“Mercedita”, aplausos e lágrimas embalam despedida de Bernal
Ex-prefeito foi sepultado nesta segunda-feira cercado por familiares, amigos e políticos contemporâneos
Ao som de Mercedita, um dos chamamés mais famosos do mundo, letra que fala de um amor que termina, mas deixa lembrança, familiares, amigos e antigos aliados políticos se despediram do ex-prefeito Alcides Bernal na tarde desta segunda-feira (13), em Campo Grande. Descendente de paraguaios e ex-presidente da Colônia Paraguaia, antes do adeus, o político foi levado até o túmulo por cortejo marcado por músicas, lágrimas e aplausos.
RESUMO
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Desde o momento da oração até a retirada do caixão, as pessoas permaneceram ao redor dele. Quando a música começou, o choro se espalhou entre os presentes.
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Além de Mercedita, foram tocadas Gostava Tanto de Você, de Tim Maia, Longa Estrada da Vida, eternizada na voz da dupla Milionário e José Rico, e Noites Traiçoeiras, do Padre Marcelo Rossi. A descida do caixão foi marcada por aplausos.
Um dos que ajudaram a carregar o caixão foi o advogado Wilton Acosta, amigo de Bernal havia cerca de 25 anos e integrante da equipe responsável por sua defesa no caso do assassinato do fiscal tributário aposentado Roberto Carlos Mazzini. A amizade entre os dois começou justamente na Colônia Paraguaia.
A companheira do ex-prefeito, Mirian Elzy Gonçalves, e a filha, Sarah Anahi Bernal, acompanharam a despedida e preferiram não falar com a imprensa. Ao longo do dia, passaram pelo velório políticos, antigos integrantes da administração municipal, advogados e amigos de diferentes períodos da vida de Bernal.
Entre eles estavam o deputado federal Geraldo Resende, do União Brasil, o ex-prefeito e vereador Marquinhos Trad, do PV, o vereador Riverton de Souza, Beto Figueiró, a ex-secretária municipal Jacqueline Hildebrand Romero, o aposentado Valdemir Gamarra Gaúna e os advogados Ricardo Machado e Wiltob. Também esteve na despedida a publicitária Márcia Sherer, que trabalhou na campanha de Bernal e integrou a assessoria de comunicação da Prefeitura de Campo Grande durante a gestão dele.
Geraldo Resende afirmou que, embora nunca tenha sido próximo de Bernal, sempre respeitou sua trajetória e, principalmente, o resultado das urnas que o levou ao Paço Municipal. “O Bernal teve uma passagem vitoriosa pela política. Foi vítima, em algumas circunstâncias, da má política, mas acredito que deu a contribuição que podia, dentro daquilo em que acreditava”, afirmou.
O deputado lembrou que Bernal chegou ao cargo mais importante da Capital pela vontade popular e que, após ser cassado pela Câmara Municipal, acabou reconduzido ao posto por decisão judicial. “Eu nunca fui próximo dele. Ao contrário, não tínhamos proximidade, mas sempre tive respeito por ele como ser humano. Ele deu a contribuição que pôde para Campo Grande. Alguns podem achar que foi benéfica, outros podem pensar diferente, mas o importante é reconhecer que ele fez o esforço dele”, disse Geraldo.
Márcia Sherer, que conviveu profissionalmente com Bernal entre 2012 e 2018, disse que a notícia da morte deixou um sentimento de tristeza e injustiça. Para ela, essa sensação não se limita aos acontecimentos dos últimos meses, mas atravessa toda a trajetória política do ex-prefeito. “O Bernal sempre lutou por justiça, sempre buscou que a verdade sobre tudo o que viveu fosse revelada. Nós até acreditamos que isso aconteceria quando foi deflagrada a Operação Última Ratio, e isso nos deu esperança”, afirmou.
A publicitária também lembrou os anos em que trabalhou ao lado dele e as conversas frequentes sobre os embates políticos enfrentados pelo ex-prefeito. “Costumamos brincar que fomos ‘caçados’ junto com ele e depois voltamos com ele para a administração. Guardo excelentes lembranças desse período. Além da saudade, permanece esse sentimento de que a justiça ainda precisava ser feita. O Bernal vai deixar muita saudade.”
Segundo Márcia, Bernal mantinha a expectativa de provar sua versão sobre os acontecimentos que marcaram sua passagem pela política. “O Bernal confiava na Justiça e sempre dizia que a verdade seria provada, que conseguiria demonstrar tudo o que aconteceu em Campo Grande e todas as perseguições que sofreu. Essa esperança era muito presente nas nossas conversas, e essa é a lembrança que fica para mim.”
Marquinhos Trad, que sucedeu Bernal na administração municipal, afirmou durante o velório que os dois tiveram divergências políticas e administrativas, mas mantiveram uma relação de respeito. Também disse que o ex-prefeito enfrentou perseguições ao longo da trajetória e deixou sua marca na história da Capital.
Riverton de Souza destacou que a história de Bernal não poderia ser resumida aos episódios recentes. O vereador lembrou que ele passou pelo rádio, exerceu dois mandatos de vereador e chegou à Prefeitura sem pertencer a uma família tradicional da política estadual. Beto Figueiró avaliou que a cassação de 2014 foi um marco que acompanhou Bernal pelo restante da vida pública. Já Jacqueline Hildebrand Romero recordou as oportunidades profissionais que recebeu do ex-prefeito e a atuação ao lado dele no Legislativo e no Executivo.
Do rádio à Prefeitura e à prisão
Bernal nasceu em Corumbá, formou-se em Direito e começou a trabalhar como radialista em 1992. Foi eleito vereador de Campo Grande em 2004 e reeleito quatro anos depois. Em 2010, chegou à ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) com 26,1 mil votos.
Em 2012, venceu a eleição para prefeito com 270.927 votos no segundo turno, o equivalente a 62,55% dos votos válidos. Dois anos depois, tornou-se o primeiro prefeito de Campo Grande cassado pela Câmara Municipal. Em agosto de 2015, voltou ao cargo por decisão judicial e concluiu o mandato no fim de 2016.
Nos últimos meses de vida, Bernal voltou aos holofotes após ser preso preventivamente, em 24 de março, pela morte do auditor fiscal de 61 anos. O ex-prefeito admitia ter atirado, mas sustentava que agiu em legítima defesa. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por sua vez, apresentou outra versão sobre a motivação do crime. Bernal morreu antes de ser julgado.
A morte aconteceu às 0h35 desta segunda-feira (13), depois de o ex-prefeito sofrer um novo infarto e ser submetido ao terceiro cateterismo de urgência desde o início da internação na Santa Casa. Os médicos constataram trombose nos stents implantados nas artérias do coração. Após sucessivas tentativas de reanimação, o óbito foi constatado. Bernal tinha 60 anos e completaria 61 nesta terça-feira (14).
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