A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

15/04/2014 08:31

Prisioneiros políticos: como utilizam a Teoria dos Jogos

Por Marcos Morita (*)

O doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal durante a operação Lava Jato, teve suas conversas gravadas de forma clandestina em Curitiba segundo seu advogado, Antônio Figueiredo. Youssef está preso desde o dia 17 de março, suspeito de ser uma das chaves de um esquema que movimentou ilegalmente cerca de R$ 10 bilhões. Atrás das grades está também o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto da Costa, indicado pelo Partido Progressista e mentor da operação que envolvia de um lado empresas interessadas em fornecer produtos e serviços para a estatal e de outro, líderes políticos do partido.

A história de ambos se encontra na viabilização dos pagamentos, os quais eram entregues em dinheiro vivo ou depositados em paraísos fiscais por meio de empresas de fachada. O balaio de gato envolve ainda André Vargas, deputado licenciado do PT, os líderes do PP, Nelson Meurer e João Pizzolatti e até pasmem, Fernando Collor de Mello. Certamente outras figurinhas aparecerão quando o doleiro e o ex-diretor começarem a dar com a língua nos dentes.

Não obstante, notícias como esta não serem uma novidade para um país tão acostumado a sacanagens, falcatruas, tramóias e artimanhas, a situação em si é bastante peculiar, trazendo a tona o dilema do prisioneiro, formulado pelos matemáticos americanos: Merrill Flood e Melvin Dresher e parte da Teoria dos Jogos, ramo da matemática que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações para melhorar seu retorno. Um dos expoentes deste campo foi o economista John Nash, ganhador do Prêmio Nobel em 1968, cuja história foi narrada no filme uma Mente Brilhante, de 2001.

De maneira sucinta, é assim que se apresenta o problema, bastante aderente e aplicável a situação. Vejamos.

Dois suspeitos são presos pela polícia, a qual sem provas suficientes para os condenar, separa-os e os coloca em salas distintas, oferecendo a ambos o mesmo acordo:

a. Se um dos prisioneiros trair e o outro permanecer em silêncio, o traidor sairá livre enquanto o cúmplice cumprirá 10 anos de sentença;
b. Se os suspeitos ficarem em silêncio, a polícia só poderá condená-los a 6 meses de cadeia;
c. Se ambos traírem o comparsa, cada um levará 5 anos de cadeia.

Como encontram-se em salas separadas e sem comunicação, cada prisioneiro tomará sua decisão sem saber o que se passa na cabeça do comparsa. Para complicar um pouco mais a situação, serão julgados simultaneamente. As questões que o dilema propõe são: o que irá acontecer? Como cada prisioneiro irá reagir? Creio que alguns já concluíram qual a melhor opção, porém, vejamos como cada prisioneiro pensaria. Coloque-se em seu lugar e duas hipóteses provavelmente seriam formuladas.

a. Imagino que o outro suspeito ficará em silêncio. Tenho então duas opções. Ficar quieto e cumprir 6 meses de cadeia ou traí-lo e ser solto.
b. Imagino agora que serei traído. Posso traí-lo também e ficar cinco anos recluso ou manter-me calado e amargar 10 anos de detenção.

Veja que em ambos os casos, trair é a melhor opção e provavelmente 5 anos seria o tempo em que cada um dos suspeitos ficaria atrás das grades. Trazendo novamente a Teoria dos Jogos, trair é o que se denomina como estratégia dominante ou Equilíbrio de Nash, ou seja, a que apresenta melhor resultado, independentemente da decisão do outro jogador. Para quem curtiu o filme, lembre-se da cena na qual John Nash, interpretado por Russell Crowe, está em um bar com seus amigos quando um grupo de garotas adentra no recinto.

O interessante do problema é que a opção trair não é a mais interessante para o conjunto. Caso decidissem ficar em silêncio, cada um dos suspeitos cumpriria apenas 6 meses de prisão. Podemos dizer então que o Dilema do Prisioneiro leva a um equilíbrio ineficiente, conduzindo os participantes a um resultado inferior. Mas o que aconteceria caso os suspeitos pudessem se comunicar? Será que o resultado seria diferente?

Voltemos ao caso do inicio do artigo. Será que a escuta colocada na cela serviria para que colaborassem, levando a uma pena mais reduzida para ambos? Mesmo que chegassem a um acordo, o que garantiria que ex-diretor e doleiro manteriam suas palavras? Não se sentiriam tentados a mudar de opinião na última hora, ficando livres e deixando seu comparsa mofando por 10 anos na cadeia? O foco passou da falta de comunicação para a falta de confiança.

Você confiaria em alguém que tem em sua agenda a seguinte frase de Millôr Fernandes: “acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”. Desta maneira, podemos intuir que a escuta estava muito mais para os outros suspeitos mencionados, cujo objetivo supremo está em trair e levar vantagens individuais, mesmo que a principio se utilizassem da colaboração para extorquir os cofres públicos. Creio que o ditado mais aplicável neste caso seria: a ocasião faz o ladrão. Simples, raso e chulo, porém bastante adequado ao perfil dos condenados.

(*) Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

Nova lei que autoriza desconto em pagamento em dinheiro traz mais segurança
Foi sancionada no último dia 26 de junho a lei que possibilita descontos para os consumidores caso o pagamento seja feito em dinheiro vivo, e não em ...
Sucesso do Cliente: hein?
Head de Sucesso do Cliente. Sim, trata-se de uma nova função. Talvez por ser um modelo recém-chegado ao Brasil e ainda pouco difundido em outros segm...
5 características dos grandes líderes que beneficiam suas equipes
Ter habilidade de liderança empresarial é um fator muito importante para que os chefes de equipe consigam guiar seus profissionais, para que eles se ...
Da imensidão dos universos
Quando começamos a pensar sobre a imensidão dos universos nos deparamos com a sabedoria de Deus, que é inescrutável, imensa, soberana, infinita. Que ...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions