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Psicologia indígena e impacto social

Por Danilo Silva Guimarães (*) | 01/06/2026 08:06

Quando ingressei como estudante na Universidade de São Paulo, logo me envolvi com laboratórios e grupos de pesquisa de algumas áreas da psicologia experimental. O modelo de pesquisa que me foi inicialmente apresentado estava baseado em interações de um único turno. Lembro de uma situação em que a pesquisadora me colocou diante de um computador com um algoritmo de frequência de resposta e reforçamento. Ao final do experimento fui perguntado sobre o que eu pensava a respeito do que estaria controlando minhas respostas. Respondi e fui embora. Tempos depois, em uma aula, tivemos uma breve exposição dos resultados do experimento que havia sido conduzido de forma individualizada com cada um dos colegas da turma. Neste tipo de pesquisa, temos uma pesquisadora que pergunta e um ou vários participantes que respondem um único período cada, e os dados são analisados pela pesquisadora que quantificou as respostas comportamentais, incluindo o comportamento verbal do participante.


Outro modelo de pesquisa ao qual tive acesso estava baseado na relevância de se considerar múltiplos turnos de interação entre pesquisadora e participantes. Na minha iniciação científica, por exemplo, acompanhei um grupo de pessoas que se reuniam periodicamente para jogar RPG. Ao início de cada sessão conduzi uma entrevista com cada um dos participantes que me ofereceram respostas distintas em cada momento em que foram perguntados a respeito de suas expectativas sobre a atividade em curso. Tratava-se de uma pesquisa com foco na micro-história de relações sociais de um pequeno grupo de pessoas. Nesse tipo de pesquisa, temos um pesquisador que faz perguntas semelhantes mais de uma vez para cada participante. Suas respostas recebidas com regularidade estabeleceram uma série que nos permitiu analisar qualitativamente um processo de mudanças de sentidos e significados da experiência, reconhecendo tensões nas relações interpessoais que ajudavam a compreender transformações na micro-história de interações daquelas pessoas.

Outro modo de fazer pesquisa que aprendi na formação em psicologia apontava para a necessidade de participar de situações em contextos socioambientais focalizados para poder, então, registrar e construir um conhecimento analisando os resultados observacionais selecionados. A observação aqui poderia ser naturalística, na qual a interferência do pesquisador pretendia ser a mínima possível. Ou a observação poderia ser participante, na qual é demandado ao pesquisador interagir ativamente com as pessoas. Consequentemente, o pesquisador aprende a experimentar em sua corporeidade afetiva os impactos da interação e a nomear tais impactos. Aqui o pesquisador faz registros em série na forma de diários de campo das vivências com as pessoas que, sem sair de seu cotidiano, são convertidas em participantes de uma pesquisa a partir do olhar do pesquisador. A análise dos resultados permite reconhecer e refletir sobre as perspectivas de cada um que se relaciona com os outros sempre posicionado em um campo de relações socioambientais em que o pesquisador passa a ser incluído.

Quando passei a dialogar com as comunidades indígenas, contudo, foi solicitado que eu fizesse um deslocamento da posição de pesquisador. Naquele momento, as pessoas indígenas com as quais me encontrei após assumir a docência entendiam que algumas das pesquisas acadêmicas prévias tinham contribuído pouco com a vida comunitária. Era necessário estabelecer parcerias mais recíprocas, e que a comunidade fosse reconhecida como constituída de sujeitos construtores de conhecimento, em vez de ser abordada como objeto de estudo. Foi relevante me colocar como pessoa que partilhava uma ancestralidade e um horizonte fusionado com as necessidades e os desejos das pessoas e comunidades indígenas.

Atento a esse entendimento, propus projetos de cultura e extensão universitária, em vez de projetos de pesquisa. Comecei a vivenciar junto com as pessoas indígenas uma série de situações a partir das quais, junto com elas, passamos a refletir e propor projetos colaborativos. Nesse tipo de atuação acadêmica, a pesquisa pôde se desdobrar tardiamente como pesquisa histórica, que se voltava ao entendimento dos vestígios das interações que aconteceram originalmente segundo critérios da prática profissional: a entrada em sintonia com a sintonia do outro, a construção de vínculos, a ação coletiva, a escuta e a expressão de todos os envolvidos na emergência das propostas, a produção coletiva de relatos e registros, a seleção do que tornar publicamente acessível como obra em coautoria. Aqui, pesquisador e participante são papéis reversíveis, na medida em que cada um se transforma nos processos de construção de conhecimentos de mão dupla, que se reportam tanto à instituição quanto à comunidade. Na análise dos produtos públicos deixados como vestígio, é possível inferir as condições pelas quais aquelas produções chegaram a ser o que eram no tempo em que foram propostas e feitas. E também as condições que as tornam o que são no presente, com novos sentidos e significados diante das demandas atuais. Falo aqui de sentidos e significados das produções, que inclui sua materialidade.

A psicologia indígena que pudemos reconhecer em nossa trajetória pressupõe, ainda, a criação de espaços de partilha. Nesses espaços, as experiências de diferentes comunidades acadêmicas e indígenas são narradas e promovem a abertura de discussões comparadas, nas quais se reconhece a territorialidade de cada processo, as pertinências e desafios relativos a cada situação específica. A participação nos processos de partilha demanda uma nova rodada reflexiva mais ampla, assegurando a autonomia de cada comunidade para significar seu próprio percurso e trocar sentidos com o que foi vivenciado pelas outras comunidades construtoras de conhecimento. Aqui, a psicologia é feita com impacto social. Não é mais o pesquisador, apenas, que pergunta ou observa. Os saberes indígenas não são retirados, recortados ou isolados para uma análise exterior. Todos se tornam participantes de um processo no qual emergem perguntas e se constrói comunitariamente os meios para respondê-las. Os envolvidos se tornam coautores do conhecimento.

(*) Danilo Silva Guimarães, professor do Instituto de Psicologia da USP

 

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