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Campo Grande, Domingo, 22 de Outubro de 2017

04/11/2012 08:11

Propósito do esclarecimento

(*) Bruno Peron

Qual é o propósito do esclarecimento? Esta indagação surgiu num dia de ócio físico e ansiedade mental. Quase sempre se esclarece por necessidade e não por capricho da inteligência. A fome psíquica é pequena diante da oferta de um prato tão cheio que seu conteúdo transborda. Não nos faltam recursos para o esclarecimento. Falta motivação desinteressada.

Os usos do esclarecimento importam mais que seu propósito porque a primeira situação implica esclarecer-se para algum fim enquanto a segunda reivindica uma auto-avaliação inquiridora à qual nem sempre se ensaia uma resposta. Pensar nos objetivos do esclarecimento demanda um exercício ativo de massagem da inteligência sem o qual ela se paralisa mas não se perde.

Neurologistas, psicólogos, psiquiatras e outros estudiosos (direta ou indiretamente) da massa cinzenta concordam que o homem faz uso mínimo dos recursos das células que se combinam no interior do crânio. Mal se conhecem nossos cinco sentidos. O ilustre espiritualista Chico Xavier não se cansava de dizer que as "potências" humanas são ainda muito pouco desenvolvidas por nossos espíritos primitivos encarnados em corpos brutos num planeta de provas e expiações.

Aguarda-se a era em que a humanidade dará um passo substantivo na direção do esclarecimento de toda a espécie. Até lá, perderão a vez os que se enriquecem em detrimento da coletividade, os adeptos da inobservância das leis, os que resguardam o conhecimento com exclusividade e os que se deixam embrutecer pelo torpor. Os que não acompanharem este grande passo serão exilados e postergarão a iminente luz regenerativa que norteará o progresso humano.

O mal aproveitamento do processo de esclarecimento recebeu críticas em referência a certos contextos políticos e momentos históricos. Os alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, no livro Dialética do esclarecimento (1944), criticam a razão instrumental inerente à ideologia do Iluminismo e manifestam uma visão pessimista das chances da humanidade de obter a emancipação. O esclarecimento é, para eles, uma proposta de contraposição às várias formas de dominação. Enquanto se aboliram os grilhões que cerceavam a liberdade dos escravos, somos convidados hoje a discutir como abolir as correntes que limitam o pensamento moderno.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o inimigo principal do desejo da humanidade de emancipação era o Estado totalitário representado pelo Fascismo, Nazismo e Stalinismo segundo Adorno e Horkheimer. O modelo autoritário de Estado controlava o modo de produção capitalista e as mentes de tal forma que a autoridade estatal transmitia-se à cultura de massas e às indústrias culturais. Os meios de comunicação eram portanto entendidos negativamente por Adorno e Horkheimer como instrumentos de reprodução de uma cultura anti-emancipacionista. Há valores contraditórios do esclarecimento tais como auto-destruição, exploração do trabalho e racismo que devem ser depostos assim como os regimes políticos autoritários.

A noção de indústrias culturais surgiu desde a publicação de Dialética do esclarecimento, embora Adorno e Horkheimer tenham proposto que a humanidade deve emancipar-se da tendência de que tudo vire mercadoria. Eles temiam que o pensamento se transformasse tão amplamente em mercadoria que a emancipação seria um ideal mais difícil de alcançar. Em sociedades extremamente controladas, o primeiro a conquistar liberdade deve ser o indivíduo e seu entendimento das limitações internas e externas. Adorno e Horkheimer compartilham um tipo de pessimismo holístico com respeito às direções que a racionalidade moderna tem dado à espécie humana. O que se concebe como uma realização sublime remete simultaneamente a elementos indesejáveis de barbárie, atraso e desgraça que esta racionalidade tenta purgar.

O vaticínio é de que hostilidades, intolerâncias e guerras serão páginas amareladas nos livros didáticos e lapsos de memória carcomidos pelo tempo. O esclarecimento galga etapas históricas e conquista nichos evolutivos. Passa do eu insaciável ao nós solidário. A ignorância cede espaço ao conhecimento; o pessimismo se dissolve no otimismo. O esclarecimento logo se faz pelo prazer de transformar dores em realizações, contratempos em edificações.

Falta desenvolver a inteligência reflexiva e ter o senso de sair de si para se colocar no lugar da espécie e cuidar melhor do planeta. Esclarecer, assim, significa ter consciência existencial, ambiental e social; é acordar disposto a viver outro dia de aventuras gratificantes e dormir com algum ganho das faculdades mentais. É pressentir a vitória da luz eterna sobre a treva provisória. É ter a motivação de esclarecer-se para devolver ao universo a luz que emprestamos.

(*) Bruno Peron é mestre em Estudos Latino-americanos por Filos/ UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México)

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