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Campo Grande, Quinta-feira, 23 de Março de 2017

07/01/2012 09:02

Os Sagrados Campos de Caça

Luís Sérgio Lico*

Será verdade, será que não? Existe alguma coisa que se possa falar? Há poucos dias, lá para as bandas do Maranhão, ouvi ranger entre dentes o disco riscado da mais estúpida banalização.

O horror cíclico do enredo de plebe rude, agora caboclinha na dinâmica de ló: – Ai seu eu te pego.. Assim você me mata… Delícia, delícia!

No final das últimas tabas, um curumim dança no fogo ardente de todas as ignorâncias. Sua face pequena percorre a gritos o quintal derrubado pelo banal horror da falta de mata e a simpática conivência federal. Eu sou um coração partido na terra árida de todos os escândalos. Eu estou passando mal, em vista das carcaças, mas não posso dar uma fugidinha para esquecer. Estou só e a memória permanece.

Eu não mais consigo enxergar meu rosto, pois a fumaça sobe e a carne está queimada. Mais um inútil sacrifício Maia no planalto de todas as perplexidades. Não era realmente um Yorkshire, estes modelitos frágeis de convivência aos neuróticos urbanos. Contudo seu porte mirim – se é que é verdade que foi acesa viva sua pira – era elevado na dignidade de suas carências, mesmo porque foi representante da moribunda decência, escondida nos últimos refúgios de uma economia em desenvolvimento.

Que ingenuidade esta a nossa, observando silentes onde se plantaram ventos bravios e hoje, vemos que se colhem apenas abates frequentes. Eis que alguém virá, para acalmar os ânimos. Sempre surge um idiota na bruma das oficialidades. Irá dizer, afinal, que era tão só uma criança pega entre serras e machados. Perdeu-se dos pais na mata e foi encontrada pela horda da correição humana. Apenas mais um bando embriagado pela falta de evidências (não podemos generalizar, contemporizarão os doutos), afinal estamos todos andando no arame de todas as conveniências.

Fala-se que não se pode apontar o negro, mas na etnia Awa-Guajá, existe uma lenda que agoniza quando os carrascos riem-se da sua própria crueza. Um pequeno guerreiro leva no peito a inocência, que será arrancada para adubar a devastação na verde terra. Tudo está demarcado, menos o apetite dos latifúndios e o paladar dos açambarcadores, protegidos pelo silêncio das leis. Discursos redigidos e petições anotadas, falam de toda a nossa letargia e inanidade, para uma plateia estupidificada. Dá um compartilhar aí!

Mas, tristezas não pagam dividas. E estamos sempre fazendo progressos, mesmo que tiriricas. Dizem tudo, os que falam sim. Olha que fica soando quase como um bem. Em inglês musicado fica progressivamente mais bonito: - There’s no heart in Harold Land.

Uma ou outra dúvida, ainda permanece: – Mas, ali em cima, onde corre o sangue e a beberagem do poder alucina os trastes, não é terra de Sarneys? Não chapinham nos pântanos, as maracutaias? Onde é que fica a porta, onde está esculpida em madeira de lei a salamandra da ética? Quantos cupins são necessários para roer um caráter? Mistério ocultado pelo folclore do realismo fantástico do inferno verde!

Não, não verás país nenhum, gritamos roucos no deserto de todas as almas. Da mesma maneira, nada estampará a desonra nestas capas de revistas, cujo artifício é passar incólume pelos infográficos. E, provavelmente parcos artigos não superarão os erros de uma enfermeira ou indicarão possibilidades. Desculpe, Olga. Mas, já não há mais discretas esperanças. Apenas o truque sujo da trapaça!

Em todos os rincões do Brasil, tem-se uma ausência de Pátria. E a indignação, mesmo virtual é pálida, numa sociedade onde todos os gatos são pardos e aquilo que é uma vergonha, não passa de bordão televisivo. Mataram uma criança no Norte, para ir ao Rio morar. Adeus, meu pai e minha mãe, morreu outra infância em Goiás! Ai, ai. Ai, ai! Adeus, Belém dos que sofrem sem parar!

Não entendeu? Eu também não posso dizer que o mel é doce. Apenas que as abelhas tem ferrão e um ardido veneno, que escorre entre as árvores caídas para gerar solos mais pobres.

Contudo, se compreendo “como”, mas não compreendo “porque”, eu quase posso afirmar – talvez, delirante – que depende de mim e de você!

(*) Luís Sérgio Lico é palestrante, consultor e educador corporativo.

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