A morte antes da vida
Poucas palavras despertam tanto desconforto quanto a morte. Talvez porque ela represente a única experiência inevitável da existência humana e, ao mesmo tempo, a única que jamais poderemos relatar. Sabemos que todos os seres vivos morrem, mas essa certeza raramente se transforma em compreensão. Vivemos como se a morte fosse uma interrupção inesperada da vida, um acontecimento que chega ao final da trajetória para destruir o que existia. Essa maneira de pensar parece tão natural que nunca avaliamos se está ou não correta. Talvez não!
Para compreender a morte, talvez seja necessário começar muito antes da vida. À primeira vista, essa afirmação parece paradoxal, pois suscita a pergunta: como poderia haver morte antes que existissem organismos mortais? A resposta está em uma distinção contraintuitiva. Quando falamos em morte, geralmente pensamos no desaparecimento de um indivíduo. Entretanto, aquilo que realmente desaparece não é a matéria que o constitui, mas a organização que a mantinha reunida. Essa diferença pode parecer apenas uma sutileza conceitual, mas encerra o potencial de mudar a nossa maneira de olhar para a natureza.
Hoje sabemos que muito antes do surgimento da Terra, o Universo já passava por sucessivas transformações. Estrelas nascem a partir de nuvens de gás, produzem novos elementos químicos em seus interiores e, depois de milhões ou bilhões de anos, encerram sua existência. Algumas explodem violentamente, lançando ao espaço os elementos que haviam produzido. Outras terminam de maneiras diferentes, mas todas participam do mesmo processo de transformação da matéria. Esses mecanismos são aceitos hoje na ciência e podemos inclusive assistir à morte de estrelas que ocorreu há milhões de anos.
O carbono que constitui nossos músculos, ossos, cérebro e todas as demais formas de vida não nasceu na Terra. Foi produzido no interior de estrelas que desapareceram muito antes do surgimento do Sistema Solar.
Quando uma estrela deixa de existir, seus átomos não desaparecem. Eles apenas deixam de estar organizados naquela estrutura específica que chamávamos de estrutura em forma de estrela. A matéria continua sua trajetória pelo Universo e pode, muito tempo depois, agregar novos astros, novos planetas e, finalmente, aqui na Terra, organismos vivos. A mensagem aqui é que a forma termina e a matéria permanece.
Esse talvez seja o primeiro passo para compreender a morte de maneira diferente. A natureza não trabalha com desaparecimentos absolutos. Ela trabalha com reorganizações.
Na série anterior, abordei o carbono como exemplo de um átomo que circula pelo nosso planeta. A partir dessa ideia, os seres vivos podem ser vistos como organizações temporárias de matéria muito mais antiga do que nós mesmos. Os átomos que hoje fazem parte do nosso corpo já fizeram parte de outras moléculas, de outros organismos e de outros ambientes. Mais do que isso, devido ao metabolismo, os átomos, de certa forma, fluem pelos corpos dos seres e, continuamente, pela biosfera. É justamente essa organização que caracteriza a vida.
Frequentemente imaginamos um organismo como uma entidade relativamente estável. Reconhecemos uma árvore ao longo de décadas e séculos. Reconhecemos uma pessoa ao longo de toda a vida.
Isso nos dá a impressão de que os corpos desses seres permanecem essencialmente os mesmos. No entanto, essa impressão é enganosa. As moléculas que constituem nosso organismo são continuamente substituídas. Proteínas são sintetizadas e degradadas. Membranas celulares são reconstruídas. Moléculas de RNA têm vidas extremamente curtas. Componentes celulares são desmontados e refeitos incessantemente. Isso quer dizer que a permanência do organismo não depende da permanência de seus componentes, mas da capacidade de reconstruí-los continuamente.
Esse é um dos aspectos mais fascinantes da biologia. A estabilidade não nasce da imobilidade. A vida, na realidade, surge de um fluxo contínuo. O que quer dizer que uma definição possível da morte de um indivíduo seja a cessação deste fluxo.
Note que, paradoxalmente, conservar um organismo exige eliminar continuamente partes dele. As moléculas que constituem os seres vivos são estáveis por períodos distintos – geralmente mais curtos do que a vida do organismo – de modo que, para que o fluxo da vida continue, precisam ser degradadas, permitindo que outras assumam suas funções. Componentes envelhecidos precisam ser substituídos. Células defeituosas precisam ser removidas antes que comprometam o funcionamento do conjunto. Aquilo que, à primeira vista, poderia parecer destruição, revela-se um mecanismo indispensável à manutenção da vida.
É aqui que a morte deixa de aparecer apenas como um acontecimento terminal. Ela passa a fazer parte do próprio funcionamento dos organismos.
Durante muito tempo, imaginou-se que as células morressem apenas quando sofressem dano irreversível. Hoje sabemos que isso representa apenas parte da história. Muitas células desaparecem porque o próprio organismo ativa mecanismos cuidadosamente regulados que conduzem à sua eliminação. Em seres vivos complexos (animais e plantas), isso acontece já durante o desenvolvimento embrionário, quando tecidos são “esculpidos” pela combinação entre proliferação e morte celular, e continua ocorrendo ao longo de toda a vida. O organismo preserva sua integridade justamente porque algumas de suas células deixam de existir.
Essa constatação produz uma inversão surpreendente da nossa intuição. Tendemos a imaginar que viver significa resistir permanentemente à morte. A biologia mostra que, ao contrário, para continuar vivo, um organismo precisa incorporar continuamente processos de desintegração. A vida não elimina a morte, mas depende dela para existir.
Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos as plantas. Diferentemente dos animais, elas convivem naturalmente com tecidos mortos que continuam a desempenhar funções importantes. A madeira que sustenta uma árvore é formada, em grande parte, por células que já perderam sua atividade metabólica. As folhas envelhecem, seus nutrientes são recuperados pela planta e, em seguida, caem. Ramos secam, raízes deixam de funcionar e novas estruturas são produzidas continuamente. Uma árvore pode viver por séculos justamente porque aprendeu a conviver com partes mortas de si mesma.
A morte, nesse contexto, deixa de representar apenas perda. Ela passa a fazer parte de uma estratégia de adaptação.
Essa perspectiva nos obriga a ampliar a escala do problema. Se a morte participa do funcionamento de uma célula e de um organismo, talvez também desempenhe um papel em níveis superiores de organização. As populações renovam-se pela sucessão de gerações. Os ecossistemas dependem da decomposição contínua da matéria orgânica. As florestas mantêm sua fertilidade porque os organismos mortos devolvem ao solo os átomos que sustentarão novas formas de vida. O carbono fixado pela fotossíntese não permanece para sempre em uma árvore. Mais cedo ou mais tarde, voltará à atmosfera, ao solo ou a outros organismos, dando continuidade a um ciclo que nunca se interrompe.
Essa continuidade dos ciclos materiais não diminui o significado da morte individual. Quando perdemos alguém, não sofremos porque seus átomos continuarão existindo. Sofremos porque desaparece uma organização única. Desaparece uma história, uma consciência, um conjunto singular de relações construídas ao longo da vida. A ciência pode descrever o destino da matéria, mas não elimina a experiência humana da perda.
Vista de perto, a morte representa uma ruptura profunda na vida das pessoas. Vista de longe, ela faz parte de um processo muito mais amplo de transformação permanente da matéria e da vida. As duas descrições são verdadeiras e nenhuma invalida a outra.
Ao longo desta nova série, pretendo justamente percorrer essas diferentes escalas. Começaremos pelas estrelas, de onde se originaram os elementos químicos que hoje compõem todos os seres vivos.
Em seguida, entraremos nas células, nos organismos, nas plantas, nas populações e, finalmente, chegaremos às sociedades humanas, com as mortes de nações, cidades, instituições e até de sistemas políticos. Em cada nível, a morte, que nesta série deve ser sempre pensada entre aspas e em sentido lato, assume um significado diferente e levanta novas perguntas. O objetivo não será reduzir a experiência humana a processos biológicos, mas compreender como a própria vida e os sistemas abstratos criados pelos seres humanos incorporaram a morte à sua organização.
Talvez, ao final desse percurso, sejamos estimulados a refletir sobre uma questão intrigante: como a evolução construiu sistemas capazes de transformar aquilo que parece representar o fim em uma das condições necessárias para que a própria vida continue existindo? Qual a relação entre a morte e as transições?
(*) Marcos Buckeridge é professor do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo).
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