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Saúde e Bem-Estar

Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS

Problemas persistem mesmo com ações para levar vacinas até a população

Por Cassia Modena | 19/09/2026 09:58
Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS
Vacinadora prepara seringa para dose em unidade de saúde de Bandeirantes (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Vacimóvel, drive thru, plantão em supermercado e shopping, além de outras ideias colocadas em prática para aumentar os índices de vacinação em Mato Grosso do Sul têm dado resultado, mas algumas doses persistem com cobertura abaixo da meta.

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Mato Grosso do Sul enfrenta desafios para ampliar a cobertura vacinal, com doses como a Tríplice Viral, Qdenga e vacinas contra covid-19 abaixo de 80% da meta. Segundo especialistas, o principal obstáculo é o acesso, já que unidades funcionam em horário comercial. Municípios como Bandeirantes e Corguinho, com população rural expressiva, registram baixos índices, em parte por atraso na atualização de dados no sistema do Ministério da Saúde.

É o caso da segunda dose da Tríplice Viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) e da Qdenga (contra a dengue), das duas doses contra o vírus da catapora, dos imunizantes contra a covid-19 entre grupos como as gestantes e também da vacina que protege de quadros graves da influenza. Os percentuais estão abaixo dos 80%, de acordo com a última atualização da Rede Nacional de Dados em Saúde do Ministério da Saúde.

O movimento antivacina e as fake news podem justificar em parte a resistência às vacinas. Mas para o enfermeiro doutor em Saúde e professor do mestrado em Saúde da Família, Nathan Aratani, o principal problema está no acesso à imunização.

Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS
Arte: Campo Grande News

“Talvez a grande fragilidade ainda seja a organização do acesso. Geralmente, as unidades funcionam de segunda a sexta-feira, em horário comercial. A população economicamente ativa, às vezes, não consegue estar nos serviços de saúde em horário compatível com o trabalho”, começa.

O Estado destina recursos para garantir plantões em alguns finais de semana e feriados, e as próprias prefeituras enviam equipes para vacinar populações que vivem em áreas afastadas pontualmente. Porém, falta criar ainda mais oportunidades para a vacinação fora dos postos de saúde, defende o professor.

Vacinadores existem em quantidade suficiente, mesmo no interior, acrescenta Nathan. Eles precisam ir até quem precisa ser vacinado ou estar em locais que não sejam apenas os postos de saúde, inclusive quando se fala da região urbana. “Não dá para vincular a vacinação apenas aos serviços de saúde. A gente precisa ter ações extramuros”, reforça.

Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS
Bebê atualiza a caderneta de vacina em assentamento de Bandeirantes (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Ele alerta ainda que as coberturas vacinais são boas entre crianças até 4 anos, mas vão caindo entre adolescentes, adultos e idosos. "Depois que passa do primeiro ano de vida, a gente vê um decréscimo porque aí os pais, os responsáveis, acabam esquecendo de consultar a caderneta vacinal", acrescenta.

Bandeirantes e Corguinho - Segundo os dados do Ministério da Saúde, duas das cidades com menores coberturas atualmente, considerando as vacinas mais distantes da meta em Mato Grosso do Sul, são Bandeirantes e Corguinho. Elas têm em comum uma parte significativa da população nas áreas rurais.

Em conversa com a reportagem, os secretários municipais de Saúde enviaram fotos e informativos para comprovar que profissionais de saúde têm ido até as regiões mais distantes dos municípios todas as semanas, e justificar que o problema está na falta de atualização do sistema do Ministério da Saúde por falha das próprias Secretarias. Eles atribuem o atraso à transição política nos municípios.

Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS
Dentro de veículo adaptado para vacinação, o Vacimível, moradora da área rural de Corguinho é imunizada (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Alex Julião assumiu o cargo em Corguinho na gestão municipal que começou há pouco mais de um ano, após o ex-prefeito ser declarado inelegível. Ele afirma que a equipe que cuida do envio de dados para o Ministério da Saúde perdeu um certificado exigido para acessar o sistema de Brasília (DF) e ainda não conseguiu resolver o problema.

“Nós estamos vacinando, só não está atualizado. Como temos alto índice de pessoas que usufruem do Bolsa Família e o programa pede a vacinação, a procura das mães é grande para vacinar as crianças. A gente faz campanha nos assentamentos, fazendas, distritos. Deixamos aberta a sala de vacina no posto de saúde aos sábados pensando em quem trabalha a semana toda, principalmente no frigorífico, e não tem oportunidade de ir”, afirma.

Rafael Maciel Acosta, secretário de Saúde em Bandeirantes desde março deste ano, afirma que o sistema também está em processo de atualização. "Esse trabalho ficou em atraso porque foi preciso fazer outros ajustes antes. Mas nós estamos vacinando, indo todas as semanas até assentamentos, inclusive. Conforme o nosso controle, as coberturas estão próximas de 100%. Estamos atualizando", conclui.

Municípios do interior com características semelhantes a Bandeirantes e Corguinho são os que mais precisam lidar com o desafio do acesso. “Levar a vacina seis ou sete horas para dentro do Pantanal ou para algumas áreas rurais torna a imunização um desafio maior”, exemplifica Nathan.

Vacinas novas - Outro fator que atrapalha o alcance das vacinas é a demora para a aceitação de imunizantes incorporados recentemente ao PNI (Programa Nacional de Imunização) do SUS. Leva um tempo para a população conhecê-los, entender sua indicação e aderir. A Qdenga, as vacinas contra a covid-19 e a que combate o VSR (vírus sincicial respiratório) são exemplos.

Vacinação esbarra em horário de trabalho e distância dos postos em MS
O doutor em Saúde Nathan Aratani defende mais acesso para ampliar cobertura (Foto: Arquivo pessoal)

Já a vacina contra o HPV, apesar de disponível há mais de 10 anos, acaba tendo menor cobertura entre meninos em comparação às meninas por algo que precisa ser melhor comunicado nas campanhas, na visão do enfermeiro. "A gente associou muito a vacina à proteção contra o câncer de colo do útero. Talvez essa comunicação não tenha sido tão efetiva", afirma.

A associação falsa entre infarto e a vacinação contra a covid-19 pode estar atrapalhando um pouco essa cobertura. "Mas nenhum estudo comprovou. Quando a gente universaliza a vacinação, as doenças vão acontecendo no seu ciclo natural. Algumas pessoas tinham doenças de base, e tinham se imunizado num período próximo. Reforçando: hoje, a gente não tem nenhum estudo que comprove essa relação", finaliza.

Estratégias - Questionada sobre as estratégias para contornar todos esses desafios em Mato Grosso do Sul e apoiar os municípios, a SES (Secretaria Estadual de Saúde) destacou o programa MS Vacina Mais, que destina recursos para a busca ativa e funcionamento das unidades em horários diferenciados; a disponibilização de Vacimóveis para vacinação extramuros e em locais de difícil acesso; a estruturação da rede de frio municipal; as capacitações; e mobilizações voltadas às equipes de vacinação.

"A SES também atua em articulação com outras instituições, incluindo ações no ambiente escolar, como estratégia para ampliar a atualização da situação vacinal e facilitar o acesso da população às vacinas", complementa.

A pasta reconhece as dificuldades e elenca "acesso aos serviços, informação, disponibilidade das vacinas, educação em saúde, mobilização da população e atualização dos sistemas de informação" como fatores que mais interferem na cobertura vacinal.

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