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Campo Grande, Domingo, 24 de Junho de 2018

08/10/2015 15:07

Ser criança em tempos difíceis

Por Tiago Duque (*)

A infância, como se sabe, não é um dado fixo e imutável. Como qualquer experiência histórico-cultural, vale a pena problematiza-la, afinal, o seu entendimento diz respeito à forma como lidamos com o que a envolve: ciência, religião, poder, política, direitos, trabalho e, entre outros aspectos da produção das diferenças, o gênero e a sexualidade.

Há meses se ouve o quanto as crianças estão em perigo diante do que se tem chamado de “ditadura gayzista” e “ideologia de gênero”. Tempos difíceis esses que por traz de “boas intenções” em, supostamente, defender a infância, se conquista poder e vantagens que em nada protegem as nossas crianças; pelo contrário, as expões às práticas intolerantes e preconceituosas que levam a uma sociedade injusta e desigual, na qual já são vítimas e logo-logo terão que enfrentar.

O que se tem apontado como “ditadura gay” nada mais é do que algumas poucas conquistas de direitos igualitários (ou a briga para que estes sejam ampliados) para aqueles/as que não se identificam como heterossexuais. Já a consolidação do ensino daquilo que há tempos as ciências humanas têm como verdade, isto é, que a identificação das pessoas como masculinas e/ou femininas é uma experiência cultural (não está dado pelo o que se convencionou chamar de sexo biológico), é tida como uma “falsa compreensão da realidade” – uma suposta “ideologia”.

Mas, o que realmente interessa àqueles/as que inventaram ou usam esses termos para desqualificar as diferenças humanas? Não sejamos ingênuos/as. Caso o objetivo fosse a proteção das crianças, logo, das famílias, esse tipo de discurso levaria em consideração todas elas. Por que há só um tipo de família, logo, de infância, que merece proteção e legitimidade e outras não? É obvio que o foco de interesse daqueles/as que querem acabar, entre outras coisas, com os direitos de gays (e também de lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) e temem o ensino sobre gênero nas escolas, é o que estas famílias e crianças representam, e, infelizmente, não elas por elas mesmas.

Nem a santificada heterossexualidade compulsória, atribuída culturalmente aos bebês antes deles nascerem, explica a fixação dos/das conservadores/as na então luta pela valorização da família dita “tradicional” (é sempre bom lembrar que, se formos olhar para a tradição da humanidade, vivemos mais tempo em outros formatos familiares que não esse “pai-mãe-filhos” dito natural). Afinal, não é toda performance heterossexual que esse pessoal defende e apoia.

Para eles/elas, não basta ser heterossexual, é preciso ensinar as crianças a serem como muitos pais e mães que se identificam com esse perfil de liderança. É preciso ser pouco crítico às desigualdades na produção das diferenças sociais, além de ser muito conservador e moralista. Só assim as coisas permanecerão injustas como são, mas altamente lucrativa para essa gente que não respeita o Estado Laico (isto é, a Constituição) e, nem mesmo, os espaços democráticos de representação política.

Não se trata de ter pena das criancinhas que vivem sob uma relação de poder como a que temos construído, onde elas tendem a ser destituídas da possibilidade de identificação e reconhecimento com uma humanidade absolutamente rica em suas diferenças, não só de gênero e sexualidade, mas também, por exemplo, de religião e raça/cor/etnia.

Precisamos desmascarar os jogos de poder que estão envolvidos nos discursos de proteção a apenas um tipo de família, que corresponde a um modelo esperado de ser criança (no qual não cabe a valorização das crianças de famílias indígenas, candomblecistas, homoafetivas, porque, no fundo, estas famílias não servem, necessariamente, aos interesses desses/as moralistas poderosos/as e conservadores/as).

Dito de outro modo, atentamo-nos para o que representa aquelas infâncias vividas em famílias que não correspondem à heterossexualidade santificada, à religião cristã ou a um ideal de miscigenação pacificador em meio aos preconceitos e injustiças religiosas, raciais, étnicas e sociais. Elas representam as diferenças da própria experiência humana, que atrapalha o projeto político daqueles/as fantasiados/as de defensores/as da família e protetores/as de “todas as crianças indefesas”.

(*) Tiago Duque*, doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP, professor da UFMS no curso de Bacharelado em Ciências Sociais (Campo Grande) e no Mestrado em Educação do Campus Pantanal (Corumbá). Coordena o “Impróprias – Grupo de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Diferenças” (CNPq/UFMS). É autor do livro “Montagens e Desmontagens: desejo, estigma e vergonha entre travestis adolescentes”.

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