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Qual é o limite do desmatamento no Cerrado?

Por Ricardo Bomfim Machado (*) | 03/06/2020 06:43

A ocupação territorial é cada vez mais crescente em todo o planeta e, como consequência, a vegetação nativa tem sido substituída por cultivos, pastagens, áreas urbanas, malha viária, barragens e minerações.

Estima-se que aproximadamente 6 milhões de hectares de florestas tropicais sejam suprimidas anualmente e dados recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura - FAO  indicam o Brasil como o país que mais desmata no mundo.

Mas não somente as florestas estão sendo impactadas. O Cerrado era, até bem pouco tempo, a maior formação contínua de savana do planeta. Hoje encontra-se sob forte pressão antrópica. Já desmatamos mais da metade de suas áreas,  o que o torna o bioma brasileiro com a maior perda absoluta da cobertura vegetal original.

Dados do PRODES-INPE indicam que 46% do Cerrado (algo como a área somada da Espanha e França) já foram suprimidos. Mas qual é o efeito dessa intensa ocupação sobre a biodiversidade? Há um limite para a ocupação do Cerrado? Essas perguntas foram respondidas por um estudo desenvolvido por Thallita Grande, doutora em Ecologia pela UnB, e pelos professores Ludmilla Aguiar e Ricardo Machado, ambos do Departamento de Zoologia/IB.
Os pesquisadores avaliaram como a conectividade do Cerrado mudou entre os anos de 2000 e 2017. Conectividade é o termo que indica o quanto uma paisagem dificulta ou facilita o fluxo de indivíduos entre as populações locais.

Sabe-se que populações isoladas tendem a desaparecer ou apresentar problemas de consanguinidade. Assim, a diminuição da conectividade em uma paisagem é prejudicial à biodiversidade e a situação compromete a sustentabilidade das atividades humanas.

Para o estudo, o Cerrado foi dividido em 624 paisagens de 50x50km e em cada uma foi calculado um índice de conectividade para medir o grau de conectividade entre as áreas nativas: quanto maior o valor do índice, maior a conectividade e menores valores indicam paisagens com alto grau de isolamento (baixa conectividade).

Entre 2000 e 2017, o Cerrado perdeu aproximadamente 23% da sua área nativa (cerca de 254.000 km2) e essa perda comprometeu significativamente a conectividade nas paisagens. Os pesquisadores também avaliaram se a variação na conectividade teria sido mais importante do que a perda de hábitat em si. A análise mostrou que os desmatamentos afetaram mais significativamente a conectividade do que a redução da área nativa.

Isso aconteceu porque a maior parte da vegetação suprimida era de pequenos fragmentos, os quais, nas paisagens, funcionam como conectores entre outras áreas nativas. A única porção do Cerrado onde a perda de hábitat não comprometeu a conectividade foi no norte do bioma, em uma região que ainda detém a maior parte das áreas nativas.

Um outro resultado importante do estudo relaciona-se com o limite da ocupação territorial no Cerrado. O estudo mostrou que a conectividade nas paisagens é fortemente comprometida quando a área remanescente fica abaixo de 37%. Nesse limiar há uma ‘quebra’ na relação entre a conectividade e a área remanescente e em muitas regiões do Cerrado esse limite já foi ultrapassado.

Para complicar, o Código Florestal Brasileiro exige que os proprietários rurais mantenham apenas 20% das áreas nativas em suas terras. Se desejarmos que as atividades do agronegócio sejam mais sustentáveis, teremos que aumentar o percentual exigido dos proprietários ou aumentamos a participação do Poder Público na manutenção de áreas nativas complementares às áreas privadas.

(*) Ricardo Bomfim Machado é biólogo e professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas (IB). Coordena o Laboratório de Planejamento para Conservação que tem o objetivo de desenvolver análises diversas sobre a conservação da biodiversidade e respostas dos organismos às perturbações ambientais.