quem observa de fora enxerga apenas o resultado. Quem vive sabe o preço.
É muito fácil aconselhar alguém quando não se precisou carregar o peso que essa pessoa carrega todos os dias.
A verdade é que a maioria das pessoas não quer um manual sobre como viver. Elas querem ser escutadas.Mas escutar exige uma habilidade que anda rara: silenciar o próprio ego.Porque enquanto alguém fala, muita gente não está ouvindo. Está apenas esperando a própria vez de contar uma experiência parecida, emitir um julgamento ou oferecer uma solução pronta.
Escutar é aceitar que talvez o outro não precise de respostas. Precise apenas de companhia.
Existe também uma curiosa obsessão humana por consertar quem nunca pediu para ser consertado.Se alguém termina um relacionamento, aparecem especialistas em amor.Se muda de emprego, surgem economistas.Se decide não ter filhos, surgem filósofos da família. Se resolve tê-los, aparecem especialistas em educação.Se emagrece, dizem que exagerou. Se engorda, perguntam o que aconteceu.Se fica sozinho, deveria encontrar alguém. Se encontra alguém, perguntam quando vai casar
É impressionante como sempre existe alguém disposto a administrar uma vida que não é sua.
Talvez porque administrar a própria seja infinitamente mais difícil.
Dar conselhos para o outro produz uma falsa sensação de competência. É muito mais confortável analisar os erros alheios do que enfrentar as próprias incoerências.
Enquanto apontamos caminhos para os outros, deixamos de olhar para as curvas perigosas que existem dentro de nós.
Há uma sabedoria imensa em aprender a dizer apenas: “Estou aqui, caso precise.”
Essa frase pesa menos. Abraça mais.
Nem todo sofrimento precisa ser interrompido por uma solução. Algumas dores precisam apenas ser atravessadas. Algumas escolhas precisam ser vividas para serem compreendidas. Alguns erros são professores que nenhum conselho conseguiria substituir.
A experiência é uma linguagem que ninguém aprende ouvindo.
Aprende vivendo.
Isso não significa que conselhos sejam inúteis. Eles podem transformar vidas quando nascem do respeito e encontram uma porta aberta. O problema não é aconselhar. O problema é presumir que temos esse direito o tempo todo.
Existe uma pergunta simples que poderia evitar inúmeras invasões emocionais:
“Você gostaria de ouvir minha opinião?”
Parece pouco.
Mas essa pergunta devolve ao outro algo precioso: o direito de escolher.
E o respeito sempre começa onde termina a invasão.
Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade seja entender que nem tudo precisa passar pelo nosso julgamento. Nem toda conversa exige um parecer. Nem toda decisão precisa da nossa aprovação. Nem toda história nos pertence.
Algumas pessoas confundem proximidade com posse. Acham que amar alguém lhes concede licença para dirigir sua existência. Mas amor não é controle. Amor é confiança.
É acreditar que o outro também possui inteligência, consciência e capacidade para escrever a própria história, ainda que escolha caminhos diferentes dos nossos.
Existe uma paz imensa em cuidar apenas do que realmente nos pertence.Nossa consciência.Nossas escolhas.Nossas palavras.Nossa forma de tratar as pessoas.
Porque a vida já é suficientemente complexa para quem a vive. Ela não precisa do peso adicional das expectativas, críticas e opiniões de quem observa apenas alguns capítulos de uma história inteira.
Nem tudo que desperta nossa curiosidade merece nossa intervenção.Nem toda opinião merece ser pronunciada.Nem todo conselho precisa ser dado. Há assuntos que pertencem apenas ao coração de quem os vive.
E talvez uma das mais elegantes formas de respeito seja reconhecer, com humildade, que existem coisas que simplesmente… não são da nossa conta.
(*) Cristiane Lang é psicóloga.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

